2015 Jazz Resenhas

Antonio Sánchez & Migration – The Meridian Suite (2015)

Antonio-Sanchez-cover

Baterista autor da trilha de Birdman entre um trabalho inspirado, fluido e que confia na imaginação do ouvinte

Por Lucas Scaliza

Mesmo que você não seja fã de jazz, provavelmente conhece Antonio Sánchez desde o ano passado. Conhece, sobretudo, sua música e a forma criativa e diversa com que suas baquetas tocam pratos, caixas, tontons e splashes. Lembra do filme Birdman ou: (A Inesperada Virtude da Ignorância), que levou os Oscars de Melhor Filme e Melhor Diretor este ano para o cineasta Alejandro González Iñárritu? Lembra da trilha sonora, toda composta apenas por ritmos quebrados de bateria? Então, era o também mexicano Antonio Sánchez que estava por trás do kit que deu som à película.

Mas não se preocupe, Sanchez não faz música instrumental abusando dos solos de bateria. Na verdade, embora ele seja o líder do projeto, sabe fazer um jazz classudo e bonito, virtuoso na medida certa e dá amplo espaço para baixo, saxofone e piano solarem. A sua base percussiva está sempre ali, brilhando como sustentação, acentuação e puxando ou diminuindo a dinâmica em todas as faixas, mas sem recorrer a longos solos percussivos. O grande diferencial aqui é que Antonio Sánchez & Migration são realmente uma banda e todo mundo contribui igualmente para o excelente resultado final que é The Meridian Suite.

Antonio Sanchez

A ideia por trás da composição e produção é álbum é tão simples quanto pretensiosa: escrever música como se fosse um romance ao invés de contos. E o tema desse romance são os meridianos, as linhas imaginárias que dividem o globo terrestre, como se elas pudessem se manifestar pela música, se encontrarem e se entrelaçar. O seja, uma música que depende tanto da imaginação de quem a cria como da imaginação de seu ouvinte.

Segundo o próprio Sánchez, foi a ideia mais ambiciosa que ele já teve e a sua banda, Migration, seria o melhor caminho para executá-la. E não são velhos lobos do jazz que o acompanham. A banda é relativamente jovem, composta pelo pianista John Escreet (que também usa um Fender Rhodes), a cantora Thana Alexa (também esposa do mexicano), o baixista Matt Brewer, o saxofonista Seamus Blake (que também toca o sopro eletrônico EWI) e o guitarrista Adam Rogers, o mais discreto de The Meridian Suite.

Antonio Sánchez e parte dos músicos da Migration que ajudaram a gravar o álbum
Antonio Sánchez e parte dos músicos da Migration que ajudaram a gravar o álbum

“Grids And Patterns” dá o principal tema do álbum, primeiro com piano, depois com sax, e então cai em formas mais abstratas de música para logo depois permitir que cada músico coloque sua alma por cima da base arrastada – base esta que vai se transformando em uma forma fluida de música até seu final (e repare como a bateria de Sánchez cresce, livre e poderosa, enquanto Seamus Blake e a vocalização de Thana Alexa preenchem a faixa). Quando “Imaginary Lines” chega, é com o frescor e gentileza de uma brisa, sem pressa. Alexa encontra espaço para cantar aqui, não apenas vocalizar, um exemplo de como o jazz de ponta pode, se quiser, continuar sendo sofisticado e incluir o ouvinte. É nesta faixa também que Brewer tem sua primeira oportunidade de fazer um longo solo com seu baixo. Lá pelas tantas, quando há um dueto entre Blake a Alexa, a faixa soa como música brasileira.

“Channels of Energy” tem um início denso e caótico, muito calcado na capacidade de Sánchez mandar tudo pelos ares e conduzir um compasso 7/4. É a faixa mais fusion e elétrica do álbum: Escreet usa seu Fender Rhodes que, somado ao baixo distorcido de Brewer, criam uma cama sonora cremosa e rica em groove. Para completar, Seamus usa o EWI para solar. Alguns poucos acordes e um solo de bateria, como alguns ouvidos na trilha de Birdman, finalizam a faixa. Antes do grand finale, “Magnetic Currents” é uma bagunça sonora. É um estado de espírito que aos poucos vai encontrando sua forma de música.

Todas as faixas de The Meridian Suite foram gravadas ao vivo, isto é, com os músicos tocando juntos no estúdio. No final das contas, o álbum é constituído de apenas cinco músicas e 55 minutos de som para contar a história dos meridianos. Apenas “Magic Currents” fica abaixo dos 4 minutos. As outras faixas todas tem de 8 a 11 minutos de duração. Esse é o tamanho de cada capítulo planejado por Sánchez.

Mas nada se compara a “Pathways of the Mind”, a composição de 21 minutos que fecha o disco. A faixa dá espaço para todo mundo solar mais uma vez e recupera todas as formas musicais que presentes na faixas anteriores, indo de uma balada jazz moderna a um fusion sujo de overdrive da guitarra de Adam Rogers, até que cai no tema inicial do álbum e os meridianos encontram ordem e calmaria de novo.

Só para dar algumas credenciais sobre o músico, é importante dizer que a bateria é seu principal instrumento, mas seu conhecimento musical não se restringe ao kit. Ele é formado em piano clássico pelo Conservatório Nacional de Música do México  e também em Estudos de Jazz pela renomada Berklee. Além disso, tem mestrado em Improvisação de Jazz pelo Conservatório da Nova Inglaterra. Participou de trabalhos do Chick Corea, Gary Burton, Enrico Pieranunzi e é o baterista da banda do guitarrista Pat Metheny desde 2002.

Dos discos de jazz high end que resenhamos até agora, todos ofereciam alguns grandes obstáculos para o ouvinte menos acostumado ao estilo. Seja o virtuosismo de Scott Henderson em Vibe Station, as abstrações de Al Di Meola em seu Elysium, o tamanho gigantesco de The Epic do Kamasi Washington ou o alto nível de sincretismo do baixista Marcus Miller em Afrodeezia. Mas acredite: The Meridian Suite é fluido e mais amigável. Ambicioso, sim, mas abraça o ouvinte. Então feche os olhos, deixe o cérebro bem ligado, e viaje pelas linhas meridionais da música jazz. A sensação é revigorante.

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3 comentários em “Antonio Sánchez & Migration – The Meridian Suite (2015)

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