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Gorillaz – Demon Days (2005) faz 10 anos

cover

O melhor disco do Gorillaz até agora faz aniversário e continua atual como nunca

Por Lucas Scaliza

O que é?

Demon Days é o segundo disco de estúdio do Gorillaz, lançado em maio de 2005.

Histórias e curiosidades

Conheci o Gorillaz por acaso, folheando uma revista Época de 2001. Achei a proposta interessante: banda que só existe como desenho animado, mas tem músicos de verdade por trás, incluindo a voz e a experiência de Damon Albarn, do Blur. Era o início da banda, quando o hit deles era “Tomorrow Comes Today”, e não o megahit que se tornou “Clint Eastwood”, com seu clipe inovador para a época que foi exibido à exaustão nos quatro cantos do mundo.

Foi a primeira vez que gostei de uma banda que era alternativa e enveredava por diferentes estilos musicais, como pop, reggae e hip hop. E gostei daquela mistureba toda.

Gorillaz_group

Levou quatro anos para que o artista plástico Jamie Hewlett e o cantor e compositor Damon Albarn colocassem nas prateleiras, na MTV e na internet o novo disco do grupo. Se Gorillaz (2001) era uma experiência pop, Demon Days foi além em todos os sentidos estéticos e musicais e se provou uma obra pop como poucas, com conteúdo e forma muito melhor acabada que seu antecessor, fazendo do álbum uma obra coesa e destacada. A produção foi assinada por Danger Mouse, o que garantiu maior reconhecimento da crítica e de outros artistas – e Demon Days é profícuo de ótimas participações especiais.

O disco tem um tema. Damon acabou revelando que cada faixa poderia ser pensada como uma situação enfrentada num espaço de uma noite, cada situação com seu próprio “demônio”. Apesar da explosão pop que é o disco, ele abre com uma intro que faz um sample da trilha do filme Madrugada dos Mortos e cenas de diálogos estranhos e sirenes. Uma noite daquelas! Em seguida, “Last living souls” entrega a primeira letra mais introspectiva do disco e o primeiro questionamento sobre o que está acontecendo com o mundo atualmente, que parece mais escuro, mais intolerante, mais perigoso, mais agressivo, mais injusto.

Daí temos canções para falar da perda da inocência infantil, que está sendo armada (“Kids with guns”, com a participação da rapper sueca Neneh Cherry), a guerra do Iraque da perspectiva de um soldado (“Dirty Harry”, com o rap animal de Bootie Brown, do The Pharcyde, e o Coral de Jovens do Vale San Fernando). Há ainda a preocupação ambiental, evidenciada em “O Green World”, “Fire coming out of the monkey’s head” (voz do ator Dennis Hopper) e “Demon Days”. E há a degeneração da cultura de massa que é tão enfatizada em “Feel Good Inc.”, com o rap de De La Soul se tornando a voz de alguma empresa poderosa que lucra com a queda da qualidade do que é oferecido ao público. É a velha lógica da indústria cultural, prejudicando em muitas de suas facetas a liberdade intelectual.

A composição de Damon também entra em seu modo camaleônico: apesar da aparente animação ou clima feel good de várias músicas, na verdade há certa ironia e melancolia nos versos e mensagens. É a mesma vibe que ela já havia mostrado no Blur. Embrulhado em uma embalagem bastante pós-moderna, estava um conteúdo musical com preocupação estética e política.

E uma banda virtual, que sempre teve um website inovador e interativo, não podia deixar de usar o apelo visual. Os clipes de Demons Days (todos disponíveis nessa resenha) formam uma história que, para ser compreendida totalmente, depende não só das animações de Jamie Hewlett, mas também de dicas e narrativas espalhadas pelo site do grupo na época do lançamento.

Músicas e destaques

“Feel Good Inc.”: Irônica desde o título, evocando uma produção cultural que não representa perigo, ruptura ou transgressão nenhuma (“feel good”), uma arte comportada e feita sob medida para o mercado, para os interesses exploratórios de executicos (“Inc”). A parte cantada por 2D (voz de Albarn) evoca um profundo cansaço desse tipo de cultura mercantilista, enquanto a participação de De La Soul dá energia (principalmente ao vivo) e incorpora o discurso dessa indústria cultural canibal. A música foi um sucesso. Pegada pop, belo groove, refrão melódico e hip hop ali no meio. Chico Buarque, quando falou da indústria cultural, a representou como uma “roda viva”. Curiosamente (ou nem tanto, se formos analisar), Albarn representa a mesma indústria cultural evocando um moinho de vento, que também roda e roda sem parar, mantendo o sistema ativo eternamente, um ciclo que nunca termina e envolve todos nós a favor ou contra nossa vontade. “Amor eterno, o amor é de graça/ Vamos girar eternamente você e eu/ Moinho de vento, moinho de vento para a terra/ Tá todo mundo nessa?, canta o refrão.

“Every Planet We Reach Is Dead”: Música que evoca a zombificação das pessoas nesta noite estranha que é Demon Days. A música tem algo de reggae, a participação do jazzista Ike Turner nos pianos, e pode ser vista como um RnB melancólico. Uma das faixas mais bem construídas do disco e outra que mostra a cara mais madura do Gorillaz e o potencial de misturar referências de Albarn.

“Fire Coming Out of a Monkey’s Head”: O ator Dennis Hopper narra uma fábula sobre invasão, mudança para pior e o fenômeno de “acordar um Macaco” em uma montanha. Pode parecer que a faixa destoa do restante, mas na verdade ela serve como um basta, já no fim da noite, para toda a confusão e sofrimento que se abate sobre as pessoas. O que consigo perceber é que o tal “Macaco” da música serve como uma metáfora para uma grande reviravolta, como um protesto ou um levante de rebeldia contra essa “força invasora”. Faixa fundamental para completar o caráter conceitual do álbum.

“Demon Days”: A faixa que fecha o disco é uma das únicas com clima mais positivo. Com harmonia bastante simples (praticamente apenas dois acordes) e orquestração climática, a faixa cresce com a participação do Coral Gospel da Comunidade de Londres. A letra, também simples e bem escrita, é eloquente: “Nesses dias demoníacos fica tão frio/ Muito difícil para uma boa alma sobreviver/ Não dá nem pra confiar no ar que se respira/ Porque a Mãe Natureza quer todos nós vamos embora/ Quando mentiras viram a realidade/ Você se dopa com drogas e TV”. Mas ao mesmo tempo que resume a noite de Demons Days, nosso mundo contemporâneo cheio de frustrações e desonestidade, anuncia o raiar de uma nova manhã, talvez melhor, se nós conseguirmos mudar a direção de nossas ações e pensamentos. “Então levante-se, é um novo dia/ Então vire-se/ Não se queime, vire-se/ Vire-se para o sol!”

Passa no teste do tempo?

Diria que é um álbum atemporal, com mensagem e estilo que sobreviverão por muito tempo, como o Fear Of A Black Planet (1990), do Public Enemy, referência em forma e conteúdo para a música e o discurso político na música até hoje. Dez anos desde o lançamento pode parecer pouco tempo para avaliar, mas o caráter universal do disco e a qualidade com que cada composição foi gravada deixam claro que se trata de um álbum inegavelmente pop, mas autoconsciente e tão preocupado com a diversão quanto com a dimensão social.

É uma obra multiétnica. Além de promover a fusão de hip hop, dance, eletrônica, rock, jazz, coral gospel e reggae, é um caldeirão pop com artistas negros, brancos, asiáticos e que representam diferentes gerações e guetos sociais e musicais.

Demon Days foi feito para ser ouvido na íntegra, como um álbum mesmo, não como uma coleção de boas canções. Quando resolveram gravar o DVD com a apresentação ao vivo do Gorillaz, com diversas participações especiais, tocaram o disco todo com as faixas na mesma ordem do disco. E não há hits do primeiro disco. Albarn passa o show todo nas sombras, só toma a frente do palco para tocar a bela “Hong Kong”, no bis.

O Gorillaz e o disco não escapam da “roda viva” ou do “moinho de vento” que é a indústria cultural. Aliás, o irônico é que se não fosse essa engrenagem, provavelmente uma obra tão plural quanto Demon Days, que alcançou cinco continentes e com diversas participações especiais, não seria viável. Mas talvez seja o caso não de tentar destruir a engrenagem (quem tem poder para isso?), mas de pelo menos estar ciente de sua existência, de seu funcionamento e de seu potencial de moer culturas.

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6 comentários em “Gorillaz – Demon Days (2005) faz 10 anos

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