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Corrente do Mal (It Follows) – A Trilha Sonora (2014-2015)

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Filme de terror indie ganha trilha retrô com sintetizadores e ruídos

Por Lucas Scaliza

Se não chegou até você, logo vai chegar. Caminhando lentamente em sua direção, de maneira insuspeita. Talvez você não note na multidão, mas está lá. Vindo até você, fã de filmes indie e filmes de terror. Corrente do Mal (It Follows, no original) é um ótimo suspense sobrenatural que estreou em Cannes em 2014 e conseguiu aprovação do público e da crítica do festival, ganhando o direito de estrear em algumas salas dos Estados Unidos nacionalmente. Trata-se de um filme pequeno, de baixo orçamento, mas criativo, com história original, simples e que deixa aquela sensação de algo ruim que pode acontecer a qualquer momento. E a trilha sonora desempenha um papel central em todo esse processo. (A trilha completa pode ser ouvida aqui).

A trama acompanha Jay (Maika Monroe), uma jovem bonita e entediada de Detroit, a cidade que anunciou falência e tem ruas esparsas com pouco movimento, vizinhanças fantasmas e um sem número de espaços abandonados e decadentes. Um lugar que já foi o epicentro da indústria automobilística e do rock agora é uma sombra esvaziada e silenciosa, cenário que cai tão bem a filmes de fantasma quanto ao subtexto da crise e falência financeira. Após transar com Hugh, um ser (Fantasma? Demônio? Entidade? – o it do título original) começa a persegui-la onde quer que ela vá. Esse ser sobrenatural sempre caminha, pacientemente, e resta a Jay lidar com a maldição e fugir. Alguma hora essa presença chegará até ela, a menos que ela faça sexo com outra pessoa, passando à frente o stalker demoníaco, que pode assumir a forma de qualquer pessoa, conhecida ou não. Mas se esse novo amaldiçoado for pego, a maldição volta a perseguir o anterior ocupante do posto.

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Sexo como punição é uma ideia recorrente no cinema, assim como a maternidade sendo representada metaforicamente por possessões demoníacas e partos de alienígenas. Mas dessa vez o sexo – para uma geração entediada, em uma cidade sem perspectivas – acaba ganhando ares de passagem à vida adulta, essa transição que sempre vem acompanhada por novos e infindáveis desafios. Há também quem conecte a maldição com abstinência, mas não sei se é o caso realmente. Aqui há uma crítica do filme para quem quiser saber um pouco mais.

O baixo orçamento garante ao filme um aspecto mais naturalista e menos plástico. A boa mão do diretor David Robert Mitchell constrói o clima apropriado em uma cidade que, despovoada, parece parada no tempo. E a trilha sonora, feita por Disasterpeace (codinome de Rich Vreeland, que faz trilha para games), ajuda a fazer parecer que Corrente do Mal é um espécime do terror dos anos 70 e começo dos 80. Toda a trilha foi composta por sintetizadores, baterias e cliques eletrônicos e ruídos, impossível não lembrar produções e trilhas do diretor John Carpenter.

É a primeira trilha que Disasterpeace faz para o cinema, a pedido do próprio diretor, que gosta das trilhas que o artista fez para os vídeo games. Não é uma música complexa ou cheia de camadas. Na verdade, ela é soturna e muitas vezes soa esvaziada como a própria Detroit ou como as esperanças de Jay e seus amigos frente a ameaça sobrenatural. “Title”, uma das mais marcantes do filme, tem a qualidade daquelas músicas que antecipam um mistério repetindo as mesmas notas no piano. Mas logo os sintetizadores surgem para fazer a melodia e nos colocar em uma atmosfera de estranhamento e incerteza, como se a realidade que conhecemos fosse suspensa por um momento. Nesse sentido, Corrente do Mal é muito mais David Lynch do que O Exorcista (1973) ou Alien (1979). Se no lugar dos sintetizadores houvesse violinos ou cellos, teríamos uma impressão mais clássica do suspense e do terror e talvez a impressão anos 70 da produção não fosse completa.

“Heels”, a música que abre o filme para nos apresentar a uma garota que está fugindo e não fazemos ideia do que seja, é emblemática também. Tem um ritmo que evoca perigo e urgência, como a famosa trilha de Bernard Herrmann para Psicose (1960), de Hitchcock. “Anyone”, um zumbido perturbador, vai ganhando volume como o sobrenatural chega mais perto de Jay. “Old Maid”, outra que acompanha uma fuga do ser diabólico, começa com ruído e com um som melífluo desconjuntado e sem tonalidade, para depois seguir uma batida ritmada agoniante. A percussão profunda é outra marca que Disasterpeace deixa ao longo do filme, pontuando as cenas de suspense.

Ao longo do filme, a trilha chama a atenção a todo momento, ela não apenas acompanha cada cena, ela é também um personagem, seja em faixas mais histriônicas como “Company”, “Detritus” ou na aterradora “Greg” ou seja em faixas com harmonias e melodias, como “Detroit”, “Inquiry”, “Lakeward” e os sintetizadores distorcidos de “Snare” e a onda grave que cria um clima pesado em “Relay”. Embora seja menos diverso do que Atticus Ross e Trent Reznor na trilha de Garota Exemplar (2014), o compositor soube, como eles, usar a música para dar uma cara condizente com Detroit, com a falência econômica e com a atmosfera de paranoia que sacode o tédio juvenil em Corrente do Mal.

A trilha sonora (e a falta dela também) é importante em todos os filmes de suspense e terror, mas apenas alguns fazem questão de deixá-la ter vida para além das imagens. O exemplo mais clássico pode ser o de O Iluminado (1980), com toda a sua música erudita contemporânea cheia de notas ruidosas, mas encontro um paralelo musical mais adequado com a trilha que o duo francês Air fez para As Virgens Suicidas (2000), de Sofia Coppola. Além de também ser uma trilha eletrônica, as músicas se dividiam entre melodia, ruídos e estranhamento, corroborando o clima de mistério da narrativa e quase criando uma realidade paralela.

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Disasterpeace deixou para a cena clímax do filme a faixa mais pesada. “Father” é tão intensa e opressora como a cena em que foi inserida. Ritmo bate estaca entrecortado por uma sorte de sons que complementam muito bem a tensão dos personagens – e mesmo quando ouvida sozinha, sem o acompanhamento do filme, temos a impressão de algo ruim ocorrendo. Chega a dar frio na espinha! “A cena final levou um tempo para ficar pronta”, diz Vreeland em uma entrevista. “Tem muita coisa acontecendo e já houve algumas cenas até ali com alguns sons bem altos. A dificuldade foi tentar fazê-la soar ainda mais aguda para amarrar tudo em um bom arco. Jogamos a pia da cozinha naquela cena, musicalmente falando”.

A princípio, Vreeland teria seis meses para trabalhar na música do filme com o diretor David Robert Mitchell, mas quando Corrente do Mal foi selecionado para Cannes, meses viraram apenas três semanas. Para ganhar tempo, o diretor usou trilhas de John Carpenter, John Cage e Krzysztof Penderecki (de O Iluminado) para marcar onde as músicas seria inseridas. Disasterpeace/Vreeland, então, desenvolveu novas composições, mas que mantinham o clima das peças de referência. É por isso que várias faixas soam como se objetos da cozinham estivessem colidindo (estilo Penderecki) e outras lembram Carpenter (“Title” parece fazer uma referência ao tema de Halloween).

O músico usou os sintetizadores com consciência. “Acho que como os sintetizadores criam sons que nem sempre são análogos aos sons da vida real, eles fazem um bom trabalho sendo estranhos e mais difíceis de identificar. Acho que essa tendência dispara a imaginação. É a roupagem perfeita para escrever música assustadora”, ele diz.

Com essa trilha caprichada, até o mal virou retrô.

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6 comentários em “Corrente do Mal (It Follows) – A Trilha Sonora (2014-2015)

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