2015 Eletronica Pop Resenhas

Little Boots – Working Girl (2015)

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Victoria Hesketh toma o controle de seu “negócio” e fala da força de trabalho da mulher

Por Lucas Scaliza

A inglesa Victoria Christina Hesketh tem pés pequenos. Júlio César, o imperador Romano, também tinha, o que lhe rendeu o apelido de Calígula. Tirando o tamanho dos sapatos, é só o que Victoria e Júlio César têm em comum. Ele deixou suas pegadas na história bem marcadas e até hoje é objeto de estudo e interesse. Já Hesketh começou a passear pelo mundo pop a sério em 2009, quando lançou o primeiro disco solo, Hands, que ficou muito bem colocado nos rankings pop da Europa e Estados Unidos, puxando pela forte e excelente “New in Town” e pela catchy song “Remedy”. Mas Hands tinha outras preciosidades além dessas, como as ótimas “Symmetry” e “No Brakes”, além da especial “Ghost”, que acentua a música a cada dois compassos, fazendo-a diferir do padrão 4/4 do grosso da disco music produzida no planeta.

Victoria Hesketh, ou Little Boots (que é o seu nome de trabalho solo), é uma das novas apostas do synthpop e do eurodance. Mas antes de se entregar ao pop mainstream ela fez parte de um trio só de garotas chamado Dead Disco que faziam música indie com guitarra, baixo e sintetizador (este comandado pela própria cantora). E antes disso ela passou um bom tempo fazendo covers de Norah Jones e smooth jazz pelo norte da Inglaterra para pagar seu curso de Estudos Culturais na Universidade de Leeds. E ainda antes disso, a jovem cantora, então com 16 anos, participou do Pop Idol de seu país e chegou até a terceira rodada. Anteriormente a tudo isso, ela teve aulas de flauta, de harpa e de canto clássico. Aos cinco anos começou a tocar piano, aos 13 já escrevia suas próprias canções.

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Ou seja: Little Boots é uma musicista estudada e experimentada no palco e na teoria. Mesmo que sua música atual siga vários dos padrões pop estabelecidos pelo mercado e produtores, ela tem potencial para se destacar. Seu segundo disco, Nocturnes, por exemplo, foi parcialmente inspirado pelos versos de Edgar Allan Poe, remetendo tanto ao house dos anos 90 quanto ao que produtores poderiam inserir de mais futurista em sua música. (Obs. Não tente ouvir o álbum procurando grandes intertextualidades entre as letras dela e os poemas de Poe. Ela não foi tão longe assim).

Working Girl, seu novo disco, volta a pegada de Hands: várias músicas para balada derivadas do synthpop e da eurodance, mas Hesketh se mostra uma cantora melhor. Não é nada futurista como o Taiga da Zola Jesus ou ficção-cientificamente ambicioso como o Sparks da Imogen Heap. É uma praia bem mais pé no chão e mais voltada para a diversão. Segue uma linha mais próxima da Madonna e chega mesmo a se parecer com ela em diversos momentos (principalmente em “The Game” e “No Pressure”), mas Little Boots felizmente não se rende a seis ou sete tendências diferentes, comandadas mais por produtores do que pela “dona da casa”, e Working Girl acaba sendo um álbum bem executado do começo ao fim e coerente esteticamente, e não atirando para várias direções como faz o Rebel Heart da rainha do pop. Ela também é mais consciente da música que faz e soa tão madura quanto em Nocturnes, se distanciando da pretensa rebeldia de Charli XCX ou da aparente ingenuidade de Carly Rae Jepsen.

 

Importante ressaltar que Working Girl é uma espécie de virada na carreira de Hesketh, mas não criativamente. O álbum sai pelo seu próprio selo, On Repeat Records, de forma totalmente independente de qualquer grande gravadora, colocando a cantora no controle administrativo de sua música e, assim, com liberdade total de criação e sem precisar ser a resposta britânica à Lady Gaga ou qualquer outro nome que surja do outro lado do Atlântico Norte.

O álbum dedica-se a explorar o que é ser uma mulher no trabalho. Com tantos temas feministas pululando por aí nos últimos anos, Little Boots escolheu um recorte bastante original. Mais interessante ainda se lembrarmos que o mundo da música eletrônica é dominado por homens: temos muitas mulheres colocando seus nomes na capa de discos e na frente do nome das músicas, mas a produção ainda é 80% (essa estimativa é um chute, ok?) feita por homens.

Veja o caso de Björk e seu Vulnicura. As músicas são todas da islandesa, mas as batidas e as produções eletrônicas ficaram a cargo do DJ venezuelano Arca, além de o álbum ter sido mixado pelo The Haxan Cloak. E Madonna, apesar da presença de Natalia Kills, fez do seu Rebel Heart palco para Avicii, Diplo, Kanye West, Josh Cumbee, Ryan Tedder e Rechtshaid. O Prism (2013) de Katy Perry tem apenas duas faixas co-produzidas pela própria cantora, o restante é trabalho masculino, incluindo 7 faixas da trinca Dr. Luke, Max Martin e Cirkut. E se não fosse pela presença da própria Swift e de Imogen Heap no time de compositores/produtores, o 1989 (2014) da loirinha seria totalmente produzido por homens. Figuram nos créditos do disco Max Martin, Ryan Tedder e Shellback, entre vários outros homens. A lista pode se estender quase ao infinito. E o próprio Working Girl é o resultado do trabalho de Victoria Hesketh ao lado de outros produtores, como Com Truise e Ariel Rechtshaid. É mais uma mulher comandando seu próprio negócio, um ramo em que a maior parte da mão-de-obra disponível ainda é de homens.

Por todos esses motivos é que vale a pena dar o play em músicas como “Help Too”, “Heroine”, “Get Things Done” e “Desire”, seguir o álbum percebendo como ele é tão atual (como em “Paradise”), e ainda traz alguns elementos dos anos 80 (“Business Pleasure”) e anos 90 (“Better in the Morning”), sem falar nas diversas excelentes linhas de baixo que enfeitam boa parte das faixas.

Atualmente é mandatório que toda artista seja também uma feminista ou pelo menos defenda alguma vertente feminista. Muitas delas escolhem demonstrar isso com rebolados em nome de uma “atitude” libertadora. Little Boots/Victora Hesketh não é dessa vertente, preferindo vestir um terninho de business woman a um maiô. É coerente com a sobriedade de sua música e com o atual momento de sua carreira.

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