2015 Indie Resenhas Rock

MewithoutYou – Pale Horses

mewithoutyou-cover

Quando o hardcore e o indie convergem

Por Lucas Scaliza

Apesar de ser uma banda extremamente desconhecida no Brasil e na América Latina em geral, mesmo nos Estados Unidos o MewithoutYou é apenas uma boa banda de culto por alguns fãs mais fuçados. O som alternativo desse quinteto da Filadélfia é difícil de rotular. Digamos que é um rock que mistura algo do indie, do hardcore, do progressivo e até uma pegada garajeira às vezes.

Eu mesmo fui conhecê-la somente recentemente, depois que o BrunoChair, o outro editor deste blog, comentou que a banda tinha um som muito diferente. E apesar de ter sido ele quem ouviu primeiro Pale Horses, o novo disco do grupo, gentilmente me cedeu a oportunidade de escrever sobre eles. Antes, contudo, conferi os cinco discos já lançados desde 2002.

MewithoutYou_-_2015_(620-400)

Digamos que a banda não é exatamente a mesma de antes, o que é bom, pois isso mostra que souberam se influenciar de outras vertentes e variar a própria discografia. A princípio, nota-se que melodias de voz não eram uma preocupação do MewithoutYou. O multi-instrumentista Aaron Weiss, também principal cantor da banda, mais narrava do que cantava as letras, uma pegada parecida com a do Wovenhand ou Nick Cave. Por baixo da voz, o som era sempre bem feito, cheios de camadas, só que bastante orgânico e não superproduzido. Bons exemplos dessa primeira fase da banda estão no segundo álbum, Catch For Us The Foxes (2004), e no terceiro, Brother, Sister (2006).

Aos poucos, as vertentes mais indie e hardcore foram se evidenciando, e é sobretudo nesses dois lados para os quais convergem as faixas de Ten Stories (2012) e Pale Horses. O que percebemos logo no novo disco é que o instrumental está ainda melhor trabalhado, com arranjos muito bonitos. O vocal busca uma melodia, nem que seja intuitiva, na maior parte dos versos. Já a espontaneidade do MewithoutYou vem tanto na forma de um rock fluido, como em “Blue Hen”, “Birnam Wood” e “Watermelon Ascot” (que lembra um pouco o jeito do The Smashing Pumpkins), quanto em arroubos sonoros de vocais fortes e rascantes. A ótima “Red Cow”, por exemplo, tem versos bem tranquilos, mas refrãos que são erupções de hardcore, tomando o ouvinte de assalto. Enquanto a guitarra de Aaron Weiss faz a base pesada, a de Michael Weiss corta a parede sonora com melodia.

Embora o MewithoutYou continue fazendo músicas curtas, entre dois e quatro minutos, a criatividade nos arranjos é uma constante, sem medo de ir mudando ritmos, dedilhados e harmonias ao longo de suas histórias-canções. “D-Minor” vai se metamorfoseando até o final e faixas como “Mexican War Streets” e “Lilac Queen” vão propondo diferentes partes. Enquanto uma guitarra sola por cima da voz-narrativa, outra aplica fraseados com delay e reverb. E o baixo está sempre participando das camadas melódicas de cada composição. Já “Pale Horse” e “Dorothy” apostam na criação de atmosferas, se entregando à profundidade do som, não ao peso. “Magic Lantern Days” é uma balada e uma das melhores do disco. Não propõe tantas mudanças rítmicas quanto outras faixas do disco, mas cria arranjos que funcionam muito bem.

mewithoutyou-band2

O preciosismo dos arranjos em todas as músicas combinadas ao vocal mais limpo – que usa um sotaque um tantinho carregado – conferem uma sonoridade parecida com a do The Decemberists. “Rainbow Signs”, que encerra Pale Horses, propõe melodia em sua primeira metade e um final cheio de guitarras pesadas e vocal narrado com paixão e urgência. No geral, o MewithoutYou soa até mesmo como o Coheed And Cambria, mas trocando o metal pelo rock alternativo e toques do post-rock.

As letras do grupo continuam ecoando referências judaicas, cristãs e temas não convencionais. Não é uma banda que tenha uma balada de amor para tocar no rádio, apesar de ter muitas faixas radiofônicas na discografia. A personalidade do som é algo que realmente ou cativa ou parece tão estranho que você precisará de algum tempo para processar sem nenhum estranhamento.

Pale Horses é um equilíbrio entre beleza e força, produção e espontaneidade, conseguindo ser bastante emocional e talvez o álbum com mais jeito western da discografia até aqui. Ten Stories é tido por muitos fãs do grupo como seu melhor trabalho. Diria que Pale Horses vai pelo mesmo caminho, mas não é, de forma alguma, a repetição do mesmo resultado que o disco anterior. E não quero dizer que não seja tão bom, pelo contrário. Isso só mostra que a criatividade continua a ser uma marca da banda. Um grupo não muito conhecido, mas com um trabalho mais interessante do que muitos astros de rock por aí.

mewithoutyou-band

1 comentário em “MewithoutYou – Pale Horses

  1. Pingback: Deafheaven – New Bermuda (2015) | Escuta Essa!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: