2015 Funk Jazz Resenhas Rock

Scott Henderson – Vibe Station (2015)

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Estilo e virtuose de um guitarrista que é referência da música contemporânea

Por Lucas Scaliza

Há poucas coisas que Scott Henderson não conseguiria fazer com uma guitarra na mão. Sua longa carreira como compositor (solo e no Tribal Tech) e também como professor (existe muito material disponível sobre suas técnicas por aí) inspira milhares de músicos desde os anos 80, fazendo dele uma referência quase obrigatória para roqueiros, bluseiros, jazzistas e toda a turma do progressivo. Não é um guitarrista tão pop quanto Joe Satriani, Steve Vai, John Petrucci (do Dream Theater), Joe Bonamassa ou Yngwei Malmsteen, mas é referência dos melhores que estão atividade e ajudam a encontrar novas formas de fazer uma guitarra soar.

Em seu novo disco solo, Vibe Station, ele mostra que o instrumento transmuta sua personalidade de acordo com o gosto de quem o toca. E nesse caso, ser de Henderson as mãos que empunham e debulham as seis cordas, faz toda a diferença. Em grande parte do álbum, o músico mostra que não está interessado em criar temas para serem repetidos ao longo de toda a faixa e nem passagens que funcionem como refrãos. Assim, ele se afasta dos modelos mais comuns de música instrumental de guitarra que temos por aí, como o de Satriani. Por outro, segue algumas experiências que vemos Steve Vai fazer também.

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“Church of Xotic Dance” lança mão de uma série de diferentes técnicas e abordagens variadas, indo do melódico ao abstrato e de volta ao melódico. Ouvidos atentos perceberam que as expressões causadas pela ação da mão esquerda nas cordas conferem uma variedade de detalhes a certas notas e fraseados que tornam a faixa um tantinho exótica e facilmente reconhecível como uma interpretação de Henderson. Esse tipo de riqueza técnica o afasta dos guitarristas mais diretos e tradicionais, que apenas “tocam notas”. Há um grande número de sons e possibilidades que pode ser explorado apenas pensando diferente, e não necessariamente apenas no uso de palheta.

“Sphinx”, que pode ser um achado e tanto para ouvidos apreciadores de bandas progressivas como Rush, é uma aula. Alternância de compassos, dedilhas, riffs e fraseados complicados e dissonantes encavalando-se. É uma das faixas instrumentais de guitarra mais interessantes que vai ouvir nos últimos anos.

Henderson persegue em Vibe Station uma modernidade em sua forma de se expressar que vai além de outras experiências atuais e se aproxima do tipo de música fusion que vemos o trio The Aristocrats fazer (com Guthrie Govan na guitarra) e a superbanda Gov’t Mule desenvolver em sua carreira, congregando virtuosismo e bom gosto no rock, jazz e blues.

As músicas são todas baseadas em um trio de músicos. Além de Henderson nas guitarras, Travis Carlton no baixo e Alan Hertz na bateria. Mas ainda é possível ouvir um teclado fazer uma cama para a faixa de vez em quando e outras guitarras sendo tocadas em trechos que pedem mais de uma linha melódica, uma base mais bem marcada ou uma textura diferente. Para isso, Scott diz que pela primeira vez gravou diversas camadas de seu instrumento em cada faixa, podendo usa diferentes guitarras, efeitos e amplificadores na mesma composição. Ou seja, nem tudo aqui foi gravado com sua Fender verdinha.

“Vibe Station” é exemplo de versatilidade. Além de ser muito perceptível cada mudança de timbre na guitarra (consequência dessas camadas da gravação), trata-se de um funk meio jazzista, dando a oportunidade de Hertz manter o andamento enquanto quebra os ritmos e dá pleno espaço para Carlton brilhar, seja com uma base de baixo classuda ou com o ótimo solo que faz ainda na primeira metade da faixa. Na segunda metade temos um momento de fritação com Scott. “Manic Carpet” já começa nervosa, com compasso em 7/8 bastante acelerado e Scott Henderson sendo tão abstrato e espacial quanto melodioso, às vezes utilizando escalas orientais, fazendo sua guitarra cantar cada nota. É a faixa com maior participação dos teclados para conseguir um efeito mais etéreo e espacial. O clímax é um rock cheio de vigor e com Alan Hertz quebrando tudo na bateria.

“Calhoun” é o que chamaríamos de balada do disco, com arpejos mais do que bem feitos e solos cheios de notas que alternam entre o estranho e o perfeito para a harmonia escolhida. E “Covered Head” é o blues mais torto do álbum. A guitarra insistindo em fraseados excêntricos que causam desassossego enquanto Carlton faz um belo walking bass. “Festival of Ghosts” é uma das faixas que facilmente poderão figurar entre as preferidas dos ouvintes, tem o mesmo feeling de Henderson no Tribal Tech e em outras canções do guitarrista, um clima até mesmo oitentista. “Dew Wut?” flerta com o country, mas é multifacetada, como tudo em Vibe Station, se aproveitando do blues e da pegada rock’n’roll. A guitarra reina suprema, deixando para Hertz e Carlton apenas o preenchimento harmônico e a condução rítmica. Para encerrar, “Chelsea Bridge” é um blues de boas vibrações e embora Scott apronte das suas frases longas e licks complicadinhos, se mantém na maior parte das vezes dentro de um esquema mais lento e mais melódico e agradável de ouvir.

Das nove faixas de Vibe Station, apenas duas ficam abaixo dos sete minutos. Há muito espaço para improvisação e variação de ritmos e timbres ao longo de cada faixa. Como não há vocal, Henderson quis que sua guitarra também fizesse as vezes de voz – e ele é muito bem sucedido nisso.

Para guitarristas interessados nas possibilidades do instrumento e em estilos fronteiriços (blues com cara de jazz, jazz com distorção e pegada rock, funk bluseado, etc), Vibe Station é tão obrigatório quanto Afrodeezia de Marcus Miller o é para baixistas. Se seu negócio é fritar e ser rápido, como um John 5, poderá conhecer a partir de Scott Henderson uma forma de ser fritador com arte, no estilo de Guthrie Govan (que também empresta suas habilidades para a banda de Steven Wilson) ou de John Scofield e Warren Haynes (do Gov’t Mule).

E se você não é guitarrista mas curte uma música boa e moderna, que tenta propor um jeito diferente de se organizar, Vibe Station pode ser um bom gole de frescor estilístico.

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7 comentários em “Scott Henderson – Vibe Station (2015)

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