2015 Pop Resenhas Rock

Maná – Cama Incendiada (2015)

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Talvez um dia o Maná saia da zona de conforto

Por Lucas Scaliza

Uma banda de rock que já não toca rock. Uma banda com bons músicos, mas que não se desafiam tecnicamente e criativamente há um bom tempo. Uma banda que está na ativa desde os anos 80 e atingiu sucesso comercial, o qual tentam manter sendo mais um e sem correr riscos. É uma banda de Guadalajara, México, mas podia ser uma banda de Brasília ou São Paulo.

Esse é o Maná, uma das bandas de pop/rock mais conhecidas fora do México, mas que passa pelos mesmos problemas que vimos bandas brasileiras passar, como é o caso de Capital Inicial, Titãs, Jota Quest, entre outras. Infelizmente, Cama Incendiada, o nono disco do grupo, não dá um passo na direção de mudar a imagem de banda que se mantém na zona de conforto.

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Não significa que as músicas do novo disco sejam ruins. São músicas bem feitas e bem gravadas, mas absolutamente todas refletem o que o mainstream espera, o que as rádios esperam, o que os programas de tevê querem como trilha sonora mais fácil e o que as premiações mais versadas em sucesso comercial do que em criação artística costumam agraciar com seus troféus. Não há em Cama Incendiada absolutamente nada que não já não se tenha ouvido antes e que proponha qualquer nova ideia. O ouvinte que não está atrás de novidade e quer apenas a música latina mais acessível possível vai ter o que espera do Maná. Agora se você está tentando descobrir o que se faz de mais interessante no pop/rock das América Latina, sugiro caçar referências em outro lugar.

“Adicto a tua amor” já entrega que não poderemos esperar muito da banda. Sem surpresa, é o protótipo do pop fácil em espanhol com riffs simples e ruins no teclado. E “La Prisión” coloca o tecladinho preguiçoso novamente para trabalhar, fazendo uma sequência de notas que você jura que vai copiar a melodia de “I Follow Rivers”, da Lykke Li, mas não chega a tanto. Mas impossível não lembrar do hit da sueca.

O vocal de Fher Olvera é competente, mas parece subaproveitado em meio a tantas composições banais. Em “La Cama Incendiada” o baixista Juan Calleros encontra um lugar ao sol para mostrar do que é capaz. Alex González, o baterista, se dá melhor. Como é um disco animado que ainda mantém os ritmos tradicionais do país, apesar do formato pop, há bastante espaço para seu instrumento soar e ser, de longe, o mais interessante da banda. Já Sérgio Vallín, um bom guitarrista, cumpre bem seu papel, mas não faz milagres e nem propõem uma abordagem diferente daquela a que o grupo já se acostumou a ver que “funciona”.

“Ironía” é uma bonita balada, mas cai no melodrama com o arranjo de cordas no refrão. “Mi Verdad”, com participação da estrela colombiana Shakira, tem clima caribenho e é boa para ouvir numa rede, vendo a MTV latina. “Peligrosa” parece feita sob medida para virar remix para as pistas. O refrão tem uma guitarra distorcida, mas tão aparada que serve apenas para reforçar os graves, não para mostrar qualquer traço de agressividade. Chegamos então à metade de Cama Incendiada e percebemos que o lado rock do Maná foi engolido pela necessidade de soar inofensivo.

“Suavecito” é mais uma bobagem amorosa para ouvir deitado na rede. “La Tenaraña” melhora o cômputo do álbum, principalmente pela presença boa do baixo de Calleros e do refrão mais empolgante. “Electrizado” é a melhor faixa do disco. Único momento em todo Cama Incendiada que a banda se permite soar menos ciosa e mais interessante, mais viogorosa e dá mais espaço para Vallín. Contudo, é a faixa mais curta do álbum.

No Brasil, vimos bandas como Capital Inicial e Titãs lançar as bases do que era um rock com substância e energia. Com o tempo, o Capital ficou fora de moda e só voltou a engrenar após um acústico MTV bem sucedido. Embora faça boas apresentações ao vivo, seus últimos álbuns redundam em rock adolescente e sem a mesma pegada de antigamente, para não assustar o púbico pós-acústico MTV. E o Titãs passou um bom tempo mais conhecido pelas trilhas de novelas do que pelo som de Fenders e Gibsons. Contudo, em 2014 lançaram o ótimo Nheengatu recuperando a veia garagem do grupo e o protesto que o rock nacional havia perdido e tão desesperadamente precisa retomar de algum jeito.

Bom… Cama Incendiada, do Maná, passa longe de ser um Nheengatu. Não tem força, não tem rebeldia alguma e fala muito pouco do mundo atual ou de qualquer coisa que tenha a ver com o México. Grande parte das composições fala de um amor idealizado e sem sal. Aliás, temas que já estão se desgastando na mão do Maná há um bom tempo. Talvez um dia os mexicanos saiam da zona de conforto. Talvez.

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