Sufjan Stevens – Carrie & Lowell (2015)

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De volta às origens. Um folk cheio de significado e a busca implacável pelos restos afetivos de uma mãe que já se foi

Por Lucas Scaliza

O novo disco do compositor americano Sufjan Stevens, que não lançava nada novo desde 2010, deixou as ambições sonoras que marcaram The Age of Adz (2010) de lado e se dedicou apenas a composições mais sóbrias, fofas, dedilhadas e delicadas em Carrie & Lowell, seu belo e tranquilo (só na superfície) novo álbum.

Portanto, quem queria ver para onde as experimentações sonoras de Stevens seguiria após um hiato de cinco anos, a resposta é: ele não seguiu em frente com essa estética. Voltou a afirmar seu lado mais folk e mais indie, mas não de forma crua. Há alguns temperos, atmosferas e efeitos que dão o colorido necessário às suas composições.

Embora The Age of Adz fosse uma viagem sonora interessante de ácido e música eletrônica, Carrie & Lowell soa mais maduro. É claro que se perde bastante da exploração que havia ali e que agora parece ausente ou meramente suscitado, mas temos que levar em conta que Stevens preferiu outro caminho e compreender o trabalho a partir dessa decisão. Sem falar que, apesar de todos os pontos positivos, havia muita gordura na sonoridade de The Age of Adz. (Só para avisar, dessa vez ele não deu uma de Transatlantic e não fez nenhuma música de 25 minutos).

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Com menos instrumentos em jogo do que o disco anterior e Illinois (2005), ele faz um trabalho que tira sua força de melodias e harmonias muito bem feitas e letras que falam diretamente ao coração. A abertura com “Death With Dignity” é tão lírica quanto labiríntica, até que a morte enfim aparece se associando à palavra mãe e, de repente, temos o contexto da faixa e ficamos um pouco mais melancólicos, apesar de toda a doçura do dedilhado.

Cabe informar que o nome do disco é um tributo, ou homenagem, a sua mãe (Carrie) e ao seu padrasto (Lowell). Há diversas menções a regiões do Oregon, onde Sufjan passou três verões com eles quando era pequeno e dá para sentir como se o compositor tentasse chegar a algum acordo com seu coração e sua mente sobre sua mãe, que faleceu em dezembro de 2012 vítima de câncer, mas ela também sofria de transtorno bipolar, esquizofrenia, depressão e vício em álcool e drogas. Ela se afastou da família quando Sufjan tinha um ano. Ele foi morar em Detroit com o pai e a madrasta. Imaginem, assim, a dificuldade de se compreender a própria mãe em um cenário desses.

Por isso, a tranquilidade que o álbum externa é apenas superficial. Se mergulhar um pouquinho melhor na obra, verá que Carrie & Lowell é cheio de subtextos e perplexidade. Um filho nadando em águas turbulentas.

Em “All of Me Wants All of You”, ele diz: “Vamos celebrar ou deixar isso de lado?/ Você não é a melhor pessoa para falar sobre isso/ Você viu suas mensagens enquanto eu me masturbava/ Manelich, me sinto tão usado”. E quando parece que a faixa se resume a um comentário sobre as relações rápidas sem entrega ou profundidade, ele dá uma guinada e volta, ao que parece, falar da mãe, de como busca a sua sombra e de como “todo o meu eu pensa menos em você”.

Alusões espirituais e religiosas também continuam aparecendo implicitamente ou explicitamente, como é o caso de “Drawn to the Blood” e mais ainda em “No Shade in the Shadow of the Cross”. Nesta, o autor usa figuras de linguagem bíblicas: a cruz é o peso da perda/morte/ausência da mãe e a sombra dessa cruz, no entanto, não oferece conforto ou alívio. Como disse, há perplexidade por todo canto.

E não pense que é de apenas violões que sobrevive Carrie & Lowell. A incrivelmente bela e etérea “Fourth of July” tem um teclado bem simples na base e um sintetizador que paira como um fantasma ao longo de toda a faixa. A linguagem que Stevens usa nessa faixa para se referir ao câncer e à sua mãe provam, mais uma vez, que ele sabe usar as palavras. “O mau se espalha como uma febre/ Era noite quando você morreu, minha vaga-lume”. A letra é intrincada, às vezes é o filho falando sobre a mãe, às vezes é a mãe falando ao filho, do além. Nem todas as referências são fáceis de pegar. Mas com sensibilidade é possível sentir toda a aflição desse Sufjan Stevens.

A faixa seguinte, “The Only Thing”, retrata o comportamento autodestrutivo que Stevens resolveu adotar por um tempo após a morte de Carrie para tentar se sentir como ela – ou mais próximo dela.

Neste formato folk cheio de violões, Sufjan Stevens precisou manter os arranjos e as melodias bem desenvolvidas – características que sempre foram uma constante em sua carreira até agora – e, dessa forma, seus acordes soam mais bem escolhidos. A proximidade com o trabalho dos noruegueses do Kings of Convenience chama a atenção. A entrega ao tema, bem como a qualidade literária das letras e a música bem desenvolvida e extremamente pessoal, lembram outros ótimos discos de 2015: I Love You Honeybear, de Father John Misty, e Vulnicura, da Björk. Uma trinca que se abre completamente para nos revelar pedaços de suas histórias pessoais em forma de ótima música. Sem falar que este ano também marca os 40 anos de Blood On The Tracks (1975), do Bob Dylan, álbum “pai” de todos os discos confessionais. A obra também guarda um parentesco com o folk country maduro e sentimental de Benji, do Sun Kil Moon.

Sufjan tem 39 anos, mas não aparenta a idade. A experiência da morte o fez amadurecer bastante, segundo ele mesmo, e vemos que sua música reflete isso. Muitas partes de Carrie & Lowell foram gravadas em seu apartamento no Brooklyn. Ele viajou ao Oregon recentemente e trouxe muitas fotografias de lá. Também gravou algumas das músicas com um iPhone em um hotel em Klamath Falls (Oregon). O trabalho de Stevens sempre teve muitas referências geográficas (um disco chama-se Illinois, outro chama-se Michigan; uma de suas músicas mais conhecidas é “Chicago” e, fora as citações de lugares do Oregon no novo disco, tem a música “Eugene”, cidade do Oregon onde sua mãe viveu) e não é diferente agora. Assim como as referências bíblicas – elemento que Bob Dylan também soube usar muito bem.

Nota-se também elementos da mitologia grega por todo o disco. Icaro, Poseidon, Erebus, Perseu, Medusa, Pégaso e Efêmera, todos com seus significados para serem descobertos pelo ouvinte. Nada é gratuito, nada está ali apenas para rimar mais facilmente. Nem mesmo as referências aos índios americanos ou aos seres voadores (pássaros e insetos). A música é bonita na superfície, mas as letras são importantíssimas. Não é um disco meramente divertido.

Existe também a presença de um teclado/sintetizador em diversas faixas – no fim de “Death With Dignity”, “All of me Wants All of You”, “Drawn to the Blood” e “Carrie & Lowell”; ao longo de toda “Fourth of July” e “Blue Bucket of Gold”;  – que, me parece, atesta a presença fantasmagórica da mãe na obra. Esse som não é assombrado, é até muito terno, mas uma ternura escapista que não parece conseguir ter contato físico. Acaba virando uma textura sonora melíflua que draga o ouvinte para mais perto de Sufjan Stevens e seu dilema e sua dor.

Dói porque não há solução. Stevens não chega a uma conclusão. Sua música está bonita como nunca, mas não há nada que ele precise entender que já não esteja no disco e em sua mente. Não é a música de fossa de alguém que terminou o relacionamento e está fazendo um drama eloquente. É um luto real, delicado mas sem volta, cantado por alguém que sabe que não há saída.

please credit © Denny Renshaw

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