2015 Eletronica Pop Resenhas Soul

Daniel Johns – Talk (2015)

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A conversa entre um jovem, um “experiente” e suas (in)certezas

por brunochair

Há vinte anos, o Silverchair lançava o seu primeiro álbum, intitulado Frogstomp. Na época em que o álbum estourou, os integrantes da banda possuíam somente quinze anos. Ou seja, apesar de já apresentarem uma sonoridade de gente grande, eram apenas garotos que experimentavam o repentino sucesso.

“Quem serei daqui vinte anos?”.

Algumas vezes, na adolescência, quis descobrir quem eu seria depois de vinte, trinta anos de vida. Vaticinar é um exercício engraçado, ainda mais quando se está numa idade recheada de incertezas – e como se o futuro fosse o local das certezas!

Será que Daniel Johns, o frontman de uma banda australiana de grunge, fez esse exercício adivinhatório há vinte anos? E será essa a “conversa” que Daniel Johns procura ter com o seu passado, a partir do novo disco?

Daniel Johns, hoje com 36 anos de idade, pode dialogar com o passado e dizer que muito de sua vida mudou. Não trata-se de dizer se tudo está melhor ou pior, mas apenas a intenção de dar sentido à vida. E, no caso, o que nos interessa para o momento: uma música que o satisfaça, e que consequentemente nos satisfaça, também.

Obviamente, o ouvinte que decidir colocar Frogstomp e Talk para ouvir ficará absurdamente surpreendido. Parece não haver ligação entre o que já existiu e o que hoje habita a sonoridade de Daniel Johns: o analógico deu espaço quase que completo para o eletrônico; o rock para o pop; o vocal rústico por um vocal mais trabalhado, com ênfase nos timbres.

Onde está o silverchair? A última gravação da banda ocorreu em 2007. E mesmo neste último CD de 2007, o Young Modern, nota-se uma preocupação dos integrantes em buscar inovação musical. Inovação esta que dá a tônica deste novo trabalho do Daniel Johns, a preocupação em trazer algo novo para a sua discografia.

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Talk, que será lançado oficialmente amanhã (22/05) possui quinze músicas. Em março de 2015, o cantor lançou o primeiro EP solo, chamado Aerial Love. Todas as canções deste EP foram disponibilizadas no ITunes e também no YouTube, para audição. Além da música título do EP, temos “Preach” (que também está no álbum novo), “Surrender” e “Late Night Drive”.

As novas músicas já traçavam uma possível diretriz do que seria o novo álbum do Daniel Johns: “Aerial Love” possui uma forte pegada de r&b, com a presença de elementos eletrônicos. Era pop em sua essência, mas um pop mais soturno. Tem um quê romântico, mas um tanto místico. Um pop não clichê, não comercial, mas mesmo assim possuidor de qualidades para tocar nas rádios, clipes nos canais de TV e milhões de acessos no YouTube.

As músicas já provocaram um certo alvoroço entre os antigos fãs de silverchair: alguns esperavam o bom e velho rock de sempre, e foram surpreendidos por um trabalho voltado para o pop, com elementos do r&b e eletrônico. O novo material já demonstrava uma guinada na carreira do cantor, algo que (para os fãs mais antigos da banda) foi encarado até com naturalidade, em razão das inovações promovidas pela banda disco após disco.

Talk segue as tendências inovadoras que estão contidas no EP Aerial Love. O que podemos observar, ao longo do disco, é um artista bastante plural, procurando dialogar com referências do pop, r&b e da música eletrônica. Não é “soturno” como “Aerial Love”, possui músicas mais alinhadas com uma tendência comercial (“We Are Golden”, “Cool On Fire”, outras ainda mais ligadas ao r&b (“Imagination”, “Chained”) , outras com uma pegada mais oitentista (“Dissolve”).

O disco tem excelentes composições, onde fica difícil enquadrar algumas músicas em um estilo específico. É o caso de “Imagination”, “Faithless”, “Warm Hands”, “New York”. Há também um pouco de hip-hop presente em alguns momentos, e pode-se dizer que toda essa experiência musical contemporânea, com estilos e composições bastante diversos, ocorre por influência de alguns produtores que trabalharam em algumas músicas do disco.

Em “Imagination” e “Faithless”, temos a presença dos produtores Styalz e M-Phazes; nas canções “By Your Side” e “Dissolve”, quem é responsável pela produção é Julian Hamilton, integrante do dueto eletrônico The Presets; e nas músicas “Aerial Love”, “Too Many” e “Warm Hands” quem assina a produção é Joel Little, que por acaso foi o bem sucedido produtor do disco Pure Heroine, da neozelandesa Lorde.

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A resposta do Daniel Johns de hoje à pergunta do Daniel Johns de vinte anos atrás é essa: estamos aí, meu amigo. Certamente, o menino Johns não entenderia a resposta, teria dificuldades em entender a estética do disco novo, a mesma que alguns fãs do silverchair antigo parecem enfrentar ao ouvir Talk.

Porém, muitos fãs estão ouvindo e curtindo o disco novo, compreendendo o processo humano de inovar-se, de buscar algo novo que faça sentido à carência que é existir. Na conversa entre o velho e o novo, resposta pronta é o que não há.

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10 comentários em “Daniel Johns – Talk (2015)

  1. felipe desiderio

    Já a muito tempo o Daniel johns dava indícios de mudança em 2004 quando ele estava em seu projeto paralelo o The Dissociatives que era um rock mais eletrônico. Em 2007 o Silverchair volta com a sonoridade um pouco diferente dos outros CDs lançados mais sem perder a pegada.

    • Felipe, concordo com você. Mas creio que o espírito de mudança sempre esteve com o Silverchair, essa inquietação por inovar é própria de um grande músico como Daniel Johns. Este álbum solo é mais um exemplo disso. Obrigado pelo comentário, um abraço!

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  4. Vivi intensamente o Silverchair. Tocava “Freak” e “Tomorrow” com minha galera na garagem. Daniel e eu temos a mesma idade e eu tenho uma admiração profunda por esse cara. Ele sempre fez o som que fazia sentido pra ele no momento, independentemente de fãs e opinião pública, o cara sempre foi precoce e competente, Ben e Chris podem até ser bons músicos mas a força criativa do Silverchair sempre foi o Daniel. Sempre foi ele a direcionar a banda pra uma sonoridade sempre diferente a cada CD. A princípio fiquei decepcionado porque a fase grunge do Silverchair me traz tantas boas lembranças que eu adoraria ouvir um retorno ao rock, à porradaria que eles faziam tão bem, mas seria muito egoísta da minha parte. A vida segue caminhando e tentar resgatar o passado não faz sentido. Que bom que o cara segue compondo e muito bem, obrigado. A produção desse “Talk” é impecável. Me remete a Prince e Disclosure, sons que eu nunca imaginei relacionar o Silverchair. rsssss. Mas Silverchair é passado pro Daniel. Que fique nas boas lembranças e que o cara siga me surpreendendo. Integridade artística é sempre louvável.

    • Obrigado pelo comentário, Marcelo! Sinto a mesma vontade de ouvir o grunge do Daniel Johns também, mas os tempos são outros… rs. O jeito é ouvir Frogstomp, também. Na condição de fã antigo da banda, difícil foi fazer a resenha avaliando a nova fase, mas não sou daqueles chatos que só vai cornetar. Acho que você foi por aí, também. Abraços, e apareça aqui no blog quando puder 🙂

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  8. Também sou uma fã relativamente antiga do Silverchair e,admito, que as primeiras músicas do EP e do Talk bateram em mim com muito estranhamento! Tanto é que levei um bom tempo para ouvir o disco por inteiro após seu lançamento. Mas aí é que entra a graça de ser fã de um cara como o Daniel: ele sempre teve o poder de se reinventar, arriscar, e seu talento e criatividade são tão grandes que é impossível sequer admirar a sua disposição de sempre fazer coisas novas. É bem isso que tu disse na crítica, pode até ser pop mas não é o pop que todo o resto da galera ta fazendo por aí, é requintado e complexo, porém as letras são simples e genuínas. Como disse o amigo ali em cima, há sempre de se admirar a integridade artística, especialmente nos dias de hoje. Ótima crítica! Me encontro ultimamente VICIADA neste disco! Abraço!

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