2015 MPB Nacional Pop Rock

Pélico – Euforia (2015)

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Terceiro trabalho do cantor paulistano mostra-se consistente e plural, e afasta a concepção de “artista melancólico”

por brunochair

Euforia, segundo as definições do dicionário, nos remete a um tipo de alegria. Não é aquela alegria plena (se é que ela existe), mas sim uma alegria repentina, que vem e vai, gosta de brincar e some quando bem entende. É um sentimento que nem sempre demonstra a real condição do indivíduo, e é algo momentâneo – falso, em algumas situações. Falso? Verdadeiro?

O álbum anterior de Pélico, Que isso fique entre nós (2011) é muito mais introspectivo que este, Euforia. Tratou-se de uma viagem intimista e dolorosa para o ouvinte, mas que trouxe uma concepção do que seria Pélico enquanto artista: um cara melancólico, que fala sobre dores e amores. Com Euforia, Pélico procurou afugentar esta terminologia melancólica e procurou trabalhar, com igual densidade, cancões que acolhem o intimismo e euforia, a alegria que traz ao mesmo tempo o amor e a solidão.

Nada fica fora neste novo disco. Temos um samba caprichado que Martinho da Vila vai adorar quando ouvir (“Você pensa que me engana”), músicas com uma pegada pop oitentista (“Sobrenatural”, “O meu amor mora no rio”), uma inspiração notadamente brega (“Overdose”, “Ela me dá”), um tom mais romântico (“Calado”, “Olha só”, “Vaidoso”). No antecessor de 2011, Que isso fique entre nós, estes elementos já estão presentes, mas em Euforia eles estão mais elaborados – há uma extensão maior de suas inspirações, de sua musicalidade.

  

A influência da cidade de São Paulo fica evidente nas letras, na ambientação. O brega, que Pélico capta de cantores como Odair José, Amado Batista, Reginaldo Rossi e outros, pode ser presenciado nos bairros de São Paulo onde a existência de migrantes nordestinos é sentida (Bela Vista, talvez?) com seus bares lotados, luzes e diálogos. A questão da solidão, que está presente em várias músicas, ganha uma significação positiva com “Sozinhar-me”, quando Pélico empresta o conceito de Mia Couto, o seu autor de literatura preferido (inclusive, a letra cita uma certa moça de Moçambique, e tem uma sonoridade mais africana, étnica). Pélico rende homagens também ao seu ídolo Tom Zé (“Meu amigo Zé”) bem como a algo que gosta de fazer, escrever para livrar/do tempo/do pouco/do medo/do mesmo (“Escrevo”).

Neste álbum, há diversas participações: para começar, a capa foi produzida por Filipe Catto, cantor expoente da nova geração paulistana e amigo pessoal de Pélico. Rafael Castro emprega a voz em algumas músicas, e gravou também o baixo na música “Euforia”.  Curumin toca bateria em diversas canções; Rodrigo Campos solta o cavaco no samba “Você pensa que me engana”, e a atriz Letícia Spiller emprega a sua voz na música “Repousar”, em conjunto com Carú Ricardo.

Ou seja, é um álbum plural, tanto em sentidos quanto em participações, prova diversas intensidades e demonstra o artista atento e eufórico que é Pélico. O grande destaque deste álbum é a música “O Meu Amor Mora no Rio”, que tem uma ambientação gostosa, que nos faz lembrar os ritmos e as possibilidades das duas capitais. Na realidade, o disco todo é muito interessante, e apenas consolida o já excelente trabalho de Pélico enquanto cantor e compositor. Parece ser ele o precursor estético de uma gama de artistas que vem ganhando maior destaque, como os já citados Filipe Catto e Rafael Castro, mas também outros, como Silva, Fernando Temporão, Ian Ramil.

Portanto, se você não conhece o trabalho deste paulistano, vale a pena a empreitada.

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3 comentários em “Pélico – Euforia (2015)

  1. Realmente, é um álbum plural, em muitos sentidos. Acho que também é por isso que a gente está amando, cada vez mais!

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  3. Pingback: Graveola – Camaleão Borboleta (2016) | Escuta Essa!

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