2015 Indie Pop Resenhas Rock

Mew – + – (2015)

Mew cover

O Mew de sempre, bonito e fofo, com uma grossa camada de verniz

Por Lucas Scaliza

Se +- (ou Plus Minus) tem algum defeito, talvez seja ser colorido, gentil e envolvente demais. No geral, os dinamarqueses acertaram em cheio, fazendo a espera de seis anos desde No More Stories (2009) valer a pena com o melhor álbum deles e a melhor performance em conjunto.

Para ser sincero, os cinco discos do Mew não me empolgaram verdadeiramente, nem mesmo o propalado Frengers (2003), que catapultou a banda no cenário indie. Havia muitas boas ideias, mas nada que mexesse demais comigo. Quando dei o play em +-, o fiz com um pouco de preguiça, esperando ouvir mais do mesmo. Fui surpreendido por uma série de músicas bem construídas, positivas e que desde a primeira até a última faixa capturaram a minha atenção e fizeram a minha noite mais feliz. Foram três plays completos na mesma noite, três horas de Mew sem interrupções.

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A excepcional “Satellites”, que abre o álbum e primeiro single da obra, me pareceu que o quarteto dinamarquês soava ainda como a banda de sempre, mas muito próxima também do Yes – e é sempre muito difícil encontrar uma banda que faça algo que tenha a sonoridade desses ingleses do rock progressivo, portanto, quando você encontra, você presta atenção. Em parte essa relação se dá por meio do timbre de voz agudo e bem afinado de Jonas Bjerre, que lembra o timbre de Jon Anderson. Em seguida, as faixas cheias de camadas e teclados onipresentes cheios de bom gosto, sem falar nos arranjos criativos, são características de +- que aprendemos a admirar com o Yes também.

Mas eu não gostei de +- só porque lembra o Yes. Para além da comparação, o Mew brilha sozinho e qualquer ouvinte poderá perceber isso. Muita coisa aconteceu nesses seis anos em que ficaram sem lançar material novo e é fácil notar que seguem mais do que nunca uma linha de música rock/pop europeia que tenta usar a tecnologia para ser mais sofisticada, mas sem deixar de apostar em melodias bem feitas e na técnica de seus músicos, seguindo uma linha muito parecida com a dos franceses do Phoenix e dos californianos do Young The Giant.

Se “Satellites” é mais cheia de texturas, “Witness” é mais direta ao ponto e cheia de melodia. “The Night Believer”, ótima também, com participação da cantora neozelandesa Kimbra, é o tipo de balada animada e fofa que o pop escandinavo entrega ao mundo desde que o ABBA mostrou como é que se faziam refrãos irresistíveis.

Em boa parte do disco, o baixista Johan Wohlert faz seus ritmos com a cabeça das notas da harmonia, mas explora seu instrumento em diversos momentos, fazendo do baixo mais uma opção melódica do disco. Em “Clinging to a Bad Dream” Wohlert parece bem solto para tocar e dar o encaminhamento que a música pede. “Making Friends” é o tipo de pop com uma pegada que tangencia o soul, mas bem timidamente. O refrão sonoro, com delay e sintetizadores, é algo que se poderia esperar do Tame Impala em seu vindouro álbum, a julgar pelo que apresentaram até agora.

A destacada guitarra com delay que ouvimos logo no início de “My Complications” é de Russell Lissack, do Bloc Party, que foi até o estúdio do Mew em Copenhagen fazer sua participação no disco, mas acabou escrevendo muito material com a banda. A maior parte dessas ideias ficou de fora do álbum, mas deverão ser melhor desenvolvidas em um próximo lançamento, avisa o vocalista. E sua participação em “My Complications” ficou muito bem colocada, já que a faixa é outra das mais rock’n’roll do álbum, mas bem lapidada, com aquele jeitinho bonitinho. Já “Water Slides” tem jeito climático com refrão cativante e forte, mas que nunca agride o ouvinte.

A produção é assinada pelo americano Michael Beinhorn, que já produziu And The Glass Handed Kites (2005) entre vários outros álbuns interessantes, como o Superunknown do Soundgarden, Mechanical Animals do Marilyn Manson, Ozzmosis do Ozzy Osbourne, Untouchables do Korn entre vários do Red Hot Chilli Peppers. Beinhorn também é tecladista, tendo tocado no disco Future Shock do jazzista Herbie Hancock, então deve ter se sentido bastante confortável com a sonoridade superproduzida de +-, repleta de sintetizadores emulando sons e criando atmosferas cheias de cor, como anuncia sua capa. Ouvir as canções e imaginá-las ao vivo, com os recursos de iluminação e telão, criam um efeito quase sinestésico. A excelente “Rows”, com mais de 10 minutos e cheia desses efeitos, é uma experiência bastante rica.

O que pode ter contribuído positivamente com o resultado do disco é o fato de, pela primeira vez em seis discos, o Mew ter trabalhado em estúdio enquanto fazia shows ao vivo. De acordo com Jonas Bjerre, isso fez com que o grupo encarasse as composições com ouvidos mais abertos ao voltar a trabalhar nelas.

Não é um disco para quem procura algo mais visceral. Não há virtuosismo ou arestas catárticas em +-. A superprodução do disco apara todas as arestas e faz tudo soar bem. Ainda que exista um oceano de ondas sonoras por cima da banda, é tudo parte do espetáculo e ajudou a fazer da banda algo ainda maior. Contudo, embora tudo desça fácil e seja bonito, não apelam para fraseados de guitarra ou refrãos chiclete. É o Mew de sempre, mas com uma camada grossa de verniz que faz +- se destacar na playlist.

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6 comentários em “Mew – + – (2015)

  1. Crítica muito bacana. Qto ao som do MEW? ??? Ora Yes ( John Anderson/Van Guelis -escrevi certo? ), ora New Order , sem muita inspiração . .. chatinho.

    • Neste novo disco, e em vários antigos (que achei mornos), não vi muito de New Order. Ouvi mais essa pegada mais nova de bandas como Phoenix, Young The Giant e até um pouco de Interpol. Mas “+-” é melhor que os outros, soa mais fresco. (Verniz mais fresco.)

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