2015 Resenhas Trilha Sonora

Mad Max: Estrada da Fúria (2015) – a trilha sonora de Tom Holkenborg/Junkie XL

Cover

Tensão e trovões, orquestra e metal

Por Lucas Scaliza

O diretor australiano George Miller fez uma grande volta de sua série com Mad Max: A Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road). Um filme de ação, com areia a perder de vista nos desertos da Austrália e da Namíbia, motores (e pessoas) envenenados, carros (e pessoas) modificados e uma grande quantidade de explosões, capotagens e violência (contra carros e pessoas). Tudo para contar mais um episódio da vida de Max Rockatansky (Tom Hardy), que segue sobrevivendo feito um cowboy solitário em um mundo punk pós-apocalíptico e que acaba no fogo cruzado de uma guerra entre um lorde da guerra (Immortal Joe) e Imperatriz Furiosa (Charlize Theron), que roubou as mulheres parideiras do ditador e que dirige um caminhão tanque para salvá-las.

Momentos de tensão e aflição não faltam ao filme, assim como o espírito de guerra sobre rodas que era tão característico no segundo episódio da série, Mad Max: The Road Warrior. Os elementos que compõem a música de ação dos blockbusters é bem conhecida: orquestrações e percussão. E Mad Max: Estrada da Fúria não foge a regra, mas George Miller conseguiu integrar a música dentro do ambiente de guerra. Desde os tempos antigos as tropas marcham acompanhadas por trompetes, trombones, chifres (instrumentes como o berrante sertanejo) e tambores, criando sons e principalmente ritmos que instiguem as tropas. Numa guerra, a moral dos combatentes é importante. Nas guerras atuais, como no Afeganistão e Iraque, a trilha sonora dos soldados passou a ser os diversos tipos de heavy metal. A trilha que o holandês Tom Holkenborg – conhecido como Junkie XL – preparou para Mad Max, um filme que tanto remete ao passado (uma humanidade que involuiu e que faz referência aos filmes de cowboys) e ao futuro, congrega as orquestrações, os tambores (existem carros de guerra no filme com percussionistas em cima), elementos eletrônicos e… uma pesada guitarra de metal (também há um guitarrista na guerra, tocando na frente de potentes PAs emparelhados em um veículo).

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Holkenborg fez trilhas para games e contribuiu com as músicas de outro peso pesado das trilhas pesadas, o alemão Hans Zimmer (responsável pelas trilhas de diversos filmes de Christopher Nolan, incluindo a trilogia Batman, A Origem e Interestelar), fez a trilha de 300: Ascenção do Império e está trabalhando na trilha de Batman Vs. Superman. Assim, espere por músicas bastantes tensas e batidas que vão soar como trovões.

Depois que a ação começa (e ela começa cedo neste filme), temas grandiosos enchem a tela e nossos ouvidos. Mas logo no comecinho, há mais espaço para aqueles ruídos que nos colocam na presença de uma sutil ameaça e nos deixam na expectativa. É assim com “Survive”, em que o zumbido das cordas aos poucos se torna ataques metálicos (mas comedidos) às cordas de cellos e violas. A orquestra de ação vai surgindo aos poucos em “Escape”, que deve muito a bases eletrônicas. “Immortan’s Citadel”, feita para acompanhar cenas com o ditador da cidade do filme, que divide as pessoas em subalternos de Immortal Joe e famélicos sedentos, também carrega a aura eletrônica do suspense antes de mostrar uma orquestração bem alta e voltar aos ritmos de heavy metal tocados por violinos, cellos, violas e sopros.

“Blood bag” é a primeira faixa que nos mostra a percussão – executada pelo próprio Tom Holkenborg – acelerada e pesada que vai nos acompanhar pelo deserto. Aqui a guitarra metaleira também faz sua participação. “Storm is coming” acompanha a cena em que todos dirigem guerreando para dentro de uma gigantesca tempestade de areia. A orquestra mantém o passo sempre constante e cria temas que evocam o perigo. Na bela mas furiosa tempestade, há espaço para o sublime também (é belo, mas mortal) e a orquestra corresponde a esse sentimento deixando-se mais aberta, libertando-se por um momento do compasso de guerra.

“Into the Canyon” dá uma pausa na orquestração para emular o batimento cardíaco acelerado de quem sabe que está prestes a fazer algo que vai dar errado. “Brothers in Arms” retoma o tema de ação do filme com batidas fortes, violinos tocando intervalos de semitons e bases eletrônicas, sempre a caminho de um clímax épico. É uma das melhores resoluções que Holkenborg compôs para Mad Max.

Mas há ali no meio momentos em que a orquestração é mais bonita e cria temas melódicas, servindo também como meio de relaxar os nervos da tensão (afinal, o filme todo é basicamente uma grande perseguição), como as melancólicas “Moving On” e “Redemption” (que coloca o cello, com seu som de gemido, como um dos principais instrumentos melódicos) e a bela “Many Mothers”, que evoca também tanto a solidão como a desesperança do deserto.

Mas a trilha de combate logo volta e seguimos até “Immortan”, outro bom exemplo de faixa para blockbuster. Passa pela seção de guerra, chega até sua parte mais melódica e termina evocando o silêncio do deserto, antes que “Chapter Doof” continue a elevar os ânimos com seus tambores. E na sequência, coroando o fim, “Walhalla Awaits” usa seus naipes de cordas para cada vez mais empurrar o sentimento do espectador na direção da finitude como libertação.

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As quatro últimas canções – “My name is Max”, “Let them up”, “Mary Jo Bassa” e “Coda” –, quando no filme a guerra e as perseguições já terminaram, há uma nítida mudança de tom. A ameaça, o peso dos metais, as repetições das cordas, o sinistro ritmo eletrônico e as percussões estão ausentes, deixando a orquestra soar mais iluminada e leve. Ainda há um sentimento de pesar em “Coda”, mas sem o senso do perigo.

Junkie XL/Tom Holkenborg compôs as músicas e sozinho gravou bateria, percussão, algumas guitarras, o baixo elétrico e todos os sintetizadores que fazem as bases eletrônicas e efeitos sonoros. Contou ainda com o reforço da guitarra cheia de distorção – e afinada alguns tons abaixo do padrão, para garantir que soaria como um soco no estômago – de Nick Zinner, parceiro de Karen O no Yeah Yeah Yeahs. A orquestra contou com a participação de mais de 100 músicos e arranjos de Emad Borjian, músico que também trabalhou ao lado do holandês em 300: A Ascensão do Império.

Um bom filme merece uma boa trilha, e Junkie XL garantiu isso ao filme. Não é repleta de ideias novas (como os ruídos eletrônicos no suspense Garota Exemplar) e nem transportam as imagens para “outra dimensão”, como se aquilo não fosse real (como é o caso da trilha de Corrente do Mal). Pelo contrário: a trilha deste novo episódio de Mad Max nos coloca no ambiente exato em que George Miller nos quer: na imensidão do deserto, numa máquina de guerra que segue como uma carruagem para cumprir uma missão louca. Soa épico o bastante para você?

Cumpre bem o papel de trilha de ação e blockbuster. Nos momentos mais fortes, os metais da orquestra soam robustos, como pedaços de lataria brandindo contra o concreto, o mesmo som obtido por Hans Zimmer em suas trilhas. Ajuda a posicionar cada cena, sempre em direção a um perigo maior e uma ação ascendente, mas não chega a mexer com o medo, desespero, agonia ou mesmo o sentimento de luto. Holkenborg bate forte, mas mira a cenografia e não as profundezas psicológicas dos personagens.

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5 comentários em “Mad Max: Estrada da Fúria (2015) – a trilha sonora de Tom Holkenborg/Junkie XL

  1. Foi foda aquele cara da guitarra tocando durante a perseguição, bem como os tambores. Dá vontade de estar no meio daquela perseguição! Acho que no filme eu seria um daqueles que queriam ir para Valhala kkkkkkkk

  2. brother in arms !!!!!!!!!!! uma das músicas mais fodas de todos os tempos!!!!!!!!!!!!!

    Valhalla, valhalla, valhalla!!!!!!!!!!!

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