2015 Indie Live/Ao vivo Resenhas Rock

Nick Cave – Live At The Royal Albert Hall (2015)

Foto tirada de: http://blog.doodleheart.co.uk/
Foto tirada de: http://blog.doodleheart.co.uk/

Setlist caprichado e uma ótima performance de Cave e dos Bad Seeds

Por Lucas Scaliza

Embora seja uma lenda do indie, Nick Cave ainda permanece sendo um grande artista que não estourou nos Estados Unidos, embora tenha público por lá também. Com mais de 30 anos de carreira, consolidou sua carreira ao lado dos Bad Seeds e um dos principais expoentes do rock australiano e do post-punk. Após o lançamento do excelente Push The Sky Away (2013), Cave e sua banda embarcou numa extensa turnês pela Europa e América do Norte, culminando com o lançamento do documentário 20,000 Days on Earth (2014), que retrata de maneira bastante artística um dia na vida do compositor e alguns aspectos de sua história pessoal e carreira. Na cola da boa recepção do filme, Nick agendou alguns shows solos pela Europa. Um desses shows, com a participação dos Bad Seeds (apesar de ser “solo”), foi no prestigiado Royal Albert Hall, com ingressos esgotados. (A banda já havia gravado um ao vivo no mesmo lugar em 1997, sendo lançado em 2008).

Com mais de duas horas de duração, foi uma verdadeira celebração da carreira de Nick Cave e da variedade musical de seu catálogo. Diversas músicas preferidas dos fãs entraram no setlist, assim como músicas importantes de sua carreira, alguns lados B e canções dilacerantes e agressivas dos anos 80. Muitas faixas deram ênfase ao piano (tocado pelo próprio cantor), conferindo uma interpretação ligeiramente diferente da original. Mas Warren Ellis (guitarra, violino, mandolin), “Martyn Casey (baixo), Larry Mullins (teclado) e Thomas Wydler (bateria) também tiveram participação importante no show. Assim que o show acabou, quem compareceu pôde sair dali com um disco duplo retratando na íntegra o show que acabaram de assistir. E é esse show que resenhamos agora.

Alguns clássicos da discografia estão bem representados. A soturna e sardônica “Red Right Hand”, talvez a música que corroborou a imagem de Príncipe das Trevas (do indie e do post-punk, não confundir com Ozzy) de Cave, ganhou uma versão bem legal com piano e aquela inconfundível linha de baixo. O solo também tirou a ênfase do teclado e colocou o piano de Cave como protagonista. “Stranger Than Kindness” e a doce “Brompton Oratory” mantiveram-se bastante parecidas com as originais. “From Her to Eternity” e “Tupelo” continuam tão agressivas e tão carregadas de ameaça quanto sempre foram, sendo interpretadas pela banda toda. Já “The Mercy Seat” e “Avalanche” (cover de Leonard Cohen), outras duas pesadas faixas dos anos 80 de Cave, também estão no repertório. A primeira continua sendo forte e cheia de tensão mesmo na interpretação piano e voz de Cave, enquanto a segunda ganhou uma carga mais melancólica sendo executada apenas pelo piano do cantor e o violino de Ellis. E “Jack The Ripper”, mais perto do fim do show, volta com a banda toda, com baterias grandes, baixo pesado e guitarra distorcida, mostrando todo o poder rock’n’roll do post-punk dos Bad Seeds.

As bonitas “The Weeping Song”, “The Ship Song” e a importante “Love Letter” também ficaram ótimas apenas no piano. Já “No More Shall We Part” sempre foi uma canção para piano. Neste show, continuou tão dramática e triste como sempre foi. Nick Cave, acima de tudo, sabe interpretar suas composições e soar autênticos em cada uma delas. E não poderia faltar “Into My Arms”, uma das músicas mais conhecidas e mais exaltadas de sua carreira, sendo recebida com efusão pela plateia inglesa.

Foto: Andy Paradise
Foto: Andy Paradise

Entre os lados B, ele tocou “West Country Girl”, mais uma com participação decisiva do baixo de Casey e as habilidades de Ellis no violino; uma versão bem tristonha de “Black Hair”; uma versão animada e iluminada de “Breathless” (uma das músicas mais acessíveis do show); e a interessante “Up Jumped The Devil”, com direito a Nick explicando que é uma música sobre fazer um contato com o diabo e ser levado ao inferno, algo que ele “não acredita mais”. Embora seja um lado B, é uma canção que fica ótima ao vivo e tem a mesma pegada de “The Red Right Hand”.

Canções mais recentes de Push The Sky Away também estiveram no setlist, começando por “The Water’s Edge”, que abre o show com seu jeitão new wave e abstrato, evocando o melhor da interpretação do australiano. É o tipo de faixa que depende da interpretação de toda a banda, mas a bateria de Thomas Wydler realmente contribui com o caos sonoro. E “Mermaids”, que ganha um belo solo de improviso feito por Ellis, cheio de overdrive fuzz, levando a canção para outro patamar. “Higgis Boson Blues”, mais um longo clássico de Cave, não decepciona nunca, uma das melhores faixas do show e da carreira dele, arrancando gritos e aplausos da plateia enquanto ela segue. “Jubilee Street”, o single do álbum mais recente, começa com o andamento mais lento que o original, mas logo ganha velocidade. A música é simples, um loop de uma determinada sequência de acordes, mas sua dinâmica sobe até atingir altos níveis de distorção enquanto Cave canta “I am vibrating, I am flying, look at me now!” Por fim, as vibrações de outra dimensão de “Push The Sky Away” fecham o show.

Essa nova fase de Nick Cave & The Bad Seeds foi bem documentada. Além do novo disco de inéditas e do documentário, lançaram oficialmente o Live From KCRW, que capta uma pequena apresentação ao vivo do grupo, meio elétrica e meio acústica, em um pequeno auditório. Extraoficialmente, saiu o duplo “Live at the Admiralspalast”, gravado em Berlim. Nesse registro, a banda toca Push The Sky Away na íntegra e na ordem, completando a apresentação com vários hits do grupo. Mas este novo Live At The Royal Albert Hall captura não só um repertório mais do que caprichado como também uma mostra do melhor que a performance de Cave, Warren Ellis, Martyn Casey, Thomas Wydler e Larry Mullins têm para oferecer. São veteranos da música que ainda tem muito gás e estão fazendo música boa, cada vez mais madura e com um pique de deixar muito garoto novinho no chinelo. É um ao vivo tanto para o fã de Cave & The Bad Seeds (obrigatório, diria) como uma ótima introdução ao universo do compositor.

8 comentários em “Nick Cave – Live At The Royal Albert Hall (2015)

  1. Nick é muito bom. A matéria tbm.

    Enviado do meu dispositivo Samsung

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