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Letuce – Estilhaça (2015)

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Em clima de bar e de sonho, não sei se tomo Red Bull ou rivotril?

Por Lucas Scaliza

O ex-casal Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos estão em uma ascendência sonora que lembra muito a carreira de Thiago Pethit. Um primeiro disco bem folk – e no caso da Letuce, beirando o tédio muitas vezes –, e um segundo trabalho realmente vistoso. Manja Perene (2012) ia do violão/guitarra e voz até expressões musicais que lembravam muito o Mutantes. Esse alargamento das fronteiras está muito mais concreto em Estilhaça, terceiro disco que já está entre nós desde a semana passada (e você pode baixá-lo de graça no site da OneRPM, basta fazer um cadastro rápido, ou ouvir tudo pelo YouTube mesmo).

“Quero Trabalhar com Vidro” já chega dizendo que não há quase nada de duo-folk-homem-e-mulher aqui, aquela receitinha básica. É uma faixa boa, com bateria, guitarra, baixo, banda completa, alternância de dinâmicas. “Lugar para Dois” cai no indie de vez com a guitarra onipresente de Vasconcellos e o melhor verso do disco: “E toda noite eu arranco meu coração/ De manhã ele volta a crescer”. São músicas que evidenciam as camadas sonoras criadas pela dupla, um recurso que funcionou muito bem em Manja Perene. Quando entram o teclado e/ou sintetizador, as faixas ganham uma aura, que resguarda aquele feeling da loung music presente desde Plano de Fuga pra Cima dos Outros e de Mim (2009).

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Foto: Ana Alexandrino

As guitarras, contudo, estão menos etéreas e marcam uma presença maior no primeiro plano. Embora “Love is Magic” se apoie bastante na cama do teclado, na bateria e no baixo, quando a guitarra entra é para não restar dúvida de que é um rock o que a Letuce está fazendo.

“Muita Cara” é a música mais diversa do disco e uma das mais interessantes. Quase teatral, é aqui que o público se divide entre o hipster e o folk fofo. Novaes e Vasconcellos sabem mesmo trabalhar o aspecto pop bem alinhado com alguma estranheza, por menor que seja, para fazer Estilhaça ter uma identidade bem marcada. “Muralha da China” e “Todos os Lugares do Mundo” são bem mais aberta e descem mais facilmente.

Já “Aristoteles Laught” é puro suspense. De que bar ela saiu? Fiquei pensando nisso para identificar qual ambiente não só essa música, mas o álbum todo, parece evocar. Diria, então, que existe um clima de bar paulistano antes da lei que proíbe fumar em locais fechados, sabe? Menos sexy que o trabalho anterior da dupla, Estilhaça está mais ambiente para um público com uísque, cerveja Heineken e vodca com energético na mão, de madrugada, com a roupa cheirando a cigarro. Há beleza, há melancolia, há um clima meio tenso no ar. A banda não toca canções exatamente doces, porém a gente encontra alguma ternura e algum conforto, como na ótima “Muralha da China”. Aquele conforto das 4 da manhã, sabe?

“Animadinha” é a melhor definição do que é o indie na Letuce. Enquanto a bateria é bem básica (você reconhece o Rio nela facilmente), a guitarra de Vasconcellos faz arranjos que levam a música para outras paragens. O baixo aproveita a deixa e também se liberta (aliás, o baixo está ótimo em quase todas as faixas). Mas veja que em outra situação poderia ser uma música de tédio. Da forma como foi planejada, negando o que poderia ser o arranjo “natural” da música, ela ganha vida. “Arca de Noé” é outra piração que se sustenta com distorção e groove sujo.

Ao ouvir “Mergulhei de Máscara”, pensei: “cara, a voz da Letícia é perfeita para embalar fossa, principalmente se houver um dedilhado”. Em 3/4 (sim, é pra embalar fosse), a música diz que não tem frase de efeito (tem sim, “A gente não sabe de nada”) e nenhuma mirabolância (órgão com trêmolo conta?). “Todos Querem Amar” fecha o disco trazendo um pouco do rock de volta com algumas intervenções eletrônicas. Nesse ponto, o efeito do álcool já está passando e o sol já vai nascer. Hora de ir pra casa.

A bateria de Estilhaça sempre me remete a uma experiência mais brasileira. Levadas que não vejo com frequência em bandas e artistas que não sejam do Brasil. Já a guitarra e o baixo não estão comprometidos com essa brasilidade, ambos enveredando por uma experiência bem mais global. Mas essas diferenças não ficam ruins na Letuce. Fica aquele clima de sonho – às vezes de sonolência bêbada, coisas que podem ser e podem não ser. É rock ou não é? É MPB ou tá mais pra folk moderninho? Tomo Red Bull ou rivotril?

Minha dica é: se entregue ao Estilhaça e ao Letuce. É bem sinestésica a experiência. Dá para ouvir sozinho, é variado o suficiente para ser um passo à frente na carreira de Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos, mas é uma experiência diferente ouvi-lo em diferentes ambientes. Ouça, porque está valendo a pena viajar com esse disco.

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2 comentários em “Letuce – Estilhaça (2015)

  1. Pingback: Titus Andronicus – The Most Lamentable Tragedy (2015) | Escuta Essa!

  2. Pingback: Estranho Mundo | Eric Novello

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