2015 Funk Jazz Resenhas Soul

Mocky – Key Change (2015)

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Canções para dias e noites, cinzas e cores

por brunochair

Mocky, antes de ser do mundo, chamava-se Dominic Salole. Era um canadense de uma cidade pequena. Os rumos da vida o levaram para Toronto, depois disso para Amsterdã e (por fim) Berlim. Na capital Alemã, Mocky reuniu-se com outros artistas canadenses que, expatriados, comungaram da mesma cena e aspiração musicais: o pianista Chilly Gonzales, a cantora Feist (mais conhecida desta turma) e a banda Peaches. Mocky tornou-se produtor de boa parte dos discos destes artistas, e quando era possível procurava gravar os seus trabalhos autorais.

O cantor, produtor e multi-instrumentista sempre esteve ligado à música eletrônica. Tanto ele quanto seus parceiros da cena canadense. Porém, em seu disco novo (Key Change) notamos uma guinada bastante significativa na carreira de Mocky: os elementos eletrônicos cedem espaço a uma miríade de boas composições e arranjos com o teclado, baixo, bateria e instrumentos de percussão. Há um ou outro efeito de estúdio para dar mais veemência ao trabalho instrumental, mas o protagonista, de fato, fica por conta da criação analógica do artista.

Tal transformação se deu também em razão de Mocky ter se mudado para Los Angeles. Aspirando novos ares musicais e de vida, Key Change apresenta um compositor bastante introspectivo e atento em cada fragmento de sua obra. O disco oferece um repertório de atmosferas das décadas de sessenta e setenta. Algumas músicas poderiam servir de trilha sonora para filmes, sejam eles filmes em preto e branco ou em cenários bastante coloridos. De invernos a verões, o disco apresenta contrapontos, sin perder la ternura jamás.

2015 Mocky

Vamos à análise das músicas:

“Upbeat Thing” começa com algumas notas de piano que escondem por algumas dezenas de segundo o que virá. Surge a flauta, alguns elementos de percussão, e aos poucos a música vai tomando forma para o ouvinte. Fica aquele clima de (?) então, o que é esse disco? A música é curtinha, é interessante, mas não revela muito… assim como a introdução dela mesma.

“When Paulie Gets Mad” consegue remeter o frescor da soul music de George Benson, e ao mesmo tempo poderia bem ser trilha sonora de um filme da Nouvelle Vague. A atmosfera produzida pode nos fazer imaginar um ambiente de uma janela aberta para amantes admirarem o céu, como também o encontro de duas pessoas que não se viam há tempos, e tentam lembrar quem são. De certa forma, a música lembra também o excelente trabalho realizado pelo Belle And Sebastian no disco “Storytelling” (1997).

“Soulful Beat” já tem um clima totalmente distinto da música anterior. É tropical, clima de verão, muito sol e piña colada. Lembra as músicas solares do Billy Paul, Stevie Wonder, e até a musicalidade que Bilal conseguiu provocar na música “Open Up The Door”, em disco lançado também este ano e resenhado por este blog.

“Weather Any Storm” volta a ter um clima mais introspectivo. A primeira música cantada do disco, é um gostoso e harmônico dueto de Mocky (sim, ele canta também!) com a cantora de r&b Kelela. A música descreve toda a força de um relacionamento.

“Whistlin” segue a mesma tendência de boa parte do disco. Os arranjos são repletos de ternura, intenção de soar retrô. Ao mesmo tempo, há todo um mistério por trás das músicas, porque elas não seguem uma linhagem usual de composição da pop music. Neste ponto do disco, o ouvinte dá as mãos para Mocky e segue com ele, pois sabe que irá para um lugar bacana, onde quer que seja.

“Living In the Snow” tem uma paisagem vibrante e alegre como “Soulful Beat”. Bastante representativo, o baixo lembra boas bases de músicas do Jacksons Five, e oferece base a todos os instrumentos que acompanham: teclado, xilofone, pandeiro. A bateria fica por conta da Feist, sua conterrânea e parceira musical.

“Late Night Interlude” volta a possuir um clima mais noturno, cool jazz, retrô das músicas mais delicadas do disco. Ela cresce um pouco durante a execução, mas não a ponto de mudar totalmente o ritmo. Aliás, nem dá tempo disso, pois é um interlúdio (ora essa!).

“Time Inflation” é alegre. Outro belo trabalho de baixo de Mocky. Não tem vocal, apenas um coral como refrão para dar uma animada ainda maior à música. “Tomorrow Maker” é uma música que passa também uma atmosfera mais noturna, mas é soul/jazz muito mais “malandro” que as demais do disco.

“Soulful Beat Reprise” é uma vinheta da música de mesmo nome. “Head In The Clouds” tem um violãozinho no começo (coisa rara no disco) e tem uma pitada de country rock setentista, mas tudo feito de forma soft, como todo o disco é. “Hymne (For Murka)” começa num duo violão/flauta e fecha o disco de forma bem amena.

Por fim, trata-se de um disco interessante. É recomendado para quem gosta de uma música experimental e sem rótulos, ainda que possua uma familiaridade com o cool jazz e o soul. No entanto, não é possível (tão somente) encaixá-lo nestes estilos, ainda mais analisando o repertório musical de Mocky, bastante heterogêneo. Um disco para ser ouvido no Sol mais estorricado e na noite mais estrelada.

1 comentário em “Mocky – Key Change (2015)

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