2015 Funk Indie Pop Resenhas Rock Soul

Unknown Mortal Orchestra – Multi-Love (2015)

UMO - Multi love

Voltamos aos anos 70 com um disco gostoso e cheio de músicas boas

Por Lucas Scaliza

Se você passou os últimos 15 anos respirando na superfície do planeta Terra, tem acesso à internet e é curioso com a arte em geral, sabe que fronteiras rígidas entre estilos musicais é algo que não existe mais, ou sobrevive apenas em grupos mais focados em um único nicho de mercado. Agora, se você presta atenção na cena musical de hoje e de ontem, desde os anos 1960, sabe que essas fronteiras não existem faz mais tempo. E há bandas que ressaltam isso.

Entre tantas, o Unknown Mortal Orchestra, um trio de músicos dos Estados Unidos e da Nova Zelândia, personifica essa musicalidade sem fronteiras muito bem na música indie. Veja que a banda naturalmente não tem uma fronteira geográfica rígida. Mesmo assim, o grupo está baseado em Portland, Oregon, a cidade mais hipster dos EUA.

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A banda chega a seu terceiro disco com Multi-Love, congregando mais uma vez rock, psicodelia, pop, soul e um toque eletrônico. É um disco que vai cair muito bem para quem gosta de anos 70, não só em termos de composição e experimentações, mas a mixagem do álbum – que é boa – mantém aquelas frequências mais abafadas que eram bastante características dos LPs da época. Você ouve todos os instrumentos sem nenhum problema ou interferência, mas nem sempre é tudo tão cristalino. “Like Acid Rain”, um soul delicioso, e a divertida “Stage Screen” são os exemplos mais imediatos dessa mixagem.

É um álbum gostoso de ouvir. A voz do guitarrista Ruban Nielson continua lembrando Michael Jackson em diversos momentos, principalmente quando a veia funk do trio está mais ressaltada, como em “Can’t Keep Checking My Phone”. Já “The World is Crowded” pende mais para o Prince ou, quem sabe, um D’Angelo. A questão é que tudo fica muito bem junto. “Ur Life One Night” é o pop chapado do disco e uma das melhores faixas, inventiva na medida certa e simples, com um solo bastante interessante que se beneficia das técnicas de mixagem.

Multi-Love é cheio de balanço e de suingue e de ritmos que qualquer um pode acompanhar sem dificuldades. Apesar do apelo pop, não é uma música que soe como chiclete em nenhum momento e nem tem refrãos para empolgar estádios de futebol. A pegada 1970 é levada a sério e serve para construir um disco que simplesmente não tem canções ruins. Você quase pode visualizar uma rodinha hippie em São Francisco ao ouvir “Extreme Wealth and Casual Cruelty” (com um solo de sax que fica muito bem na composição).

Nielson, a mente por trás da Unknown Mortal Orchestra, começou a postar músicas no Bandcamp há cinco anos. De lá para cá, já gravaram dois discos completos e conquistaram um público que viu muito mérito nas composições do cara. É retrô, é inventivo, é pop sem precisar ser comercial demais, e tem a deliciosa psicodelia Woodstock.

Multi-Love foi praticamente gravado por Nielson em Portland. Seu irmão, Kody, que não faz parte da banda, o visitou e ajudou a gravar os teclados e as baterias. Depois o baixista Jake Portrait, que estava no Brooklyn, gravou e produziu os vocais para duas canções. Nielson diz que está aprendendo a colaborar. Ele gosta de fazer tudo sozinho, mas admite que às vezes precisa de uma perspectiva que venha de fora.

As canções não prezam pelo perfeccionismo técnico. Está tudo no lugar, mas dá para sentir a presença do fator humano em todo lugar, como se todo um grupo de pessoas estivesse tocando junto, deixando registrado várias imprecisões. Esse sabor orgânico é algo que tende a agradar os ouvintes que gostam de uma música menos plástica. Nielson usou um microfone barato, um notebook e um amplificador de 15 watts (pequeno para os padrões da maioria das gravações) e algumas fitas de gravação (processo também usado pelo D’Angelo e por Jack White no White Stripes para conseguir a sonoridade mais retrô).

“Puzzles”, a maior faixa do álbum, é também a mais rock’n’roll e fecha Multi-Love levando a faixa por caminhos inesperados. Sons de cacos de vidro se tornam um belo dedilhado no violão que se transmutam em uma guitarra cheia de fuzz e termina em um solo tranquilo e clean.

Com apenas 41 minutos, Multi-Love deixa aquele gosto de quero mais e uma nostalgia bastante acentuada. Mas é o tempo perfeito para caber em um vinil, o formato mais do que perfeito para se ouvir o álbum. Os graves, todos muito importantes, ficam melhores e mais bonitos na vitrola do que no MP3. Fã de anos 70, de rock, soul e funk do bom? Não deixe de conferir o novo trabalho do Unknown Mortal Orchestra. E vá a um show do trio (que deverá colocar um tecladista na banda para esta turnê), porque há muita criação ao vivo, transformando cada apresentação em algo único.

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12 comentários em “Unknown Mortal Orchestra – Multi-Love (2015)

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