2015 Eletronica Indie Pop Resenhas

Brandon Flowers – The Desired Effect (2015)

Cover

De volta ao coração dos anos 80

Por Lucas Scaliza

O indie pop bonitinho do The Killers não é suficiente para seu vocalista, Brandon Flowers. Não contente com a inclusão de baladas menos roqueiras e mais eletrônicas no repertório de sua banda, o vocalista encarou o desafio de fazer um álbum solo e foi bem sucedido com Flamingo (2010), entrando de vez em outras paragens que não o indie rock, mas ainda deixando muitos rastros do estilo de sua banda aqui e ali. Cinco anos depois, Flowers desenvolve sua versatilidade musical e lança o ótimo The Desired Effect, seu segundo trabalho solo e que confirma a boa voz e a boa mão para compor.

Assim como o Unknown Mortal Orchestra fez um disco recheado de funk setentista e gravado de forma analógica e crua, fazendo parecer que Multi-Love é mesmo um espécime lá de 1973 ou 75, The Desired Effect é todo oitentista e pode passar despercebido por um disco lá de 1984, e não de 2015. Aliás, Flowers nunca soou tão parecido com Fred Mercury e Queen como neste novo e dançante trabalho.

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Brandon Flowers é um bom vocalista no The Killers e um bom frontman, mas seu trabalho solo evidencia uma maior liberdade para cantar, experimentar e interpretar as canções. Embora os dois pés no pop feliz possam assustar o roqueito indie ocasional que comece a ouvir The Desired Effect, vale a pena ressaltar que nem tudo é tão solar quanto a faixa inicial “Dreams Come True”. Ao longo do álbum, Flowers e o produtor Ariel Rechtshaid incluíram muitas baterias eletrônicas, mas baterias comandadas por músicos convidados também. Além de ótimas partes de sopro e muitos sintetizadores que transmitem tanto a vibe oitentista pretendida pelo artista quanto uma atmosfera de sonho. “Can’t Deny My Love”, primeiro single do trabalho, é totalmente retrô e uma faixa e tanto. Difícil não resistir a imagem de um clube noturno quando seu refrão explode.

É o próprio Flowers quem comanda os teclados e sintetizadores no álbum. E eles fazem a diferença no tom geral do disco, sendo o principal instrumento de “Still Want You”. Mas o baixo de Ethan Farmer também está calibrado para soar como o instrumento soava há 30 anos. E todas as linhas de baterias, desde as gravadas por Kenny Aronoff (que já tocou com Bom Jovi, Tony Iommi, The Smashing Pumpkins, Elton John, Meat Loaf e Lynyrd Skynyrd, entre outros) até aquelas assumidas por convidados, como Danielle Haim (das HAIM), o parceiro de Killers Ronnie Vannucci Jr. e Joey Waronker (que já gravou com R.E.M, Beck e Atoms For Peace), estão timbradas e processadas para não fugirem na referência anos 80. Daí vem a sonoridade quase alternativa de “I Can Change”, a balada “Never Get You Right” e a dançante “Lonely Town”, outra ótima faixa do álbum com um clipe interessante que propõem uma leitura mais sombria da canção, aproveitando-se de dois versos que colocam a segurança da personagem em xeque.

“Diggin’ Up The Heart” é o momento mais Queen e parece saída de algum musical. Um dos únicos momentos em que vemos uma guitarra levemente distorcida participar ativamente da condução da música com acordos e riffs. O guitarrista que figura no disco é Ted Sablay, um multi-instrumentista já velho conhecido de Flowers que atua como músico de apoio do Killers nas turnês. “Untangled Love” não fica muito atrás. É animada e festeira como o rock/pop de um The Police e uma música de alta rotatividade da MTV dos anos 80. Para fechar, a balada “The Way It’s Always Been”, a música menos histriônica e mais pé no chão, com um pezinho no final dos anos 60 e os sopros de Ron Francis Blake chegando no momento exato em que são necessários para fazer da faixa algo mais.

Absolutamente tudo em The Desired Effect mira o rádio e as pistas, mas o gosto retrô e anos 80 que Flowers e Reichtshaid extraem de cada refrão, cada virada da bateria e cada vez que o sintetizador entra em cena dá um gosto especial ao material. Eclético e flexível, vai do mais direto (“Dreams Come True”) ao dançante (“Can’t Deny My Love” e “Lonely Town”), passando pelo romântico (“Between Me and You”, com teclados de Bruce Hornsby, que fez sucesso na década de 1986 com a banda The Range) e flerta com o rock. É um álbum cheio de groove e de força que pede potentes falantes para espalhar sua musicalidade.

O risco de cair no brega era grande, mas parece que ele não tenta evitar. Embora tenha muito bom gosto, detalhes de diversas músicas soam como aqueles modismos da década que acabam denunciando a origem da canção. Mas nada que chega a estragar o resultado final, muito pelo contrário: parece até que o cantor e compositor está prestando uma homenagem ao seu próprio passado.

O brasileiro Silva é outro que já produziu dois discos com sonoridade anos 80, mas no caso do capixaba os anos 80 acabam sofrendo uma reinterpretação mais próxima de experiências contemporâneas. Já Brandon Flowers parece querer resgatar a década e parecer-se com ela, sem muita reinvenção. E ele consegue. Seu quarto, sua sala, sua casa toda podem virar uma pista de dança ao som dos refrãos que criou.

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11 comentários em “Brandon Flowers – The Desired Effect (2015)

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