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David Cross & Robert Fripp – Starless Starlight (2015)

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Uma nova jornada espacial

Por Lucas Scaliza

Existem músicos que escolhem as notas certas – e não milhares dela, como se o braço de instrumento fosse uma corrida de cavalos – e sabem aproveitá-las em sua simplicidade e beleza. Grandes solos e grandes riffs foram feitos dessa forma, e grandes músicas se desenvolveram ao redor dessas escolhas de notas. Exemplos não faltam, e vão desde “Sweet Child O’Mine” do Guns‘N’Roses, até “Enter Sandman” do Metallica, sem falar em “Something” dos Beatles ou mesmo “Shine On Your Crazy Diamond” e “Wish You Were Here” do Pink Floyd.

Agora imagine o que seria pegar uma linha melódica de uma única música e desenvolvê-la para criar um álbum inteiro a partir dela? É trabalho para músicos com imaginação e é o que fizeram David Cross e Robert Fripp, músicos que tocaram juntos no King Crimson em uma das formações dos anos 70 e juntos compuseram “Starless”. Agora, Starless Starlight é um trabalho de variações e improvisos sobre um tema, combinando a técnica Soundscapes de Fripp (que cria todo uma paisagem sonora espacial e tridimensional) e o violino de Cross.

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O processo de gravação deste disco é muito parecido com o usado por Nick Mason e David Gilmour para The Endless River (2014), o último disco do Pink Floyd, em que os músicos trabalharam algumas composições deixadas pelo tecladista Richard Wright e as completaram posteriormente.

O encarte do disco diz que uma vez, durante uma apresentação em St. Louis em 2006, Fripp gravou duas variações do tema de “Starless”, que ficaram conhecidas como “Starlight I” e “Starlight II”. Assim, todas as faixas de Starless Starlight usam como referência a música original e algumas delas se apropriam das duas variações também. Fripp cedeu as suas gravações para o álbum e David Cross gerenciou o projeto e colocou seus violinos posteriormente, assim como Tony Lowe adicionou o teclado. Mesmo assim, o trecho utilizado da música é facilmente reconhecível.

O resultado é um disco instrumental extremamente bonito e expressivo, como The Endless River, expandindo o curto tema da música do King Crimson pelo vácuo entre os sistemas solares, como uma trilha sonora ou poema sinfônico (mas sem a orquestra). “Starless Starlight Loops”, a faixa introdutória do disco, é um grande improviso de Cross ao longo de 11 minutos. “In The Shadow”, praticamente uma continuação da primeira faixa, mantendo a melodia dentro da mesma escala, coloca uma cama de teclados e sintetizador no lugar das Soundscapes. Já em “Shine and Fall” temos não só as Soundscapes, mas também a guitarra delicada de Fripp fazendo suas variações. Em “Starless Theme” o trecho está preservado, mas é Cross quem o executa no violino, enquanto o teclado de Lowe cria a orquestração. “One by One, the Star were Going Out” traz um pouco mais de drama ao disco e aprofunda a similaridade com música ambiente e trilha sonora. “Fear of Starlight” é mais tensa. A bonita “Starlight Trio” combina variação de guitarra (único momento virtuosístico de Fripp) e violino com teclados suntuosos. Dessas para sentar e ouvir com atenção, em quarto escuro, com fones, de olhos fechados. “Sure of the Dark” se despede acalmando os ânimos do ouvinte e entregando o brilho das estrelas e das Soundscapes a imensidão de silêncio novamente.

Embora a utilização de uma mesma escala possa parecer repetitivo, Cross e Lowe souberam ir variando a abordagem de cada faixa para criar um álbum de fato, e não somente uma coleção de novas variações.

Mais do que um disco para fãs de King Crimson, de Fripp ou de Cross, é um disco para amantes de música ambiente e trilhas. Aos interessados nas intersecções entre música popular e erudita, Starless Starlight é com certeza um bom exemplo. Alia o bom gosto ao rigor técnico e à (re)invenção, resultando em um trabalho bastante artístico. Pode ser uma jornada espacial, uma jornada para acompanhar a ingestão de drogas psicodélicas, ou então uma sessão de meditação ou mesmo a música para embalar seus sonhos.

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4 comentários em “David Cross & Robert Fripp – Starless Starlight (2015)

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