2015 Folk Pop Resenhas Rock

Zac Brown Band – Jekyll + Hyde (2015)

Cover

Poderia ser mais country, mais power – e menos Avicii

Por Lucas Scaliza

Se você não conhecia Zac Brown e sua ótima banda, provavelmente entrou em contato com ele durante o episódio rodado em Nashville do documentário Sonic Highways, do Foo Fighters. Dave Grohl, chefão do FF, ficou muito impressionado com a técnica, com a presença e com a força do som de Zac Brown. É um country poderoso, com energia ao vivo comparável à animação dos Foo Fighters. E quem viu o episódio teve uma boa ideia do que esperar da Zac Brown Band.

O grupo sempre se preocupou em ter músicas country, baladas acessíveis e canções para rádio, ao mesmo tempo que poderiam pesar a mão um pouco em outras faixas. Afinal, Zac Brown é um fritador do violão, quase um Zakk Wylde da música western. O que mais chama a atenção em Jekyll + Hyde, seu quarto disco, é como amplia seu som para novos territórios, chegando inclusive a deixar o disco tão diverso que o country vira só mais um detalhe ali no meio. E há modismos, o maior ponto fraco do trabalho.

Zac Brown 1

Certamente o sucesso do produtor sueco Avicii com “Wake me up” teve impacto no estilo. “Beautiful Drug”, que abre Jekyll + Hyde, tem a passada de uma música eletrônica, vários efeitos de guitarra que parecem feitos em computador e a batida do refrão é para clubes noturnos descaradamente. A faixa vai ganhar um remix em breve – só cuidado para não confundir a original com o remix. O mesmo processo ocorre com “Tomorrow Never Comes”. Certos maneirismos de ambas chegam a lembrar truques indigestos de bandas que precisam de saídas fáceis para moldar o som ao gosto de ringtones, DJs e produtores preocupados em vender a música para mercados mais abrangentes que o country.

“Love You Easy” cumprem o papel de balada acessível e sem muita imaginação. “Remedy” se dá melhor: apresenta violino celta. uma batida que parece segurar a música e aos poucos vai ganhando instrumentação até terminar com um coro gospel cantando “Amen”, que ao vivo deverá ficar muito bom. “Bittersweet” se apoia na tradição e passa boa parte do tempo criando um clima com arranjos bem comedidos, até que uma guitarra carregada de distorção surge e toda a banda libera a energia. Já “Castway” é bem divertida, com todas as suas camadas de vozes, mas não deixa de parecer uma tentativa de trazer para o reino do pop produzido uma ideia folclórica. “I’ll Be Your Man (Song for a daughter)” segue um trajeto bem previsível e só tem força da metade para a frente, quando aos poucos diversas vozes se unem para criar um dos momentos mais especiais do álbum.

Há “Mango Tree”, uma música que aposta no soft jazz e destoa completamente do resto do álbum. Apesar de ser uma estranha ilha ali no meio, com seus sopros e piano anos 20, obriga Brown a diversificar e cantar em parceria com Sara Bareilles (que rouba a cena, muito melhor adaptada ao estilo do que Brown). A música é boa, mas não temos vislumbres do estilo da Zac Brown Band. Marilyn Manson quando apostou no blues sulista para moldar seu The Pale Emperor o fez sem perder a personalidade macabra e arrastada que o acompanha desde sempre.

Mas há também “Dress Blues”, um cover de Jason Isbell, que Brown interpreta com coração e alma, dando profundidade à valsa, mantendo sua doçura, seu pesar e colocando o violino a serviço do poder emocional da canção (a música fala sobre americanos que prestam serviço militar e não voltam para casa. A “roupa azul” do título se refere ao uniforme militar dos EUA).

As melhores faixas sem dúvida são as seguintes. “Homeground”, que não tenta ser nenhuma revolução, é um country rock muito bom e sóbrio. Sem muitas invencionices, consegue manter uma ótima levada até um final novamente com a participação de um coral. “Heavy Is The Head”, com participação de Chris Cornell, vocalista do Soundgarden, é a faixa mais pesada e um dos maiores destaques do disco. O baixo distorcido dá todo o clima roqueiro que a composição pede e mostra uma interação excelente entre a voz de Brown e a de Cornell com uma banda arriscando um pouco mais na estrutura da música. Falando em risco, é na longa “Junkyard” (7 minutos) que temos o melhor da criatividade e da técnica de Brown e seus músicos. Jeito hard rock experimental, riffs arrastados e um interlúdio com violino, country e batidas eletrônicas bem encaixadas, mas que logo dão espaço para a banda voltar com tudo ao rock’n’roll.

O problema de Jekyll + Hyde é a falta de unidade entre as canções dentro da mesma embalagem. Mesmo sendo ótimas gravações, canções como “Junkyard” e “Heavy Is The Head” parecem deslocadas no meio de um trabalho tão acessível e cheio de baladas, assim como as duas faixas mais eletrônicas parecem remixes encaixados no meio de um álbum que deveria ter seguiu por outro caminho nas 14 faixas restantes.

Acaba não sendo um disco marcante e muito pouco pretensioso, além de possuir um conteúdo muito mais vivaz do que a cor escura de sua capa. Aliás, se o título Jekyll + Hyde (o médico e o monstro) serviria para evidenciar lados diferentes de Zac Brown, o álbum acaba parecendo um pouco perdido, pouco criativo e apostando tanto em modismos (os momentos mais Avicii) quanto em estilos completamente fora da época (jazz anos 20), mudanças que agregam muito pouco ao trabalho. Quem fica prejudicada é a personalidade da banda, que não tem apenas dois lados, mas seria muito melhor se tivesse apenas um e fizesse mais com menos estilos.

Zac Brown 2

2 comentários em “Zac Brown Band – Jekyll + Hyde (2015)

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