2015 Resenhas Rock

Joe Satriani – Shockwave Supernova (2015)

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Satriani manda bem, mas sem risco, sem surpresa, sem desafio

Por Lucas Scaliza

Ele pode ser um exímio guitarrista, ele poder ser um dos fundadores do G3, ele pode ser um músico prolífico (já tem 15 álbuns de estúdio na discografia e sempre lança um novo trabalho a cada dois ou três anos) e nunca deixa a peteca do rock instrumental cair. No entanto, ele está acomodado. E mesmo assim continua fazendo boa música. Esse é o paradoxo em que nos encontramos ao acompanhar a carreira do norte-americano Joe Satriani.

Ao longo da carreira, Satriani se mostrou um guitarrista que elegeu a melodia como principal motor de sua música. Você logo se conecta com as faixas de qualquer um de seus trabalhos porque a guitarra conversa com você, ela age como uma voz mesmo, mas usando notas sem o recurso das palavras. Isso faz com que seu fraseado seja facilmente reconhecido. Ele também é ótimo com os ritmos, indo do hard rock ao flerte com o metal e não se furta o direito de ter várias baladas em cada disco. Seu bom gosto e sua técnica não se discutem.

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Mas podemos discutir, sim, sua criatividade. Não a criatividade que produz mais de 10 melodias e temas diferentes por álbum, que usa escalas gregas para criar sons tão gentis ou empolgantes aos nossos ouvidos. Falo aqui da criatividade que incide sobre a forma de sua música. Pois Satriani está há 30 anos apostando na música instrumental de guitarra que dá ênfase acentuada em temas (como se fossem refrãos, partes melódicas a que a música sempre volta e as tornam facilmente reconhecíveis para nós) e vai se diversificando a partir disso, mas quase nunca contesta a estrutura da música pop. Shockwave Supernova não tem uma faixa sequer ruim, mas não tem nenhuma que mostre qualquer tipo de ruptura. Assim como Unstoppable Momentum (2013) não tinha, e o anterior também não, nem o anterior e assim regressivamente.

Já se passaram 18 anos desde Surfing With The Alien (1987) que chamou a atenção para a música autoral de Satriani e inspirou tantos outros guitarristas. De lá para cá ele desenvolveu sua estética espacial, seu uso de certas escalas e flertou rapidamente com alguns estilos. Havia referências árabes em “The Golden Room”, do disco Swans And Wormholes Wizards (2010) e deu até um grande espaço para o solo de piano em “Wind in the Trees”, do mesmo disco. “Asik Veysel”, de Professor Satchafunkilus And The Musterion of Rock, também tinha influência árabe, mas ela parava na introdução da faixa. E houve também o flerte seguro em “Professor Satchafunkilus”, em que Satriani cai no funk, mas o faz com seus fraseados característicos.

Shockwave Supernova tem diversos momentos excelentes, como a faixa-título, talvez um dos rocks instrumentais mais intensos que ele apresentou nos últimos anos. E é assim que o álbum segue: faixas mais vigorosas (“Cataclysmic”, “Scarborough Stomp”, “If There Is No Heaven”) outras mais tranquilas e cheias de feeling (como as lindas “Stars Race Across The Sky” e “Goodbye Supernova”) e muitas good vibes (“San Francisco Blues”, “All My Life”, “In My Pocket”). Mas nada que vá surpreender, nenhum sobressalto estilístico ou momento em que você para e pensa: “Isso é novo!” ou mesmo “Isso é incomum!” na discografia do norte-americano.

Não é uma crise de criatividade que se abate sobre Joe, é uma acomodação em um formato de canção em que ele se dá bem e não tenta, de forma alguma, fugir disso. Shockwave Supernova foi gravado com Marco Minnemann na bateria e Bryan Beller no baixo, ambos parceiros no The Aristocrats, um trio instrumental de fusion. A música do Aristocrats, talvez por abrir espaço para três supermúsicos e não apenas para um guitar hero, também usa temas, mas não vira refém deles. Guthrie Govan, o guitarrista do trio, é um metamorfo estilístico e nunca soa como se uma faixa fosse muito parecida com a anterior (sentimento que às vezes nos pegam ao ouvir os discos de Satriani). O segredo deles é ir diversificando as formas.

O próprio Govan e Minnemann também tocam na banda de Steven Wilson, compositor inglês do rock progressivo, que também é outro mestre de contestar a estrutura da canção ao longo de seus álbuns, alternando entre canções mais acessíveis e outras mais densas e exigentes. E faz isso sem precisar deixar de lado o Ré maior, tom predominante de sua carreira solo e no Porcupine Tree.

Steve Vai, outro guitar hero alçado ao posto de celebridade, mostrou em The Story of Light (2012) que poderia fugir dos temas e se tornar mais abstrato e ainda assim permanecer interessante. Afinal, chega uma hora que só há um caminho na arte: para frente. Vai, mesmo que sempre autorreferente, tenta levar sua música adiante e ir propondo novas formas de manifestá-la dentro de sua própria obra. Há três experiências desse gênero em 2015 que atestam como é possível fazer música instrumental desgarrando-se das estruturas mais comuns: o Vibe Station do Scott Henderson, o Elysium do Al Di Meola (ambos ligados ao fusion) e o The Epic do Kamasi Washington (jazz). Todos os três são usinas de boas e novas ideias.

Concluindo, é bom deixar claro que Shockwave Supernova não é um disco ruim, apenas não propõe nada musicalmente novo (nem para a guitarra e nem para o próprio artista) e é apenas mais uma repetição do que já sabemos que Joe Satriani manda bem. Sem risco, sem surpresa, sem desafio. São 15 músicas bem equilibradas e bem acabadas em que o músico, felizmente, prefere a melodia do que a fritação.

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4 comentários em “Joe Satriani – Shockwave Supernova (2015)

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