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Thundercat – The Beyond / Where The Giants Roam (2015)

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Stephen Bruner, o Thundercat: marque este nome!

Por Lucas Scaliza

A música negra nos Estados Unidos têm uma ampla variedade de estilos e uma longa tradição histórica, assim como no Brasil. Embora muitos brancos tenham se destacado também no soul, funk, rap, hip hop, blues, jazz, reggae, R&B e gospel, são estilos que eles dominam e fizeram, ao longo das décadas, serem aceitas socialmente e culturalmente nos EUA e no mundo, sem as infames rádios e programas de tevê que separavam o que era música de branca e de negro. O resultado é que temos artistas negros que são reis do pop mainstream, como Beyoncé, Rihanna, Jay Z, entre tantos outros.

Mas existem artistas que estão fundindo os estilos, fazendo uma música sofisticada que tem tanto uma cara retrô quanto ares de música contemporânea nem sempre fácil de penetrar. Estão nessa categoria o produtor Flying Lotus (rap + jazz + eletrônico), Kendrick Lamar (hip hop + R&B + pop), Kamasi Washington (maior revelação do jazz do ano, sem dúvida), Erykah Badu e D’Angelo (soul + funk + R&B). Um nome que vem se destacando nesse ambiente é o do compositor e baixista Stephen Bruner, conhecido na carreira solo como Thundercat. E sabe o que é mais interessante? Bruner (ou Thundercat) participou dos últimos e melhores discos de quase todos os artistas citados acima (a exceção é o D’Angelo), sendo considerado, inclusive, uma peça central no elogiado To Pimp a Butterfly de Kendrick Lamar.

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Para entender Thundercat é preciso falar primeiro de Apocalypse (2013), um disco com 12 músicas e a maioria tem apenas 3 minutos, mas, ao que parece, preparou o terreno para todos os últimos lançamentos e ponta da música negra. Músicas como “Tenfold”, “Tron Song”, “Seven” e “The Life Aquatic” são misturas de black music com jazz e eletrônica, o que antecipou o excelente You’re Dead! do Flying Lotus, disco em que o produtor reuniu esses estilos com mão firme e pesada. Já a canção “Oh Sheit It’s X” tem um jeitão mais próxima do D’Angelo. A incrível “Lotus and the Jondy” abarca todo esse mix e o passa pelo filtro Radiohead da fase Amnesiac. E ainda sabe ser pop (“Heartbreaks + Setback”, “Without You” e “A Message for Austin”) sem perder o gosto pela experimentação. Mesmo que “Special Stage” tenha uma roupagem mais soft, ele a enfeita com um enorme solo jazzista quase sem tone que dura a música inteira.

Thundercat propõe uma abordagem que não deixa de causar prazer, mas carrega consigo o gosto pelo estranhamento, pelas escolhas incomuns, pelos timbres vintage (como faz o Unknown Mortal Orchestra, o Tame Impala, o Brandon Flowers, entre outros) e não entope as músicas com refrões pegajosos. Aliás, as letras e o vocal têm um papel bastante localizado em Apocalypse, deixando toda a ênfase no som que a banda consegue produzir. “Lotus and the Jondy” é o principal exemplo, com sua singular quebradeira em 6/4.

The Beyond / Where The Giants Roam não chega a ser um álbum completo, é um mini-álbum. Tem apenas seis faixas e 16 minutos de duração. É tanto uma continuação de Apocalypse como uma ponte para o próximo lançamento. Abre com o vocal quente e suave de Stephen Bruner em “Hard Times” e migra logo depois para mais uma música meio Amnesiac, “Song For The Dead”. Em “Them Changes” ele tenta ser mais acessível, na praia do D’Angelo, enquanto em “Lone Wolf and Cub” ele vai mais longe, sem medo de usar sintetizadores para criar sons esquisitos por cima de dedilhados complicadinhos e linhas de baixo onipresentes. E em “Where The Giants Roam/Field of the Nephilim” ele esbanja estilo: uma voz gentil mergulhada em um soul torto completado por sons psicodélicos de matriz jazzística.

Se ouviu recentemente Erykah Badu (os álbuns New Amerykah), D’Angelo e principalmente Kendrick Lamar e Flying Lotus, verá que Thundercat congrega todos os elementos desses artistas em Apocalypse e The Beyond / Where The Giants Roam. Contudo, não podemos falar exatamente de influência, pois Bruner está umbilicalmente ligado à criação artísticas de todos eles, principalmente com seu baixo virtuoso, que atualiza o fusion dos anos 70 de Herbie Hancock, Roy Ayers, Stanley Clarke e George Duke. E se ir do pop ao jazz de ponta (pois ele contribuiu com o The Epic, de Washington) não parece amplo o suficiente, resta informar que o músico foi baixista da banda de thrash metal Suicidal Tendencies.

Só não vou dizer que o novo trabalho de Thundercat é um dos destaques do ano por ser mais um EP do que um álbum. Mas é um nome para se acompanhar de perto. O que ele e os amigos estão fazendo não diz respeito apenas à black music. Estão desenvolvendo a música em si, com todos os hibridismos que a pós-modernidade lhes permitem.

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9 comentários em “Thundercat – The Beyond / Where The Giants Roam (2015)

  1. Grande artista, é produzido pelo meu produtor favorito FlyLo, só por aí, já curto. HAHA

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