2015 Diversos Folk Resenhas Rock

Steve Hackett – Wolflight (2015)

Cover

A excepcional viagem mitológica de Hackett na luz do lobo

Por Lucas Scaliza

O guitarrista inglês Steve Hackett, uma das mãos e mentes mais interessantes do rock progressivo de ontem e de hoje (ao lado de Steve Howe, David Gilmour e Robert Fripp), não cansa de surpreender, seja criando músicas novas ou reinterpretando antigas composições de sua clássica banda Genesis. É tudo recheado de bom gosto, técnica apurada e um certo grau de exploração musical que o distancia dos guitarristas mais comuns e mais focados em apenas um estilo musical.

Wolflight, seu novo disco solo, é um acréscimo de rock com batidas tribais, inspirações mitológicas e expressão folclórica (na temática e na música). É a lenda da guitarra usando as lendas populares europeias para nortear um novo trabalho muito bem feito, inteligente e com ótimos músicos. Sem sombra de dúvida, é uma obra fundamental para o rock progressivo atual que não deixa de fazer reverência aos ícones do passado.

Logo em “Out of the body” ouvimos um uivo que é seguido por uma música instrumental que expõe o trabalho de teclados e orquestração de Roger King, parceiro de composição de Hackett e peça chave em Wolflight. A guitarra de Hackett não demora a surgir e mostrar que ele continua sabendo usar bends como ninguém e seu invejável sustain nas seis cordas.

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“Wolflight”, na sequência, inicia a jornada étnica e mística que o disco propõe. O tar, um instrumento de cordas de países como Irã e Azerbaijão, é tocado pelo músico Malik Mansurov, que faz uma melodia exótica. Na mesma faixa, eles encaixam um digeridoo, um instrumento de sopro africano tocado por Sara Kovacs. O digeridoo é um longo “cano” de madeira que emite um som grave, muito parecido com o berrante sertanejo do Brasil. Hackett logo aparece com um dedilhado rico no violão. Aqui o folclórico vai se desenvolvendo até encontrar os riffs de rock e intervenções orquestrais e eletrônicas de King. A percussão de Gary O’Toole e o stick de Nick Beggs (que também toca na banda de Steven Wilson) são um primor, sempre a favor da característica tribal que a música emana.

“Love Song to a Vampire”, a melhor e mais longa do disco, é outra que começa com os dedos ágeis de Hackett em um alaúde árabe executando um tema misterioso que deságua em um refrão grandioso. A linha de baixo, impossível de não notar, é executada por ninguém menos que Chris Squire (do Yes). Uma música sobre violência doméstica, delicada e que cresce em nossos ouvidos.

Outro grande destaque de Wolflight é “The Wheels Keep Turning”, sobre as memórias de infância de Hackett, o que ajuda a explicar o clima circense de sua introdução. Seu primeiro ato é uma das cosias mais coloridas que Hackett já compôs, mas não demora para que vire uma canção notavelmente progressiva, cheia de mudanças de dinâmica e ritmo. Uma faixa que poderia muito bem ter sido composta na década de 1970. Hackett, King e sua esposa, Jo Hackett, que também participou do processo de criação do disco, ainda sabem como soar nostálgicos sem cair no pastiche.

“Corycian Fire”, a música de inspiração grega do trabalho e que, por isso apenas, já deixa caminho livre para o compositor brincar com escalas diferentes, significados e explorar uma atmosfera noturna e mitológica. É mais uma canção interessante que vai se transformando, misturando o folclórico, o étnico, a modernidade do rock e corais gregos.

Vale lembrar que música grega é terreno conhecido, pois Hackett já fez outras músicas “gregas” com o Genesis (como “The Fountain of Salmasis” e “Cinema Show”). No entanto, o que motivou esta, segundo ele, foi sua experiência em uma caverna de Delfos, onde ocorriam as previsões do futuro. Segundo ele, era um dos lugares mais assustadores que já visitou. Precisou subir uma montanha por uma hora e meia até encontrar a entrada, um local mais antigo do que a criação do deus grego Apolo, onde mulheres entravam para fazer ritos secretos. Era também um lugar onde o gás etileno era liberado, fazendo com que todos lá dentro ficassem muito chapados.

A instrumental “Earthshine” é mais uma mostra da técnica e bom gosto de Hackett com o violão clássico, talvez a peça mais virtuosa de Wolflight. “Loving Sea”, também acústica e com vocais harmonizados, é o compositor usando um violão de 12 cordas.

“Black Thunder”, mais uma música de tema social, sobre Martin Luther King, tem uma pegada rock’n’roll mais acentuada, calcada em riffs e pequenos solos entre um verso e outro. O baixo de Nick Beggs faz sentir sua presença mais uma vez, executando o riff da guitarra e deixando Hackett livre para solar. Há ainda um solo de duduk, instrumento de sopro usado na música popular da Europa central e do leste, muito conhecido na Armênia. No final, ainda cabe um solo de saxofone. Ambos os instrumentos são executados por Rob Townsend.

“Dust and dreams”, que remete a um deserto, tem percussão caprichada de Hugo Dagenhardt e mais um baixo bem feito de Beggs, que nunca perdem de vista o aspecto étnico da musicalidade de Wolflight. O clima desértico do norte da África ganha ares épicos em sua segunda parte. Os solos de Hackett dão brilho e destaque para notas longas e riffs que imitam os ritmos dessas regiões.

A gentil “Heart Song”, que fecha o álbum, é a canção mais acessível de Wolflight e não chega a 3 minutos, mas Hackett dá um show de timbre com sua Gibson.

De maneira geral, Hackett continua sendo um virtuoso que sabe a hora certa de soltar a mão, mas geralmente trabalha boas melodias na guitarra, não a velocidade. Ele também investe em técnica para fazer seus solos e improvisos soarem bonitos e brilhantes, não em virtuose gratuita.

A tal “Wolflight” (luz do lobo) que dá título ao trabalho, é um termo emprestado de Homero (mais uma referência grega), que no clássico épico Odisseia fala de Odisseu acordando na luz do lobo, a hora antes do amanhecer, quando ainda está escuro, mas a luz começa a mudar. É a hora que os lobos começam a caçar.

Wolflight é ambicioso. É um disco que tenta ampliar os horizontes e a forma musical tanto do próprio Hackett quanto de seus ouvintes. Apenas por isso, já vale conhecer a obra. Mas no meio de tantas referências geográficas distintas (Grécia, Azerbaijão, Armênia, deserto do Saara, história social americana, etc) há um disco de rock progressivo contido ali. É novamente o rock deixando de ser banal para virar veículo – ou mais um elemento – de música como real expressão estética, com significado, simbolismo, técnica e, além disso tudo, de forma bastante palatável. Basta estar disposto.

Recentemente, os holandeses Arjen Lucassen e Anneke van Giersbergen lançaram The Diary sob a alcunha The Gentle Storm , um disco conceitual duplo com as mesmas composições sendo interpretadas como música folclórica de um lado e como metal melódico e progressivo no outro. Em que pese a originalidade da ideia, Steve Hackett colocou a empreitada dos holandeses no bolso, sendo muito mais original e indo muito além em sua musicalidade. Ambos demandaram pesquisa, mas Wolflight corre muito mais riscos e ainda encaixa a guitarra do músico inglês no meio dessa experiência sem parecer um objeto estranho.

Hackett tem uma longa carreira solo e uma longa lista de colaborações com diversos músicos importantes. Embora tenha muito sucesso quando resolve regravar Genesis e sair em turnê com as músicas de sua antiga banda, é inegável que ele é muito mais do que “o guitarrista do Genesis”. Ele é Steve Hackett, e sua obra fala por si.

Foto: Tina Korhonen
Foto: Tina Korhonen

6 comentários em “Steve Hackett – Wolflight (2015)

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