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Lenine – Carbono (2015)

capa

Química em música

Por Lucas Scaliza

Lenine, o leão de Pernambuco e admirador de orquídeas, é um dos poucos artistas brasileiros que conseguem fazer álbuns com um conceito que perpassa todo o trabalho e garante uma unidade estética coesa e, ao mesmo tempo, dando espaço para que várias influências sejam evocadas. Isso ocorreu muito no passado, mas hoje em dia tem predominado o álbum como coleção de canções. Mas há exemplos, como o de Caetano Veloso e seus outros álbuns mais recentes, e o ótimo Ava Patrya Yndia Yracema da Ava Rocha, lançado há pouco.

Lenine também é parte já há algum tempo de um seleto grupo de músicos do mundo dos quais podemos intuir que uma canção tem sua mão na composição (ou dizer “isso parece Lenine”) antes mesmo de ouvirmos sua voz. A forma como ele trabalha seus ritmos, propõe novas soluções de arranjos e toca seu violão é comparável a mestres como João Gilberto, Jackson do Pandero e Jorge Ben Jor.

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Carbono, lançado há poucos dias e já com uma turnê brasileira em curso, é o 10º álbum da carreira de Lenine e mais uma amostra de como a criatividade do pernambucano (que trocou Recife pelo Rio de Janeiro) continua ligada a suas causas, suas ideias e emoções. Labiata (2008), disco que colocou o produtor e guitarrista JR Tostoi no centro do trabalho com seus efeitos e distorções, leva o nome de uma espécie de orquídea. Chão (2011), seu trabalho mais conceitual até agora, misturava sons do dia a dia (serra elétrica, chaleira, canto de passarinho, passos, etc) à músicas que utilizavam bastante programação eletrônica, sintetizadores e nenhuma percussão humana, sem falar que o “chão” do título era sua própria família, a base de tudo (a capa mostra Lenine com seu neto no colo, num ambiente escuro). E em Carbono, o músico, que é formado em Engenharia Química, elegeu como cerne temático o elemento químico e sua alotropia, fenômeno em que um mesmo elemento pode dar origem a substâncias totalmente diferentes, como carvão e diamante, no caso do carbono.

A música de Lenine também sempre teve algo de alotrópica, podendo se transmutar e se diluir em diversos estilos e ainda carregar o DNA do compositor. Sem falar que muitas delas ficam ótimas e plenamente reconhecíveis só com voz e violão. Por isso, acho mais sensato falar de cada música de Carbono separadamente.

1. Castanho: já indica que é algo que sai das mãos do Lenine. O ritmo da viola de Ricardo Vignini e do baixo configuram uma alternância entre os compassos 6/4 e 8/4, o que é sempre interessante. A faixa tem pelo menos três camadas: a percussão, o baixo e o vilão que fazem o ritmo quebrado. Há uma onda sonora de sintetizador que “recheia” a canção. Por fim, a voz do cantor, mais viajante e suave do que seu andamento rítmico. A letra é de Carlos Posada. Diz Lenine que é uma música meio “pantaneira e sertaneja”. Pode até ser, mas só depois de passar pelo filtro Radiohead.

2. O Impossível Vem Pra Ficar: mais uma com compassos alternados e um jeito ruidoso de uma banda ser MPB e rock ao mesmo tempo. Coprodução de Tó Brandileone e parceria de composição com Vinícius Calderoni, ambos músicos do 5 a Seco.

3. A Meia-Noite dos Tambores Silenciosos: parceria com Carlos Rennó, é a música mais diferente do álbum por conta dos arranjos do baiano Letieres Leite e a participação de sua orquestra, a Orkestra Rupilezz. Um tipo de combinação que Björk, por exemplo, já utilizou em Post (1995), combinando orquestrações à música étnica, como em “Isobel”. Segundo Lenine, é uma homenagem a um evento de maracatu que ocorre na segunda-feira de carnaval de Recife, quando todas as “nações” do estilo (ligado à religiões afro) tocam uma mesma batida. A faixa foi gravada ao vivo (todo mundo tocando ao mesmo tempo).

4. Cupim de Ferro: frevo elétrico, Lenine e Nação Zumbi. Apesar de a bateria e a percussão serem onipresentes aqui, não deixe de reparar no baixo. É mais uma referência à Recife e mais uma faixa gravada com todo mundo junto tocando ao mesmo tempo (só não em Pernambuco, mas em um estúdio em São Paulo).

5. A Causa e o Pó: mais uma com compassos que se quebram. Faixa arrastada e que deve bastante aos efeitos e ruídos eletrônicos para se expressar, com uma letra muito bonita e sons esquisitos. É uma parceria de Lenine com seu filho João Cavalcanti. Nessa faixa Tostoi deixa a pesada distorção e os efeitos espaciais de lado para fazer fills mais “limpos” durante os versos, mas a escolha de notas é bastante excêntrica.

6. Quede Água: mais uma com Carlos Rennó, cuja letra manda recado direto sobre a água, a seca, a crise hídrica na geografia brasileira. “Agora o clima muda tão depressa/ Que cada ação é tardia/ Que dá paralisia na cabeça/ Que é mais do que se previa”, canta, para depois fazer uma defesa da água em vista dos combustíveis fósseis e poluição que governos e iniciativa privada priorizaram. Aqui sim Tostoi coloca sua guitarra para gemer e criar uma paisagem sonora. A percussão vai se tornando cada vez mais notadamente norte-africana. Faixa candidata a durar muito no repertório do artista. Como um manifeste, em “Quede Água” ele não deixa de dar uma opinião política sobre o assunto, ainda que as opções restantes não sejam as mais favoráveis.

7. Simples Assim: violão em primeiro plano, efeitos sintetizado lá no fundo, “Simples Assim” é a balada do disco, parceria com Dudu Falcão. No geral de Carbono, é a faixa mais fácil de digerir e que pode puxar a seção “voz e violão” dos shows ao vivo. Aliás, a parceria com Dudu rendeu “Paciência”, “Silêncio das Estrelas” e “É o Que Me Interessa”, todas muito bonitas de outros álbuns e igualmente acessíveis. De acordo com Lenine, é a única música que já existia antes de ele começar a pensar no novo trabalho.

8. Quem Leva a Vida Sou Eu: logo que começa, Lenine canta “Não deixo a vida me levar”, e aí já avistamos uma referência à famosa música do sambista Zeca Pagodinho. Mas a mensagem aqui é o contrário: não se fica passivo diante dos acontecimentos; deve-se tomar as rédeas e enfrentar o que vir. Uma espécie de baião novamente filtrado por uma mão roqueira nordestina.

9. Grafite Diamante: notas que formam cirandas nos sopros e na guitarra distorcida, mais uma aproximação entre o rock e a música nordestina com um quê contemporâneo. Apesar do compasso mais regular, os fraseados dão a impressão que o ritmo às vezes avança e às vezes atrasa. Composição em parceria com Marco Polo, outro pernambucano, que tocava na banda de rock Ave Sangria e fazia parte do movimento que aglutinou a música do Nordeste com referências do psicodélico, do rock inglês sessentista e setentista, entre outras influências. Uma música e tanto que deve ganhar ainda mais corpo ao vivo.

10. O Universo na Cabeça do Alfinete: linda parceria de Lenine com o amigo de longa data Lula Queiroga. Efeitos noturnos, violinos, sopros, violão popular e percussão conduzindo uma música que guarda certo mistério em seus arranjos, como ocorre em “Infinito Particular” de Marisa Monte. A coprodução é do maestro holandês Martin Fondse, outro amigo de Lenine. O cantor pediu a participação dele no disco e avisou que poderia ser qualquer coisa, um naipe de cordas, ele tocando um piano, etc, mas era para ontem, pois o disco tinha que ficar pronto logo. Fondse conseguiu reunir sua orquestra, com músicos de vários países da Europa, e entregou a orquestração delicada e vistosa que vemos em “O Universo na Cabeça do Alfinete”.

11. Undo: mais batidas rítmicas leninescas e um poderio rock’n’roll bem vindo para fechar o trabalho. É uma jam session instrumental que aglutina toda a banda do músico e gravada em um take só. Tem menos de 3 minutos, mas poderia facilmente se estender até os 5 que seria bom de escutar.

Lenine mais uma vez teve ajuda da família para produzir Carbono. Todos os backing vocals e coros são feitos pelas vozes sobrepostas do cantor com seus três filhos – Bernardo, Bruno e João – já que todos possuem m timbre de voz muito parecido. Aliás, o multi-instrumentista Bruno acompanha o pai na banda de estúdio, na banda ao vivo e assina a coprodução do álbum, ao lado de Lenine e de JR Tostoi.

Esse disco é realmente como uma substância química: Lenine é o carbono. A esse elemento se unem outros carbonos, outros oxigênios, gerando sinais elétricos, criando novas formas de fazer esse carbono aparecer, se expressar e soar. Com uma grande variedade de parceiros, entre novos e velhos conhecidos, cada música propõe uma transformação desse carbono central em outras substâncias, algumas mais roqueiras, outras mais experimentais, várias bem nordestinas. Isso é a alotropia em música.

De um jeito bem próprio, Lenine vai fazendo um percurso na música brasileira que não se contenta em ser básico – e nem deveria se contentar – e facilmente rotulável. A busca por uma expressão estética que seja nova, se aproveitando do que já existia (frevo, rock, música eletrônica), continua tendo muito a ver com o que ocorre no cenário da música global entre nomes como Radiohead, Björk, Sufjan Stevens, Jair Naves, entre alguns outros. Poderia dizer que é a maturidade artística. Mas vamos concordar que é a química.

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5 comentários em “Lenine – Carbono (2015)

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