2015 Nacional Pop Rap/Hip-Hop Resenhas

Emicida – Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (2015)

front

Com poucas escorregadas, Emicida faz uma colagem de formas e texturas em novo disco evocando a África e novamente em defesa do negro

Por Lucas Scaliza

A internet não é uma terra de ninguém, mas os comentaristas de portais de notícias fazem parecer que o ambiente virtual é um palco em que não apenas é possível propagar os racismos, os sexismos e toda sorte de preconceitos, mas como se isso fosse um dever. Nunca o combate aos preconceitos foi tão presente e teve tantos porta-vozes. Mas é como se cada degrau alcançado por negros, gays e mulheres também ativasse uma reação cada vez mais exacerbada e violenta (seja física ou verbalmente) por parte dos agressores.

Qual é o impacto das produções culturais neste cenário? A ação afirmativa da literatura, da música, do cinema, teatro, publicidade, memes e etc têm impacto e são capazes de transformar, mas ao que parece também coloca mais lenha na fogueira. No entanto, de um certo ponto de vista, a arte é (ou deveria ser sempre) um ato de resistência. O rap, quando incumbido de levar a voz das ruas – e não apenas a voz de quem enriqueceu com o hip hop – para o público é, essencialmente, resistência, afirmação e legitimação. O rapper paulistano Emicida não esquece o entretenimento, mas mantém os pés bem firmes dentro do contexto social em seu novo disco, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa.

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Embora toque em uma gama ampla de assuntos, o tema que parece dominar o álbum é a cor. Malcolm X, Martin Luther King, Amoras, são só algumas das inúmeras citações que nos levam a cor negra. Mas há uma miríade de informações e referências ao longo do álbum que não é só composto de músicas e nem só de rap. Há poemas, há histórias, há crônica, há samplers da voz das ruas, há refrãos bem pop, tem rap de verdade, tem homenagem, tem suingue, tem balanço, tem batida forte, tem papo reto. Feito um Kendrick Lamar e seu To Pimp a Butterfly (talvez o principal disco de hip hop e black music do ano, tanto pela sofisticação do som quanto pelo conteúdo das letras, que também retrata o negro), Emicida faz uma bela colagem de formas e texturas, como se fosse um livro de Valêncio Xavier ou de Veronica Stigger, em que diferentes formas de expressão se aglutinam e brincam com a linguagem.

Esses elementos já estão sendo trabalhados pelo rapper há algum tempo. Se o EP Doozicabraba e a Revolução Silenciosa (2011) e as duas primeiras mixtapes provaram que ele tinha rap do bom para mostrar, o álbum O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013) mostrou que Emicida sabe cuidar de seu som e não ficaria restrito ao modelo mais quadradinho do estilo. Daí que flertes com a música brasileira e até uma guitarra mais rock compunham sua sonoridade.

Emicida não abre seu disco com os dois pés no peito, como talvez esperaríamos de um álbum com uma forte temática social e racial. Somos pegos de surpresa por “Mãe”, um rap cheio de ternura que cita Alice in Chains, Pepê e Neném, Lady Gaga e conta com a participação de dona Jacira, mãe do rimador. “Alexandre no presídio, eu pensando em suicídio aos oito ano, moça. De onde cê tirava força?” e “Vi Deus, ele é uma mulher preta”, ao mesmo tempo homenageando a mãe, as mulheres, as negras, todas as mães negras, as mães de todo mundo.

“8” mostra Emicida em seu ambiente por excelência, mantendo a temática do álbum, cantando versos como “Finge que segregação é ficção tipo Fringe/ Assim ‘rancaro o nariz da esfinge, maluco/ Cabê essa porra de que o que vem de baixo não te atinge”. Apesar do peso dos versos, a base da música é bem animada, nada sombria. Ele ainda cita Peter Pan, Xangô, a Bastilha francesa e os autores Machado de Assis, Gil Vicente e até o escritor de fantasia Raphael Draccon. Tudo tem seu motivo de existir na música do rei da rima, mas pega pesado ao mesmo ao falar “Nóis nunca entendeu essa história manca/ Sangue índio, suor preto e as igreja branca jogando na retranca”. E logo depois, ele dá um alô para a recente história de Curitiba: “Querendo que os menor respeita os professor que a polícia espanca”. De tirar o chapéu (ou o boné).

Apesar do coral com crianças na intro e no refrão, “Casa” segue uma linha com batidas sintetizadas que lembram as misturas do Kanye West. Enquanto a levinha “Mufete” remete diretamente à África e ao passado de formação cultural e étnica do país, a ótima “Boa Esperança” traz o tema para os dias de hoje, denunciando injustiças que levam à revolta popular negra (e não tem como não pensar em Ferguson e Baltimore). Aliás, foi na África, em Cabo Verde e Angola, que Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa começou a tomar forma. “Amoras” é um ato de afirmação da própria cor para crianças e “Trabalhadores do Brasil” (narrada com verve de sobra pelo escritor pernambucano Marcelino Freire) é um tapa na cara de pretos e brancos, misturando figuras do candomblé aos empregos e subempregos da sociedade.

Mas Emicida também escorrega. No intuito de ser mais alegre, mais diverso e mais pop ele acaba enveredando por paragens que acabam não ficando bem. “Baiana”, por exemplo, com uma participação apagada de Caetano Veloso, é um R&B bem suave que, embora tenha uma vocalização bem legal, acaba também esmaecida no todo do disco. “Passarinhos”, com participação de Vanessa Da Matta, é meio reggae, meio música havaiana. Valeu o esforço para ser pop e emplacar no rádio ou em outras mídias mais mainstream, mas não representa a força do álbum. “Madagascar” é outro R&B bem soft que faz às vezes de uma música romântica, mas, de novo, não está entre as melhores do rapper. Contudo, servem para mostrar que Emicida também pode ser melódico, não apenas narrativo ou freestyle. Até o Metallica passou por isso com Ride The Lightning. A festiva “Salve Black”, por outro lado, fecha o disco com alegria e é uma boa mostra do lado mais pop de Emicida.

Se Kendrick Lamar tem os 12 minutos de “Mortal Man” para fechar seu TPAB, Emicida fez a boa “Mandume”, acertando em cheio no arranjo torpe, na pegada visceral e nas participações de Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphao Alaafin. A música foi precisamente colocada após “Trabalhadores do Brasil” e, juntas, servem como a dupla de faixas mais críticas e ácidas de Sobre Crianças…. Se Marcelino terminava seu texto dizendo que ninguém era escravo de ninguém, em “Mandume” Emicida e seus parceiros denunciam como a sociedade formada em torno do “branco safado” quer que o negro, o pobre, o favelado se coloque em seu lugar, como se fosse sua obrigação se ver como inferior. Nesse contexto, o sampler do menino dizendo “Nunca deu nada pra nóis, caralho/ Nunca fez nada pra nós, caralho” torna-se ainda mais eloquente. Musicalmente, a composição flerte em um momento com as batidas do funk carioca e, em outras partes, com a percussão africana. O grosso de sua base, no entanto, é feita de loops de uma vocalização feminina e de uma percussão que nunca cessa.

Embebido da História, da visita à África e do pensamento do cientista social cubano Carlos Moore, o álbum teria tudo para ser muito mais sombrio e pesado do que de fato é. Mas por um motivo ideológico, talvez, ele preferiu levar mais alegria e sons mais suaves para sua música dessa vez (embora O Glorioso Destino de Quem Nunca Esteve Aqui também tivesse uma boa abertura sonora para ritmos mais “leves”). Parte dessa motivação ideológica em prol da alegria está numa declaração dele para a revista Brasileiros, em que o compositor discute a intervenção da cultura branca/europeia nos valores dos povos africanos: “Percebi a interrupção gerada por uma cultura que não era dali, que passou a criminalizar a dança, o canto, o sorriso. Um mês depois, eu fui na França, fui olhar os murais da igreja e fiquei triste porque de todos os murais da igreja, aqueles vitrais lindões, o único que tava sorrindo era o diabo, mano. Aí pensei: ‘Caralho, a felicidade é um pecado mesmo, né?’.”

Emicida continua engrossando o caldo do rap nacional que bebe na fonte do hip hop old school dos anos 80 e 90, mas já se mostra aberto a outras vertentes musicais, uma decisão artística que foi chave para ele e para Criolo atingirem e ganharem o respeito de um público mais amplo e, nada raro, formados de pessoas que nunca andaram por uma comunidade, morro ou vivenciaram o dia a dia de uma periferia. Enquanto Emicida vai se mostrando cada vez melhor na arte de montar um álbum cheio de referências e colagens de texturas e diferentes tipos de faixa (já nem todas são músicas), Criolo se dá melhor na incorporação de outros ritmos ao seu repertório.

Tematicamente, Emicida é perfeito. Desenvolve o conceito com graça e originalidade, e olha que o próprio Convoque Seu Buda, do Criolo, e Cores & Valores, dos Racionais MC’s, ambos lançados em 2014, abordavam várias questões parecidas. Pra não citar também o clássico Fear Of a Black Planet do Public Enemy, que ainda é referência para o estilo e para o conceito.

Embora ao redor da questão racial e social dos negros e dos pobres esteja o dinheiro – e aí sempre se estabelece uma divisão entre quem tem (the haves) e os que não têm (have nots) – Emicida não cai na exaltação do orgulho barato que submete o valor da cor de pele à quanto dinheiro, sucesso e mulheres esses expoentes do gueto conseguiram, no melhor estilo ostentação. Trabalhos gringos como Dark Sky Paradise de Big Sean e Free Weezy Album, do Lil Wayne, cometem esse engano. Afinal, o valor da cor é inestimável, seja ela qual for. O que importa não é o peso da carteira, é a humanidade em cada um que reconhece a humanidade no outro. É por esse caminho que Emicida segue e, por isso, marca um gol a nível global.

Mas as pessoas vão compreender a mensagem ou só usá-la de combustível para demonstrar ainda mais preconceito? A música está fazendo a parte dela. Falta o público dar ouvidos a ela.

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7 comentários em “Emicida – Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (2015)

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  5. Disco muito, muito bom… O curioso é que agrada até minha filha de 2 anos… É bom ver um rapper atingir tanto apuro melódico… As letras dispensam comentários, ele é hoje o melhor letrista do país…

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