2015 Folk Resenhas Rock

Warren Haynes – Ashes & Dust (2015)

cover

Sai o rock clássico e as guitarras virtuosas, entram o banjo e o violino bluegrass

Por Lucas Scaliza

A carreira de Warren Haynes é diversa como é a musicalidade que corre em suas veias. Ganhou notoriedade ao tocar com o The Allman Brothers Band e expandiu seu universo como líder da ótima banda de rock clássico Gov’t Mule, que tem uma grande quantidade de trabalhos próprios lançados, sem falar nos recentes registros ao vivo que estavam engavetados, mas mostram uma banda afiada interpretando Pink Floyd, Rolling Stones e até uma caída no jazz ao lado de John Scofield. Não dá para deixar passar em branco a atuação dele junto dos membros restantes do The Greatful Dead e em gravações ao vivo do Dave Matthews Band.

E se tudo isso (e tudo o que não coube aqui) não fosse currículo suficiente, Haynes tem uma carreira solo, da qual Ashes & Dust é o terceiro da família, sucessor do roqueiro Tales of the Ordinary Madness (1993) e do jazz/soul Man In Motion (2011). Nesses casos, ele dá um tempo na guitarra rock e abraça os ritmos e estilos mais sulistas, como o bluegrass. E é claro que ele se dá muito bem, seja colocando sua voz dentro desse contexto mais suave ou adaptando seu estilo de tocar para o blues e o country, gêneros que fazem parte de sua criação.

Foto: Danny Clinch
Foto: Danny Clinch

Em Ashes & Dust, Haynes exercita seu lado mais romântico, bucólico e leve. Ainda que “Is It Me or You” tenha o cheiro do crunch de sua guitarra, é o banjo e o violino que dominam os arranjos. Na outras faixas, a guitarra está mais presente como instrumento base, fazendo alguns solos também, como em “Coal Tattoo”, mas nunca chega a ser uma “música de guitarra”. Arranjos riquíssimos em “Blue Maiden’s Tale” e “Stranded In Self-Pitty”, duas das melhores músicas do disco, capazes de capitar sua atenção e definir alguma ação: abrir uma cerveja e olhar para o horizonte no caso da primeira e ensaiar uns passinhos de dança no caso da segunda (pelo menos foi o que eu fiz). A banda que o acompanha, a Railroad Earth, não brinca em serviço.

Haynes fica no meio do caminho. Ele não é totalmente roots, ou seja, não executa o bluegrass tradicional e nunca blues e country soam puros. No entanto, não chega a ter toda a inventividade que vemos no bluegrass de Robert Plant. O segredo aí é que, mesmo que Haynes seja tão bom compositor quando Plant, o vocalista do Led Zeppelin tem a seu lado a The Sensational Spaceshift Band, o que faz toda a diferença. Não que a banda de Haynes seja ruim – seria um pecado afirmar algo assim, já que a atuação de todos os seus músicos beira a perfeição em Ashes & Dust –, mas a The Sensational tem uma pegada estilística mais criativa e vanguardista. Assim, canções de Haynes como a balada “Glory Road”, as animadas “Company Man” e “Beat Down The Dust” podem parecer mais pés no chão. Mas não se engane: nada nunca fica abaixo da média neste trabalho, e a média do compositor é bem alta.

Ainda assim, ele consegue elevar o nível criativo na longa “Spots of Time”, outras das músicas que merecem ser ouvidas com atenção. É um exercício de dinâmica e de bom gosto, com um baita solo em escala dórica. Já “Hallelujah Boulevard” é uma balada com a melhor criação de atmosfera do álbum e “Gold Dust Woman”, cover de Flatwood Mac, ganha a participação vocal de Grace Potter. Juntos, fazem a versão soar tão boa quanto a original. E se você achava que faltava mais guitarra com um super timbre no disco, “Words on the Wind” dá o que você queria.

Vale ressaltar que Ashes & Dust tem composições novas e outras que datam de 20 ou até 30 anos atrás, deixadas numa gaveta até agora, esperando para cair nas mãos cuidadosas da Railroad Earth e seu som de banda americana. O tratamento mais rústico e mais rural ajudou a diversificar ainda mais o catálogo de Warren Haynes e entregou um disco que pode não ser o mais criativo de que ele já participou, mas ainda mostra um dos músicos americanos mais competentes da atualidade. Ah, e são quase 80 minutos de disco. Esse cara é uma máquina de fazer sons!

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2 comentários em “Warren Haynes – Ashes & Dust (2015)

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