2015 Funk MPB Nacional Resenhas Soul

Seu Jorge – Músicas Para Churrasco Vol. II (2015)

capa

Funk e soul, estereótipos sociais e a continuação da good vibe

Por Lucas Scaliza

Seu Jorge é um negro que foi da pobreza ao sucesso graças ao seu talento. Talento que deu a ele condições de melhorar a vida de muita gente ao seu redor, principalmente a da sua família, que mora com ele nos Estados Unidos agora – embora seu público, seu povo, e suas preocupações ainda estão no Brasil.

Embora fale de política em entrevistas por aí (falando de regulamento do Banco Central, crise econômica e escândalos políticos), e tenha recentemente dito que não faz show em favela porque favela não é um bom lugar para ninguém, sua música não reflete essas preocupações. Como uma continuação natural de Músicas Para Churrasco Vol. I (2011), esta segunda rodada de carne, pão de alho, vinagrete, futebol, cerveja e caipirinha na casa dos amigos é repleta de música popular boa, com levadas dançantes, baixos funkeados tão espertos quanto no primeiro volume, e temas divertidos.

seujorge

Seu Jorge continua apostando nos tipos sociais, personagens que você já encontra no dia a dia ou, como ele mesmo diz, nas novelas. No primeiro churrasco era a vizinha, o parceiro, a amiga da esposa, a doida, a véia e a japonesa (e dá-lhe duplo sentido com “comer” sushi, sashimi e yakissoba). E a preciosidade soul de “Quem não quer sou eu”. Para o Músicas Para Churrasco Vol. II ele convida o motoboy, a menina feia, a bipolar, a viciada em celular, a que faz depilação.

Musicalmente, é uma continuação que não vê a passagem dos quatro anos que separam as duas festas e, por isso, chega a dar sinais de cansaço lá pela metade. Mas se é ginga que você quer, é ginga, é balanço, é ritmo de dança que Seu Jorge entrega. O samba rock do ótimo América Brasil (2007) dá espaço mais uma vez para o soul e o funk (não o carioca) e um tantinho de pagode.

“Ela é bipolar” é Seu Jorge sendo o melhor churrasco possível: boa levada de baixo e uma guitarra funk soltinha, feito vestidinho curto de tecido leve em dia de praia. E apesar de toda a good vibe, ele encaixa um recado importante na letra quando canta: “Bipolar é um transtorno mental maníaco-depressivo que causa muita infelicidade aos portadores dessa enfermidade/ Apesar dessa doença, o tratamento é muito simples/ Mas é legal ficar ligado, porque os sintomas são diversos”. Não é comum transtornos mentais serem abordados na MPB – já o Dream Theater, por exemplo, abordou o tema em álbuns inteiros como Six Degrees of Inner Turbulence (2002) e Octavarium (2005), e também o Alice in Chains em The Devil Put Dinossaurs Here (2011), entre tantos outros exemplos no rock –, e Seu Jorge o faz sem perder a pegada popular. Poderia virar tema de uma campanha do Ministério da Saúde facilmente.

“Na verdade não tá” é outra sacada boa do compositor, sobre a mulher viciada em selfie que não larga o celular e não aproveita o que está acontecendo ao seu redor. Uma música que vai fazer sucesso porque todo mundo tem uma amiga ou amigo que não desconecta do aparelho para se conectar aos outros pessoalmente. “Motoboy” é a primeira música de trabalho do disco, e apesar do ritmo gostoso e do refrão pegajoso, não tem as sacadas das duas primeiras. “Mina Feia” é um pagodinho com baixo e guitarra funk sobre “a beleza está nos olhos de quem vê” e “bonito é dar valor a quem merece”.

“Tá em tempo” e “Babydoll” são os momentos mais lentos, lânguidos e sensuais de Músicas Para Churrasco Vol. II. Os arranjos são bem feitos e parecem querer envolver a garota da canção em uma camisola de renda, bem transparente, em um quarto com iluminação baixa e amarelada. Em “Tá em tempo” é toda climática e a banda de Seu Jorge assume o protagonismo. Seria sensual mesmo que não houvesse letra. Já “Babydoll”, com seu eu-lírico voyeur (embora ele não se considere isso), é um homem embriagado pela visão de uma mulher na janela vizinha. Apesar de bonitinha, não é das músicas mais expressivas que Jorge já fez e trompete e piano poderiam ter tido mais espaço.

“Faixa de Contorno” é uma musiquinha cheia de groove sobre depilação, divertida mas esquecível. “Felicidade”, o samba rock do álbum, é pra cima, começa e termina bem, mas seu recheio é bem reto, sem surpresas e sem as nuances instrumentais tão bem feitas para a introdução. “Papo reto” é outro momento mais ou menos do churrascão. Mistura de cuíca com grooves e um refrão criativo, mas falta um momento de maior força. “Everybody let’s go” é para as pistas e encerra a festa na melhor good vibe possível, com coros e vocalizações dignas do gospel norte-americano.

É, sobretudo, um churrasco para dançar e embalar todo mundo em clima de confraternização, como “Felicidade” e “Everybody let’s go” ressaltam. Não há momentos viscerais – e o funk, o soul e a R&B são tão bons quanto o rock para proporcioná-los – e nem versos com críticas sociais, como já houve em “Trabalhador Brasileiro”. É a certeza de que a azaração vai rolar e a comida vai ser bem digerida.

Seu Jorge reuniu a imprensa em um bar em São Paulo para falar de seu novo disco e já anunciou que o churrasco vai ter uma terceira parte. Provavelmente, continuará seguindo a linha dos dois primeiros, mas que ele saiba variar um pouco, pois o funk e R&B propostos até aqui já dão sinais de esgotamento. Também é provável que continue falando de tipos e estereótipos. Seu Jorge pode falar do que quiser, ele sabe construir bem seus personagens, de uma forma que qualquer brasileiro compreende e com ritmo gostoso. Já imagino que depois da amiga da mulher, da mina feia, da vizinha, da japonesa, a burguesinha e da garota de babydoll, ele possa retratar a periguete, um tipo novo já em voga no vocabulário e nas novelas (se o termo sobreviver até o próximo álbum). E depois do trabalhador brasileiro e do motoboy, talvez homenageie o marido de aluguel, quem sabe. Mas se é de estereótipos que estamos falando, e se Jorge fala de crise econômica e política, bem poderia fazer um pagode ou samba rock sobre o político corrupto, o empreiteiro e o cartola do futebol, figuras que o brasileiro conhece bem seja no Itaim paulista ou no morro carioca do Canta Galo.

seujorge (1)

Anúncios

4 comentários em “Seu Jorge – Músicas Para Churrasco Vol. II (2015)

  1. Pingback: Ibrahim Maalouf – Red & Black Light (2015) | Escuta Essa!

  2. Pingback: Jota Quest – Pancadélico (2015) | Escuta Essa!

  3. Pingback: Marcelo Yuka – Canções Para Depois do Ódio (2017) | Escuta Essa!

  4. Pingback: Jesuton – Home (2017) | Escuta Essa!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: