2015 Indie Pop Resenhas Rock

Titus Andronicus – The Most Lamentable Tragedy (2015)

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Esse disco vai figurar na lista de melhores do ano de muita gente. Não é exagero.

Por Lucas Scaliza

Se o primeiro semestre já foi marcado por ótimos lançamentos (e separamos 15 deles aqui que você não pode deixar de conferir, entre tantos outros que acabaram não entrando na lista), a segunda metade de 2015 já dá mostras de que o fôlego para boas surpresas e novidades ainda não acabou. Já tivemos os excelentes Currents do Tame Impala, Born In The Echoes do The Chemical Brothers, The Beyond/Where The Giants Roam do Thundercat, Estado de Poesia do Chico César e Estilhaça da dupla Letuce. Agora um concorrente forte mostra a cara indie e as garras punk: The Most Lamentable Tragedy, quarto disco dos americanos do Titus Andronicus, vem para concorrer a uma vaga entre os melhores do ano em todas as listas de toda a internet e de todas as revistas.

Não é exagero.

O sexteto de Glen Rock (Nova Jérsei) vai chegar ao estrelato da música alternativa agora, sem dúvida. O disco promove uma mistura de punk, pop e indie que garante uma música enérgica, visceral e cheia de boas ideias ao longo de quase 93 minutos que se dividem em 29 (!!!) faixas. Tudo isso para contar a história de um cara que vai viver a mais lamentável tragédia que está no título do trabalho. A direção artística é tão variada que as faixas vão de completos silêncios de sete segundos até épicos de nove minutos, passando por pequenas vinhetas que podem ser apenas criações de clima (como “The Magic Morning”), até pauladas punk (“Look Alive” e “Lookalike”) com um minuto de duração ou menos. O resultado é incrivelmente divertido, uma mistura da melodia de voz e de guitarra do The Cribs e a vigorosa empolgação do Death From Above 1979.

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A banda é formada por Patrick Stickles (guitarra e vocal), Eric Harm (bateria), Julian Veronesi (baixo), Adam Reich e Jonah Maurer (guitarras) e Elio DeLuca (teclado e piano). Stickles é o mastermind do grupo, responsável pelas boas letras e pelo clima tenso que sentimos emanar do grupo ao longo de seus discos. Titus Andronicus é uma dessas bandas com trabalhos interessantes mas muito fora do grande circuito, sendo um grupo independente que financia sua música com a ajuda do público e com relevância em um nicho. No entanto, esse nicho gosta da banda justamente pela ideia que norteia norteia seus membros: ser verdadeiro consigo mesmo, não se importar muito com o lado comercial da coisa, o velho lema punk faça-você-mesmo (DIY).

O segundo disco, The Monitor (2010), tornou-os mais conhecidos. O trabalho já tinha os elementos que explodem no novo álbum: punk vigoroso, letras raivosas sobre a vida e a sociedade e a pretensão de estabelecer uma comparação entre a Guerra Civil americana com a vida do vocalista, um cara que, entre outros problemas, é um maníaco-depressivo. The Monitor é seco, mixagem rústica, o do-it-yourself se revela na crueza de como a música soa garageira e sem cuidado com a produção, uma massa sonora sem camadas. E já neste disco misturavam faixas curtas com outras mais longas.

Em Local Business (2012), a produção melhora consideravelmente e já conseguimos distinguir bem melhor as linhas de guitarra dos baixos, o teclado e a bateria e as vozes. O tom autobiográfico se evidencia logo na primeira faixa, “Ecce Homo” (eis o homem, nome que Nietzsche deu a sua autobiografia também). Em Local Business fica mais claro o direcionamento que mistura o punk com o indie rock e a crítica ao “sucesso”, que Stickles dirigiu a seu próprio grupo após a relativa atenção que The Monitor ganhou. Assim como Eddie Vedder com o Pearl Jam, que não sabia como lidar com o estrondoso sucesso da banda no começo dos anos 90 em meio a toda a cena grunge, Stickles queria exorcizar essa “conquista” de si mesmo e da banda.

Talvez a mentalidade de Stickles e do resto do grupo tenha mudado, porque eles ficarão ainda mais famosos com The Most Lamentable Tragedy, uma ópera rock de encher os olhos. O personagem é o Herói, que sim, é um cara cheio de problemas, raivas e angústias, como o Stickles, e seu duplo, o “Lookalike”, que se parece com ele, mas não age como ele. Muito provavelmente é uma metáfora para os estados mais maníaco-depressivos do vocalista.

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E a música?

Respire fundo e dê o play. A jornada é longa e começa com “The Angry Hour”, que forma um acorde polifônico de 12 notas (todos os intervalos de uma escala musical) e bastante dissonante. “No Future Part IV: No Future Triumphant” e “Stranded (On My Own)” chegam quebrando tudo, com nosso Herói estabelecendo suas angústias por meio da voz rasgada de Stickles. “Lonely Boy” é a música mais Rolling Stones do álbum e fala sobre a vontade de se isolar do protagonista. Para criticar a hipocrisia das pessoas, o letrista recorre a uma breve citação do seriado Seinfeld. Mesmo quando as faixas são curtas, as letras são longas. E Stickles não é do tipo que repete refrãos ou versos.

“I Lost My Mind (+@)” tem melodia amistosa e gostosa de acompanhar, apesar de todo o incômodo tema sobre perder a cabeça em uma neurose. Dá para sentir o fôlego do cantor se esforçando para terminar os versos e correndo para engatar o próximo logo em seguida. Stickles explicita a condição mental em versos assim: “Desde então tem sido uma luta ficar vivo/ O suicídio parece melhor do que tentar sobreviver/ Por isso quando me olhar não verá sinal de sorriso/ Mas o som de uma vista fico feliz em dar/ Portanto nunca peça para conhecer minha mente/ Não, ela é selvagem demais, do tipo que vaga por aí”. Já a curta e raivosinha “I Lost My Mind (DJ)” é um cover de Daniel Johnston, herói indie e também maníaco-depressivo.

Em “Fired Up” temos críticas contundentes a sociedade, desde a forma como se educam os jovens até o pensamento religioso. E “Dimed Out”, seguindo na mesma trilha, revela o desejo de extravasar do protagonista por meio de uma metáfora com o volume máximo de um amplificador, uma vontade de ir aos extremos que apetecem ao perturbado personagem. Quase tudo em The Most Lamentable Tragedy é muito intenso. O vocal esbravejante não é perfumaria, ele tem porque estar presente. Acompanhe com as letras para saber que não estará diante de um disco que fala de relacionamentos, amores ou coisas tediosas do primeiro mundo. É uma incursão pela mente desse personagem – que em boa medida é o próprio Patrick Stickles – e como ele encara a vida a partir de sua condição mental e as dificuldades decorrentes dela. Às vezes a vida é um fardo, e um fardo ainda mais pesado com as desordens neurológicas e psíquicas. Alguns transformam isso em arte, como é o caso do Titus Andronicus.

Existem referências internas também. A amigável “Mr. E. Mann” remete a “Electric Man”, de Local Business, assim como “More Perfect Union” (uma música de nove minutos, folk com influências indígenas) nos leva de volta a “A Perfect Union”, de The Monitor. Ao final do segundo ato, há um intervalo sem som que é tirado, muito provavelmente, da “intermission” de 2001: Uma Odisséia no Espaço, épico filosófico espacial de Stanley Kubrick.

O disco continua em seu terceiro ato. “Sun Salutation” é um cântico católico originalmente, mas substituíram a palavra God por Ra, o deus egípcio do Sol.  Na longa e pesada “(S)HE SAID/ (S)HE SAID” temos um caso de uma noite do personagem com uma garota. Ele não parece muito interessado a princípio e sua desordem se revela na repetição de versos. O caso só se resolve em “Come On, Siobhán”, uma música bem legal e indie pop como algumas da discografia do Belle And Sebastian. É aqui que o personagem resolve se abrir e falar sobre sua condição. “Fatal Flaw” também está entre as mais acessíveis, com uma estrutura bem conhecida, com versos e refrãos bem definidos.

Essas músicas menos intensas nos ajudam a chegar ao fim do disco. É tudo muito bom, mas são emoções muito fortes. Conforme as faixas avançam, o estado de espírito e mental não fica exatamente melhor. Em “I’m Going Insane” a frase título é tudo o que ele canta. O sonho acaba, a realidade chama, o personagem percebe que o duplo era ele mesmo, os erros eram dele. É assim que a história termina com a amarga balada de piano “No Future Part V: Endless Dreaming”.

A impressão que essa jornada pesada deixa é muito parecida com a que Smashing Pumpkins propôs há 20 anos com o clássico Mellon Collie & The Infinite Sadness, um álbum que tinha beleza, criatividade, raiva e inadequação, peso e melodia. Billy Corgan conseguiu a admiração de muita gente com ele conseguindo reunir sentimentos de uma juventude que encontrou nas letras da banda um reflexo do que viviam. O mesmo acontecia no Brasil com o Renato Russo e sua Legião Urbana, principalmente após o lançamento de As Quatro Estações (1989). Acredito que as experiências contidas em The Most Lamentable Tragedy fazem parte dessa mesma estirpe de álbum, mas talvez menos expansivo, por se tratar de processos mentais difíceis de serem plenamente compartilhados e absorvidos por todos os ouvintes. Mas a dor de Stickles está lá, carregada de sarcasmo e crítica, e não autopiedade.

Enquanto a faixa “A Moral” finaliza o disco com o mesmo ruidoso acorde que iniciou a jornada, “A Stable Boy” foi gravada com a mesma fita cassete que Stickles utilizou para gravar, da maneira mais caseira possível, a primeira faixa do primeiro disco, The Airing Of Grievances (2008), trabalho que já exibia as duas primeiras partes de “No Future”. Assim, para além da secura, crueza e diretrizes mais despojadas do punk, o Titus Andronicus não só fez de The Most Lamentable Tragedy uma ópera rock, mas a conclusão de um quarteto de álbuns conceituais que se beneficiam da autobiografia enquanto ficção. Colocando de forma mais simples: tudo reflete a psicologia e a vida de Patrick Stickles, então é como uma autobiografia falassem de si mesmos na terceira pessoa. O punk nunca foi tão pretensioso.

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9 comentários em “Titus Andronicus – The Most Lamentable Tragedy (2015)

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