2015 Eletronica Resenhas Trilha Sonora

Chappie (2015) – trilha sonora de Hans Zimmer

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Hans Zimmer troca a orquestra pelos sintetizadores, mas não perde os maneirismos

Por Lucas Scaliza

A ficção-científica de fundo social Chappie, dirigida pelo sul-africano Neill Blomkamp, é uma ótima mistura de A.I. – Inteligência Artificial e Robocop com o espaço urbano e linguagem popular do filme brasileiro Cidade De Deus. Há muito também de Distrito 9, o filme que revelou Blomkamp. A mistura é uma boa ideia, mas o diretor dá boas escorregadas, principalmente no roteiro, apelando para saídas fáceis e previsíveis.

Quem ficou a cargo da trilha sonora foi o super requisitado alemão Hans Zimmer, famoso por trabalhar nas trilhas épicas e pesadas da trilogia Batman, dirigida por Christopher Nolan, e Homem de Aço, de Zack Snyder. E é o responsável também pelas trilhas de Interestelar e A Origem, ambos de Nolan, e o vindouro Batman Vs. Superman, de também Snyder, ao lado de seu pupilo Tom Holkenborg, que assumiu a boa trilha de Mad Max: Estrada da Fúria. Embora tenha criado uma marca com os blockbusters da Warner – como o “Baauumm” de A Origem, sobre o uso de metais –, Zimmer consegue sair desse tipo de composição e obter resultados interessantes em outras paragens.

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Para Chappie, o compositor voltou ao eletrônico que exercia nos anos 80 e 90, mas com uma mão tocando de leve na experimentação e a outra no pop/hip-hop. Afinal, Chappie é a história do primeiro robô com inteligência artificial genuína, dotado de uma consciência, e precisa aprender tudo, desde a linguagem verbal até adquirir cultura. Mas Chappie é “sequestrado” por bandidos de Johanesburgo e além de aprender com a criminalidade, acaba “crescendo” e adquirindo os costumes e o linguajar de quem está à margem da sociedade sul-africana.

A orquestração está presente também em quase toda a trilha, servindo desde uma cama para as batidas eletrônicas que ditam o ritmo e a pegada da música. É o caso de “It’s a Dangerous City”, por exemplo. Já em “The Only Way Out of This”, Zimmer usa a música eletrônica com força total para criar uma trilha de ação que não perde de vista o aspecto futurista da história. A criação de sons com sintetizadores é crucial para isso e Zimmer mostra que não perdeu a mão para moldar sons.

Em “Use Your Mind”, principalmente no início e no fim da faixa, ele consegue captar muito bem o clima do filme e todo o aprendizado de Chappie, que deve ser estimulado com imagens, ações, cores, conversas. Outra que condensa muito bem a noção de ficção científica com algum calor humano é “Firmware Update”. Ambas inclusive possuem trechos melódicos que lembram o uso sintetizador por Disasterpeace na trilha de Corrente do Mal, filme de terror cuja trilha é muito importante para toda a construção da atmosfera.

Zimmer sempre teve ótimos momentos com suas trilhas para cinema, mas também é conhecido por compor trilhas um tão gélidas quanto a cerebralização dos filmes em que participou, sobretudo nas parcerias com Nolan. Embora com Chappie ele consiga mostrar um lado de sua capacidade artística que há tempos não aflorava, há alguns maneirismos ainda presentes: as faixas simplesmente não conseguem fazer o mais com o menos. Zimmer sempre aposta na superprodução e em múltiplas camadas de produção. E às vezes isso resulta em uma trilha mais fria, distante. Contudo, é notório que ele se esforça para quebrar essas impressões, seja com um crescendo ao final de “Welcome to the Real World” ou com as bases pinkfloydianas de “The Black Sheep”. Zimmer também tem a tendência de resolver quase tudo com o clima de suspense e ação para tirar o fôlego, como é o caso de “Breaking The Code”, “Rudest Bad Boy In Joburgo” e “You Lied To Me”, que fazem Zimmer ser… esse Zimmer que conhecemos com o Nolan, para o bem ou para o mal (depende do seu gosto pessoal, afinal), chegando ao clímax de seu estilo grandioso e barulhento com “Mayhem Downtown” e “The Outside is Temporary”, onde os metais de outrora dão lugar para os sintetizadores, mas a percussão pesada e os coros continuam firmes e fortes.

Muito ruído e cliques também são usados para compor a trilha, mas não há a mão de Trent Reznor e Atticus Ross aqui, que parecem saber realmente “desenhar” a sonoridade que querem. Zimmer é mais como um maestro mesmo, no comando de uma série de instrumentistas e balançando a mão para pintar o que já foi esboçado. Por isso tudo soa tão grande e tem tanta dificuldade em se conectar ao íntimo do público e ao psicológico dos personagens. A melhor faixa entre essas que precisam soar grande é “Never Break a Promise”, que tem um primeiro desenvolvimento pesado e depois abranda, mantendo o ritmo mas abrandando a dinâmica.

“Illest Gangsta on the Block” é pop como um videogame de 16 bits e flerta com o hip hop. É, de longe, a faixa mais interessante da trilha sonora e tem tudo a ver com o filme de ficção científica e com a personalidade do robô Chappie. Uma música inocente, esperta, que evoca a malandragem e a molecagem que do protagonista. É toda coração e, ao ouvi-la apenas no final do filme, desejamos que a trilha sonora tivesse tido essa sacada mais vezes.

Vale a pena notar que na capa da trilha sonora também estão creditados Steve Mazzaro e Andrew Kawczynski pela “música adicional”. A menos que seja algum tipo de acordo contratual entre Zimmer, a dupla e a Sony, empresa produtora do longa, é de se desconfiar que ambos também tiveram uma boa participação na trilha. Vale lembrar também que Ryan Amon, que compôs a trilha de Elysium, filme anterior de Blomkamp, é quem estava originalmente escalado para a tarefa em Chappie. Não há certeza, mas parece que Amon começou mesmo a trabalhar na trilha antes de sair do projeto e até mesmo teria contratado uma orquestra para a tarefa. Não dá para saber como e o quanto essa orquestra seria usada, mas o resultado com certeza seria diferente do obtido pelo alemão.

Quem é fã do Hans Zimmer com orquestra, com muitos metais à disposição, podem estranhar o Hans Zimmer com sintetizadores e baterias eletrônicas. Mas as marcas de sua composição, seja na frieza, seja na ação enervante ou nos momentos em que consegue de fato chegar mais perto do público, estão todas ali. Tirando algumas surpresas, como “A Machine that Thinks and Feels”, em que uma caixinha de música lança o tema, “The Black Sheep”, os assobios de “We Own the Sky” e a graça de “Illest Gangsta on the Block, é uma trilha para ficção e ação científica bastante convencional, mas com imaginação.

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1 comentário em “Chappie (2015) – trilha sonora de Hans Zimmer

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