2015 Jazz Resenhas

Gavin Harrison – Cheating The Polygraph (2015)

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Porcupine Tree em versão jazz de big band é um trabalho de fôlego e altamente sofisticado

Por Lucas Scaliza

Gavin Harrison, um baterista criativo, meticuloso, estudioso das formas e subdivisões rítmicas (ele até mesmo escreveu um livro sobre os segredos da rítmica), acaba de entregar releituras em jazz, acompanhado por uma big band, de músicas do Porcupine Tree. É um disco para cima, mas de estrutura bastante complexa e pode não agradar logo de cara o ouvinte de rock – ou de Porcupine Tree – que não tem nenhuma intimidade com o jazz contemporâneo. Não é soft jazz o que encontramos em Cheating The Polygraph. É jazz de ação, cheio de ritmos quebrados, splash para todo lado e um tanto de invenção para poder rearranjar as músicas decentemente para o jazz, para que não fique uma coisa mais ou menos, como o Deep Purple tentou. Talvez assistir ao filme Whiplash, que é sobre músicos de jazz em uma big band, ajude a familiarizar seus sentidos com o tipo de música que encontrará em Cheating The Polygraph.

Cabe dizer que essa transição foi completa. Você não tem vocais nas oito faixas do álbum e não há guitarra na banda para fazer riffs, solos e bases. É tudo adaptado para baixo, trompete, trombone, clarinete, flauta, marimba, gongo e teclado. Por isso, não se assuste se a princípio não reconhecer nenhuma música do Porcupine Tree nas faixas. Elas estão ali, basta seu ouvido se acostumar com o novo modelo de arranjo. Uma faixa boa para começar a degustação do trabalho é “Hatesong/Halo”, cujo baixo, que dá a tônica nas duas músicas, foi mantido muito próximo do original e facilmente reconhecível. A bateria de Gavin nessa faixa também está mais comedida e próxima do original, sem tantas viradas que serão constantes em outros vários momentos do disco.

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Cheating The Polygraph não utiliza uma big band que soa clássica, é bem diferente do jazz mais acessível que vemos por aí. A pegada do grupo é mais contemporâneo, propondo até novas estruturas para os temas de jazz, bem no estilo da big band norueguesa Jagga Jazzist. E isso fica bem claro logo na introdução do álbum, com mais de 7 minutos de “What Happens Now”, onde vários instrumentos criam camadas sonoras até mesmo conflitantes entre si e seguem suas partituras até que o riff inicial da canção seja identificado. Preste atenção no baixo dessa faixa. É insano.

Embora o projeto tenha sido anunciado apenas em 2014 e lançado em abril de 2015, o projeto vinha sendo desenvolvido há 5 anos. Para readaptar todas as faixas escolhidas, Gavin Harrison contou com o talentoso arranjador Laurence Cottle (baixista e compositor que já tocou baixo em um disco do Balck Sabbath, em um trabalho do Alan Parson’s Project e com diversos músicos ingleses de jazz). Seu trabalho fez com que as composições do Porcupine Tree ficassem brilhantes também no formato big band e às vezes até mais fortes do que as originais. E Cottle também responde por todas as maravilhosas linhas de baixo do trabalho. O saxofonista inglês Nigel Hitchcock, que já trabalhou com uma gama de artistas de estilos diferentes, indo do pop às orquestras de jazz, também figura no álbum.

Ao longo de todo o disco, perceba como os instrumentos seguem ritmos diferentes. Pode parecer um caos a princípio, mas é a polirritmia de que Harrison tem falado em entrevistas, um elemento que foi necessário incorporar para que a adaptação não só fosse possível como também tivesse os elementos contemporâneos para uma banda de jazz com mais de 10 músicos. É um elemento sofisticado e que enriquece a interpretação de cada faixa.

“The Pills I’m Taking”, a segunda parte da exelente “Anesthetize” do Porcupine Tree, ganhou uma reinterpretação à altura do que é a faixa original, com metais reproduzindo partes importantes da guitarra e criando ainda mais camadas de arranjos do que há originalmente. Harrison ainda encaixou uma referência ao baterista de jazz Buddy Rich, uma citação de “Love For Sale” em um dos breaks. “The Start of Something Beautiful” é outra que passou por um trabalho de reconstrução, tirando suas obviedades logo de início e, mesmo depois que você já identificou a canção, fazem questão de deixar tudo mais complicado.

“Heartattack in Layby/The Creator Has a Mastertape/Surfer” é uma das faixas mais interessantes do álbum. Aglutinar três canções em uma só é praticamente um exercício de composição, não apenas de rearranjo. É outra faixa que pode descer mais facilmente para o ouvinte que não está acostumado com as big bands. O jazz está presente, mas manteve as melodias originais bem identificáveis. Já “The Sound of Muzak/So Called Friend” despertou curiosidade desde que o setlist do disco foi revelado. “The Sound of Muzak” tem um dedilhado na guitarra e compasso em 7/4. Além disso, teria que criar uma transição para “So Called Friend”, que também é em 7/4. A primeira surpresa é que o baixo de Cottle é quem reproduz o dedilhado da guitarra e o BPM da música foi aumentado. É outra que ganhou diversos contornos, viradas de bateria incríveis e uma grande dose de invenção. Uma faixa que mostra que Cheating The Polygraph pode ser ouvido como um trabalho único, sem precisar que o ouvinte tenha qualquer relação com as músicas do Porcupine Tree. Igualmente intrincada ficou a nova versão de “Cheating The Polygraph”, que transformou uma passagem em um crescendo que funciona melhor que na música original.

Steven Wilson, líder e principal compositor do Porcupine Tree, elogiou o trabalho de Gavin Harrison e Cottle, dizendo que ele mesmo não reconheceu “The Sound of Muzak” na versão big band.

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“Futile”, que fecha o álbum, foi a primeira experiência de Cottle e Harrison, feita antes de o projeto do álbum ser pensado. É uma das músicas mais solares do disco e vai agradar muito fãs de big band. As cadências e quebras rítmicas do rock progressivo se encaixaram muito bem no formato jazz, permitindo que cada faixa soe genuína e não apenas como uma espécie de cover.

Gavin Harrison fez fama no Porcupine Tree e atualmente acompanha o King Crimson. Frequentemente é comparado com Neil Peart, do Rush. Ele nunca tocou em uma banda de jazz ou estudou tão afundo o estilo, mas seu pai era um trompetista de jazz. Ainda criança, presenciou uma série de jam sessions jazzistas em sua casa.

Embora às vezes exista 18 instrumentos tocando ao mesmo tempo, Harrison explica que não necessariamente havia 18 músicos nas sessões. Ao gravar cada faixa, o mesmo trompetista poderia gravar as diferentes partes do instrumento. O mesmo saxofonista poderia repetir seis vezes o procedimento. Esse tipo de gravação não é a mais comum para uma big band. Geralmente, grava-se a big band toda tocando junto de uma vez. Mas a separação foi necessária para o projeto poder ser gravado em alta resolução (surround 5.1) e sem que a captação de nenhum instrumento fosse prejudicada por outro tocando na mesma sala de estúdio. Harrison só entrou em estúdio para gravar as baterias no final dos cinco anos do projeto e tocou todas as suas partes (que estão incríveis) em apenas uma semana, assim conseguiria manter um mesmo estilo de se expressar ao longo de todo o trabalho, sem as diferenças de timbre, técnica e pegada que cinco anos entre uma faixa e outra poderiam acarretar.

Talvez não seja um disco que agrade completamente nem mesmo aos fãs de Porcupine Tree, mas é um trabalho de imaginação e técnica que vale a pena ser conferido e ouvido com atenção. De forma alguma é um disco chato ou que te aborrece. Além disso, é novamente uma oportunidade de ouvir o baixo de Laurence Cottle e o estilo detalhista e elegante de Gavin Harrison tocar.

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2 comentários em “Gavin Harrison – Cheating The Polygraph (2015)

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