2015 Resenhas Rock

Buddy Guy – Born To Play Guitar (2015)

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É o camisa 10 do blues e o blues está em seu DNA

Por Lucas Scaliza

“Eu nasci na Louisiana. E com dois anos de idade, minha mãe disse ao meu pai: ‘Nosso menino tem o blues’. Cresci rápido e viajei para bem longe. Uma coisa eu sei: nasci para tocar guitarra!”

É com essas frases que Buddy Guy abre Born To Play The Guitar, seu novo disco. Mais do que uma boa música, a faixa-título é quase uma mistura de manifesto e testamento. Se tem algo que está incrustado no DNA desse grande guitarrista, talvez até mais do que a música em si, é o blues, em todas as suas manifestações culturais, sentimentais e políticas. O blues, afinal, sempre foi o maior tema de toda a sua carreira e de sua vida.

Faz 50 anos que Buddy Guy está nesse ramo (da música, do blues, da guitarra). Seu primeiro disco é de 1965 (Hoodoo Man Blues) e, sendo assim, é preciso lembrar que estamos diante de uma lenda, o camisa 10 do blues e que recentemente assumiu a braçadeira de capitão do time Azul, após a morte de B. B. King. Qualquer que seja o guitarrista de blues ou de rock que possamos reverenciar hoje, ele ouviu Buddy Guy, prestou atenção em seus licks, seus solos, sua dinâmica e seu fraseado elegante. Jimmy Page, Jeff Beck, Eric Clapton, Joe Bonamassa, Steve Ray Vaughan, John Mayer e até Jimmi Hendrix estão no time de influenciados por Guy. É o mais reconhecido expoente do blues de Chicago, o blues elétrico, mas não deixa de passear pelas vertentes mais antigas do estilo.

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Rhythm & Blues (2013), o disco anterior, era duplo, tinha 21 faixas e uma impressionante pegada blues roqueira, cheio de grandes riffs e refrães excelentes. Um disco sem pontos baixos. Em Born To Play Guitar o músico alterna entre faixas mais aceleradas e mais lentas, uma após a outra, e se concentra no blues mais puro, nas notas que evidenciam o estilo. É claro que ele cai na vertente mais roqueira em vários momentos (como em “Wear You Out”, em que Guy recebe o apoio de Billy Gibbons, do ZZ Top, e “Whiskey, Beer & Wine”), mas nada tão pop quanto no disco anterior. Mesmo quando é um blues mais acelerado, o pulso firme da levada do blues se impõe, como é o caso na dançante “Too Late”, nas mais sulistas “Kiss Me Quick” e “Thick Like Mississippi Mud” e na mais frívola “(Baby) You Got What It Takes”, com participação de Joss Stone.

E para não dizer que a idade de Guy o fez menos inventivo, “Turn Me Wild” é um blues moderno, tanto nas escolhas de timbre do guitarrista quanto na abordagem do solo. “Crazy World” então, nem se fala. A faixa mais inventiva do disco, coloca eco na voz de Guy e uma mais etérea ao redor da composição, sem falar na bela modulação da harmonia, bem diferente do resto do álbum. Ele também é um mestre em colocar aquele cheiro de distorção nas seis cordas e não precisar correr com sua música, como fica claro em “Crying Out Of One Eye” e “Smarter Than I Was”.

Quem se acostumou com a guitarra agressiva do heavy metal está muito habituado a fraseados rápidos e que se tornam massas sonoras indigestas às vezes, em que a beleza da sequência de notas acaba suprimida em favor do efeito da velocidade. Buddy Guy, mesmo quando é veloz, mantém a beleza de cada nota que escolhe tocar. Mais um motivo para você ouvi-lo.

As duas faixas finais são especiais. A primeira, “Flesh & Bone”, cantado ao lado de Van Morrison, é um tributo à B. B. King. De tom mais solene e com jeito de balada, eles lamentam a morte do bluseiro, mas deixam claro que ele continua com eles, porque “a vida é mais do que carne e osso”. Já “Come Back Muddy” é um blues bem tradicional que evoca, é claro, Muddy Waters, o bluseiro americano que primeiro foi influência para Buddy Guy e, em seguida, o colocou em sua banda. É aqui que o blues se encontra em sua forma mais pura: a saudade, a melancolia, a poderosa voz, os fraseados de guitarra e o ritmo do piano, tudo que conhecemos como as raízes do estilo.

Born To Play Guitar não é o tipo de álbum que vai nos trazer uma visão nova sobre o artista. Tirando um detalhe ou outro, ou a faixa “Crazy World”, ele mostra o que já se esperava dele, estilisticamente falando. Mas ainda é muito bom, ainda muito consciente da contribuição que dá à música e ao blues a cada lançamento. A lenda está estabelecida há muitas décadas, então o que Buddy Guy nos traz agora são avivamentos de sua trajetória e da história do blues.

spotify:album:05GcLcffb84BOLzo7BMz9W

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3 comentários em “Buddy Guy – Born To Play Guitar (2015)

  1. Buddy Guy é tão perfeito 🙂

  2. Pingback: Bryan Adams – Get Up (2015) | Escuta Essa!

  3. Pingback: Joe Bonamassa – Blues Of Desperation (2016) | Escuta Essa!

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