2015 Indie Nacional Resenhas Rock

Scalene – ÉTER (2015)

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Sabe compor, ser criativa e, principalmente, soa contemporânea, grande e poderosa

Por Lucas Scaliza

À primeira audição, O Scalene ganhou minha intenção por ser uma banda que não esconde a que veio. Mesmo as músicas que não são pesadas trazem o poder do som grave das guitarras afinadas mais baixo que o padrão. Além disso, não deixam de propor uma abordagem mais moderna que não esconde as influências reais do grupo, como Radiohead em experimentações e riffs à Queens Of The Stone Age. Que recompensa poderíamos ter melhor do que vê-los em rede nacional e a cantora Sandy tentando entender a métrica deles contando os compassos? Ou Paulo Ricardo olhando para aquilo com um sorriso no rosto e admirando alguém que tem colhões de mostrar uma música boa, com melodia, com peso e com alternância de compasso na tevê, e ainda recebendo o apoio de milhares de pessoas que gostaram daquilo sem se importar com esses detalhes técnicos (que na verdade influem muito na hora de mostrar que Scalene é uma ótima banda e tem personalidade).

2015. Crédito: Luringa/Divulgação. Banda brasiliense Scalene, que se apresenta no MUV Festival.
Foto: Luringa

A banda tornou-se mais conhecida ao chamar a atenção no Superstar da Rede Globo. Antes, porém, se apresentaram no Lollapalooza 2015 e no South by Southwest. Não há como saber se vão vencer a “competição” televisiva de bandas, mas isso não importa nem um pouco. Aliás, talvez o grupo corra mais riscos dentro de um esquema controlador como a da Globo do que encarando as agruras de seguir como banda independente. Enfim, são questões para mais tarde e que competem ao quarteto formado por Gustavo e Tomas Bertoni, Lucas Furtado e Phillipe Makako.

Por hora, eles têm um novo álbum muito competente no mercado. ÉTER não é um trabalho recheado de baladas ou que teme pisar no pedal de distorção para não afugentar o “público global”. Pelo contrário: as qualidades melódicas do grupo estão preservadas, assim como o peso de suas batidas e a agressividade de seu som. Foi uma escolha inteligente: melhor afugentar a volátil audiência televisiva de massa (que iria flutuar em direção à próxima moda logo, logo) e usar a visibilidade para alcançar um novo público que realmente gosta de rock e que entende ou se identifica com as referências da banda.

 

Se eles tinham a experimentação de “Danse Macabre” para fazer muito veterano (alô, Paulo Ricardo!) passar vergonha por ter medo de ousar, com ÉTER eles têm “O Peso da Pena”, em que o lado Josh Homme do grupo se evidencia. É quase metal… quase. Há ótimos interlúdios de teclado e baixo, sem falar nas vocalizações. Há um momento em que um acorde de guitarra soa sobre os demais instrumentos, o que lembra um ataque de guitarra distorcidíssimo também presente na perturbada “Index”, de Steven Wilson. E o que falar da valsinha “Loucure-se”? Uma das melhores faixas do disco, intensa e linhas de guitarra que misturam peso e escolhas harmônicas na linha de um Omar Rodriguez-Lopez (ex-The Mars Volta e agora no Bosnian Rainbows e Antemasque).

Em menos de 3 minutos, “Histeria” é um show a parte, mostrando que a banda vai dos riffs musculosos aos ruídos, não deixando a música ter a mesma arquitetura de sempre. E o Scalene mostra a boa mão para composição ao fazer de “Náufrago” (com seus Ooohs) uma ótima faixa para se cantar junto e ainda colocar uma alternância de compasso bem no meio do refrão. E “Alter Ego” bem que poderia ser a música pop do álbum, mas o tom grave e guitarreiro faz com que ela não saia da proposta. E não há como não ver um pouco do Radiohead anos 90 de “Just” em “Fogo”, outra das melhores faixas de ÉTER.

O quarteto também usa bastante alternância de dinâmica. Faixas que a princípio parecem que serão mais calmas acabando ganhando refrãos poderosos (caso de “Gravidade”, “Tiro Cego” e “Legado”) ou se voltam para o lado mais pesado do grupo, como a ótima “Terra”, que começa como balada e termina bastante intensa, e “Sublimação”, umas das canções mais equilibradas do trabalho. É uma alternância muito presente nos últimos álbuns do Rosa de Saron também.

ÉTER é o segundo disco da banda de Brasília, que continua soando fresca, já que não segue o rock de sua terra natal e nem as incursões indie de São Paulo e Rio de Janeiro. É mais focado e melhor gravado do que o primeiro, Real/Surreal, as letras também caem bem às composições, mas ainda não são o forte do grupo. O forte do grupo é ser uma banda com personalidade.

Não há nenhum problema no fato de Scalene ter mais a ver com o rock lá de fora do que com o rock “geográfico” brasileiro. Bom lembrar que o Skank também deixou seu “rock mineiro” para ir buscar inspiração e expressão no rock inglês há uns bons 10 anos. Scalene é a banda que faltava ao rock nacional, que não tem medo de impressionar, sabe compor, ser criativa e, principalmente, soa contemporânea, grande e poderosa. Não por acaso, após ouvir ÉTER fica a impressão de que é preciso conferir o repertório ao vivo para ter certeza de que essa força toda vai chegar até você.

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3 comentários em “Scalene – ÉTER (2015)

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