2015 Folk Indie Resenhas Rock

Sun Kil Moon – Universal Themes (2015)

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Mark Kozelek ainda mais confiante e fazendo do banal algo revelador

Por Lucas Scaliza

Pouco mais de um ano apenas após Benji (2014), o elogiado sexto disco de estúdio de Mark Kozelek sob o nome de Sun Kil Moon, sua carreira solo entrega mais um álbum folk diferente, interessante e “mal passado”, quase cru, sangrando. Universal Themes tem todas as boas características de Benji: os bons arranjos, as letras pessoais e longuíssimas, aquele sentimento de se estar afundando conforme a voz rouca e grave de Kozelek canta sobre abandono, amor e morte e seus temas universais, como já evidencia o nome do trabalho.

Mas dessa vez Kozelek confiou menos no violão. Ou melhor, confiou em um contexto musical maior do que o folk de violão que caracterizava tão bem seu disco anterior. Agora guitarras com distorção bem suja dividem espaço com dedilhados de violão e fazem solos. Embora seja um cara do folk, Kozelek se permite exigir mais do ouvinte. Das oito faixas, apenas uma tem menos de sete minutos. Outras passam dos 9 e duas chegam a 10 minutos de duração. Além disso, há trocas mais bruscas de ritmos e composições menos fluídas e mais cheias de ângulos. Depois da aceitação de Benji, nota-se que o Sun Kil Moon ficou mais confiante e soube ousar mais, seguindo para isso o esteio aberto pelo sucesso de 2014.

“The Possum” já chega mostrando o lado contista da banda por cima de um ritmo ¾ que embala a torrente de versos cheio de absurdo e morte. A história é sobre encontrar um gambá moribundo no quintal e ir ao show da banda Godflesh e as reflexões sobre tempos passados, sobre ser grato e a finitude da vida. Mas tudo vira o folk mais abstrato e alternativo depois de um tempo. O clima só melhora quando a música volta a colocar violões mais coloridos em seu finalzinho. Kozelek brinca com a estrutura de sua canção. Na igualmente longa “Birds of Flims”, ele deixa a música ser mais regular, um mesmo dedilhado e ritmo mantido ao longo da faixa e acrescenta overdubs em cima de alguns versos para quebrar a monotonia. A narração segue, as referências aos EUA vão se acumulando, o mesmo EUA grande e profundo que foi tão bem retratado em Benji.

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E “With Sort Of Grace I Walked To The Bathroom to Cry”, com um título sensacional, é um rock com guitarras e cheio de acordes simples com distorção, beirando o garageiro. Com sua voz grave e forte e interpretação exaltada, chega a lembrar Nick Cave nos anos 80. No meio do rock ele vai dando viradas bruscas e termina sentimental, novamente com uma valsinha delicada e minimalista, em contraste com a descarga de energia do início. “Cry me a River Williamsburg Sleeve Tattoo Blues” é um folk blues bem tradicional.  “Little Rascals” e seus interlúdios etéreos com até quatro instrumentos de corda tocando ao mesmo tempo, dando um ar tanto renascentista quanto religioso no meio do rock.

Com mais de 10 minutos, “Garden of Lavender” é uma das faixas mais bonitas do disco e mais sentimentais, evocando uma profunda saudade. As vozes sobrepostas em diferentes oitavas carregam uma dor que é bela também. E ela também sofre mutações, principalmente após o que, a princípio, parece um refrão, mas logo você percebe que era só mais uma das várias roupagens que a composição assume. E aí Kozelek se revela: após produzir uma passagem tão emocionante e bem feita, que poderia ser repetida e ganhar novamente o ouvinte facilmente, porque relega-la a apenas uma execução? A princípio, imagino que o compositor esteja realmente confiante, sabendo que sua música tem força e qualidade suficiente para manter o ouvinte interessado até o fim sem precisar de um refrão. Em segundo lugar, o arranjos de cordas final, sem vocal, é igualmente bonito, embora curto.

“Ali/Spinks 2”, a faixa mais curta de Universal Themes – e mesmo assim quase bate nos 7 minutos – revela o lado mais noiser do Sun Kil Moon. É como se Thurston Moore assumisse as guitarras. Há trechos harmônicos que se apoiam em sequências de apenas dois acordes e passagens em que a guitarra faz das suas loucuras. Mas se não há Moore no álbum, há Steve Shelley, também do Sonic Youth, nas baquetas. Por fim, “This is my first day and I’m indian and I work at a Gas Station”, outra faixa bem longa, só que dessa vez mais fácil de acompanhar.

Em Benji, você só tinha que se acostumar com o ritmo e o palavrório que Kozelek emprega sob a alcunha de Sun Kil Moon. Já em Universal Themes é preciso vencer não apenas isso, mas todas as escolhas excêntricas que ele faz ao longo de cada faixa. Nesse contexto, o compositor tenta ser autêntico e não exagera na produção de cada faixa. Há momentos mais cheios de som, com foco nos arranjos, e há momentos mais crus (a começar pela capa, aparentemente banal, mas cotidiana como os temas evocados), mas tudo funciona para transmitir não apenas uma canção, mas uma canção que contenha o estado mental e espiritual do artista. Assim, até as várias desafinadas e estranhismos ficam dentro do contexto do álbum e não soam deslocados.

O disco não é fluente como o trabalho anterior e, apesar do nome, os temas universais não são tão comoventes como eram em Benji. Kozelek, no entanto, fica mais pretensioso, como foi My Favorite Faded Fantasy (2014) do Damien Rice, mas não tão dramático, e menos focado do que o ótimo Carrie & Lowell do Sufjan Stevens, que deixou a loucura sonora em favor da intimidade de poucos instrumentos.

Embora muito bom e um exemplo do que o folk americano pode produzir sem repetir as velhas soluções de Bob Dylan ou de duplas mais fofas do estilo, Universal Themes pode ser mais indigesto para quem vai começar a ouvir Sun Kil Moon. E lembre-se: tenha as letras em mãos, elas contam bastante no envolvimento com a obra. Mark Kozelek tenta transformar o banal em algo revelador.

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5 comentários em “Sun Kil Moon – Universal Themes (2015)

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