2015 Metal Resenhas

Iskra – Ruins (2015)

iskra_ruins_cover

Punk anarquista + black metal = vociferações políticas

Por Lucas Scaliza

Quase passou debaixo de nosso radar o Ruins, novo álbum da banda Iskra. Antes deste lançamento, não conhecia a banda. Mas felizmente conseguimos conferir o material e é uma pancadaria desenfreada com uma motivação política fortíssima.

Do início: Iskra é um quinteto canadense, da cidade de Victoria, de blackened crust – uma fusão entre as pauladas e vociferações insanas do black metal com a energia e forma punk mais radical de protestar dentro da música. O nome “iskra” significa “centelha” em russo e já foi nome de um jornal socialista da Rússia e acabou virando o órgão de imprensa oficial do Partido do Trabalho do país no início do século 20. Lênin era parte desse jornal, mas o deixou em 1903 seguindo a separação do partido. Entretanto, o Iskra não é propriamente uma banda socialista/comunista/leninista/trotskista/petista/marxista. São assumidamente anarquistas (como o é todo o movimento crust) e suas letras sempre bateram pesado no capitalismo e em governos de ambos os lados, mas sobretudo nos capitalistas (já que há pouquíssimas experiências comunistas de verdade em prática no mundo).

Iskra

O black metal, embora tenha uma vertente satanista, é, na verdade, uma forma de música pessimista, crítica e desiludida que usa o metal extremo para dar vazão (e materialidade) ao seu niilismo. Isso se encaixa perfeitamente com a raiva e acidez punk dos canadenses que, em Ruins, apresentam 10 faixas pesadíssimas para criticar a sociedade. E como manda o figurino black metal, todos os vocais são guturais (ou seja, ter as letras em mãos é importantíssimo para compreender a mensagem da banda). Mas fiquem tranquilos: o quinteto não está a fim de queimar igrejas. Apenas de derrubar governos.

Embora tenham elementos do speed e do thrash metal muito presentes (“Lawless”, que abre o disco, lembra muito o Metallica dos anos 80), a pegada punk/crust se evidencia na forma seca como soam todos os instrumentos. É tudo muito direto. Diferente do metal do Cradle of Filth, por exemplo, que busca uma aproximação maior com o power metal e inclui elementos mais clássicos, góticos e barrocos em sua música.

Cody, o baterista, é um monstro incansável. Tem energia de sobra para descer a mão com força e jeito ao longo de todo o disco com raríssimas pausas. Mas ele não impressiona apenas pela velocidade (que é requisito básico para qualquer batera de crust, black, power e thrash metal): ao longo das porradarias, ele encaixa ótimas viradas e fraseados que acabam fazendo a diferença, como em “Nihil” e na densa “Der Einzige”.

As guitarras de Wolf e Anatol Anton criam as obrigatórias paredes sonoras e se dividem muito bem entre os power chords bem pesados e secos e os riffs acelerados que conduzem os versos (como em “Predator Drone MQ-1”) e as pausas que ajudam a não tornar as faixas lineares demais. Os solos são curtos, mas todos eles muito bons, trazendo um respiro de melodia às composições (é quase uma benção como o solo aparece no final de “Lebensraum”, a faixa mais curta e mais pancada de Ruins).

“Traume” tem um início intenso e se desenvolvendo explorando outras possibilidades rítmicas. “Aegis of the Victor” dá bastante espaço para o baixista JP colocar seu instrumento em primeiro plano. É também uma das composições menos punk e mais black metal do disco. “Battle of the Hundred Slain” segue a mesma receita e é uma das faixas mais equilibradas do álbum.

O Iskra não é uma sensação do blackened crust no mundo. Aliás, qualquer forma de música extrema é muito difícil cair na boca ou, mais difícil ainda, no gosto de uma maioria. Música de nicho de verdade. Mas a proposta estilística torna-se ainda mais interessante ao se perceber que a banda está muito engajada com seus ideais políticos – mesmo que esses ideais também sejam de nicho. Fazem muitos shows em Vancouver e na cidade natal, Victoria, abrindo shows de bandas maiores ou em apoio a eventos anarquistas.

Além disso, contrários a governos e corporações, sempre disponibilizam sua música gratuitamente na internet e encorajam o público a nunca pagar por downloads de suas músicas. Quem quiser ajudar a banda pode comprar vinis, CDs, camisetas e merchandising direto com eles, doando algum valor. Se estiver difícil encontrar Ruins para ouvir, acesse este link (o player está do lado direito do navegador).

Além de uma proposta musical que não é comum (apesar da porradaria já bem conhecida), é um exemplo de black metal com uma preocupação mais social do que religiosa. E como se sabe, muitas bandas ditas “satânicas” só usam o tema como entretenimento, sem muito compromisso com a causa. O Iskra não. São anarquistas primeiro, músico depois, e levam ambos muito a sério.

No Brasil, a banda Deadfish também faz um hardcore bastante poderoso, sendo um dos grupos mais reconhecidos do país, e recentemente assumiram publicamente uma postura política de esquerda, inclusive tocando o foda-se para quem é contrário a essa visão. Visões ideológicas à parte, não é só uma questão de transparência para com o público, mas um tipo de arte que se conecta a algo e pretende mudar algo. Mesmo que essa mudança esteja além do poder de uma banda.

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1 comentário em “Iskra – Ruins (2015)

  1. Pingback: Deafheaven – New Bermuda (2015) | Escuta Essa!

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