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As Virgens Suicidas (2000) – a trilha sonora de Air completa 15 anos

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O mistério das irmãs Lisbon envolto em uma trilha terna, melancólica e pinkfloydiana

Por Lucas Scaliza

A cineasta Sofia Coppola encantou cinéfilos em 2003 com Encontros e Desencontros (Lost In Translation), mas antes havia debutado na sétima arte com um filme que já dava sinais de seus traços de direção que se manteriam nos filmes seguintes. As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides, 2000) foi uma adaptação do livro homônimo de Jeffrey Eugenides conduzida com muita fidelidade, sensibilidade e tato por Coppola. Ficou claro logo em seu primeiro filme que ela tinha talento e que não seguiria o mesmo estilo de Francis Ford Coppola, seu pai.

As Virgens Suicidas também tinha uma trilha sonora muito peculiar e que Sofia Coppola mostrou saber escolher muito bem neste filme e em todos os outros que fez até agora. Para este, contratou a dupla francesa Air (formada por Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel), que acabou lançando a trilha sonora como parte de sua discografia. Apesar das experimentações eletrônicas pelas quais o duo é conhecido, esse disco/trilha tem uma banda como base e muitos sintetizadores e teclados fazendo uma ponte entre o último respiro do século 20 e os anos 70, época em que se passa a história do livro/filme. Não é por acaso que a vibe da trilha tinha muitos aspectos pinkfloydianos. E não é a toa também que a trilha setentista de Corrente do Mal (It Follows, 2015) lembra tanto a trilha de As Virgens Suicidas.

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A trama tenta acompanhar um pequeno espaço de tempo na vida de cinco garotas, as irmãs Lisbon. Cecília, 13 anos; Lux (interpretada com lasciva paixão por uma jovem Kirsten Dunst), 14; Bonnie, 15; Mary, 16; e Theresa, 17. E “ninguém podia entender como o Sr. e a Sra. Lisbon tinham produzido criaturas tão lindas”. De fato, essas meninas mexiam com a cabeça dos meninos da rua, do bairro, da escola. Mas elas estavam envoltas em mistério, em parte decorrência da criação conservadora, católica e puritana de seus pais. Em parte, pelo desejo (muito próprio do sexo feminino, aliás) que suscitavam.

Tanto o livro quanto o filme narram a história do ponto de vista dos garotos do bairro, que tentam se aproximar e entendê-las de alguma forma. Por causa desse ponto de vista, nunca conseguimos de fato entrar na casa ou na cabeça das irmãs Lisbons. Como os meninos, temos apenas vislumbres e a tragédia que cada uma trama para si.

A trilha acaba de ser relançada pela Warner e pela Parlophone com remasterização, em vinil, CD duplo e uma versão super deluxe com vinil vermelho, um disco extra com as músicas do filme gravadas ao vivo em Los Angeles e três sessões no KCRW, pôster do filme e muito mais.

Faz sentido que a trilha tenha virado álbum da discografia do Air, já que as faixas são muito bem feitas e funcionam perfeitamente bem fora da tela. Com exceção das icônicas “Playground Love” e “Suicide Underground” – duas das melhores faixas do disco e que não chegam a aparecer no filme, mas estão ligadas a ele em todos os aspectos) – a trilha é todinha instrumental. Temos os sintetizadores sombrios de “Dark Messages”, a melancolia dos teclados e do violão de “Afternoon Sister”, e a combinação dessas duas vertentes (uma mais eletrônica, outra mais melódica e orgânica) em “Clouds Up” e “Cemetery Party”.

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Em grande parte, eles usam acordes bem abertos de violão e teclados viajantes para conseguir um som mais setentista, como o do Pink Floyd. Como nada é apressado, as músicas possuem melodias que se desenvolvem com elegância. Há muita ternura (como em “Bathroom Girl” e na música tema “Highschool Lover”), suspense (“Day Trip” e “Empty House”), e um pouco de estranhamento, como na progressiva “The Word ‘Hurricane’” e na soturna “Ghost Song”.

Todas elas carregam um pouco da afetividade melancólica com que as irmãs Lisbon são vistas no filme. Mesmo quando a música é bonita, é um pouco triste. E quando é mais agitada, traz o sentimento de inadequação. Afinal, o grande trunfo do filme – que já estava no livro – é entregar-se ao mistério de Cecília, Lux, Bonnie, Mary e Theresa, sem cair em saídas fáceis ou nos irritantes didatismos cinematográficos que querem explicar tudo e coíbem a capacidade de sentir do espectador. Não por acaso, uma das frases mais singulares da produção ocorre quando Cecília, após fracassar em sua primeira tentativa de suicídio, está diante do médico, que lhe diz que há muito para saber da vida ainda. Cecília responde: “Obviamente, doutor, você nunca foi uma menina de 13 anos.”

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“Playground Love” é simples, mas parece ter sido meticulosamente planejada em sua simplicidade. Música em Dó menor, tem uma harmonia bem viajante e que te mantém atento, já que usa muito bem acordes que servem de preparação para os seguintes. E a letra, terna, tenta dar conta de um amor intensamente jovem. Há versos como: “Sou um amante colegial/ E você é o meu sabor preferido”; e “Minhas mãos já estão tremendo/ E sinto meu corpo titubear/ O tempo não importa/ Estou pegando fogo/ No playground, amor”. Transmite tanto a beleza e a maciez da pela das irmãs Lisbon – como Sofia Coppola quis retratá-las na tela – quanto a sedução sutil de Lux. O vocal da faixa foi creditado a Gordon Tracks, que na verdade é Thomas Mars, o vocalista da banda indie francesa Phoenix.

“Suicide Underground” é uma das faixas mais interessantes do disco. Solo de guitarra que usa muito o sustain do instrumento para manter as notas soando, grandes teclados que chegam a parecer um coral e uma linha de baixo que deixa suas pegadas a cada compasso. Sua longa letra consiste em narrações tiradas diretamente do filme, mas com a voz distorcida, mais grave. Em cinco minutos, essa voz praticamente resume o filme todo, ou pelo menos apenas as informações e constatações que os meninos do bairro tiveram acesso. A princípio, a voz distorcida pode parecer um pouco estranha demais, mas com o tempo, e com a devida atenção à letra, vem a certeza de que a frequência mais grave combina melhor com o vazio profundo que o caso das meninas Lisbon deixou em todos que tentaram prestar atenção nelas. Um quebra-cabeça que perdeu para sempre as peças que faltavam.

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5 comentários em “As Virgens Suicidas (2000) – a trilha sonora de Air completa 15 anos

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