2015 Folk Resenhas Rock Trilha Sonora

True Detective 2ª Temporada – A trilha sonora (2015)

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Série de Nic Pizzolatto investe em composições inéditas e faz Lera Lynn brilhar sob a luz do decadente bar

Por Lucas Scaliza

“The war is lost / The treat is signed / I was not caught / I cross the line”. Esses quatro versos introduziram todos que, durante os dois últimos meses, acompanharam as jornadas de Paul Woodrugh (um guarda rodoviário fugindo de um passado como soldado de elite de uma organização Black Water no Afeganistão), Ani Bazzerides (uma detetive com distúrbios sexuais), Ray Velcoro (um detetive que caiu em desgraça e luta para pelo menos poder ver o filho mais algumas vezes) e Frank Semyon (um mafioso que é obrigado a voltar a fazer o jogo sujo e ilegal das ruas após ver as economias de uma vida inteira sumirem do dia para a noite). No centro da narrativa está a morte de Ban Caspere – um corruptor de políticos e empresários que administrava a prefeitura de Vinci (cidade californiana fictícia, mas emula os escândalos da real Vernom, também na Califórnia) e também ligado ao submundo do sexo e do crime – e sua ligação com um conglomerado de transportes ávido para lucrar com os contratos inflacionados do governo.

A música de abertura da série é “Nevermind”, tirada do disco Popular Problems que o canadense Leonard Cohen lançou em 2014. Sua voz grave e rouca, o groove minimalista e a letra que deixa entrever violência, fuga e um passado obscuro cai como uma luva para introduzir a segunda temporada de True Detective do primeiro ao último episódio. Versos como “Tive que deixar minha vida para trás/ Cavei túmulos que você nunca encontrará” parece conversar com cada um dos quatro protagonistas.

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T Bone Burnett, o supervisor musical da série, já havia acertado ao escolher “Far From Any Road”, da banda Handsome Family, na primeira temporada (cuja análise da trilha sonora está aqui). Lá, a história se passava nos pântanos e no interior da Louisiana com seus negros, seus caipiras, seus religiosos e suas experiências místicas – tudo muito bem catalisado pelo folk sombrio da música e sua letra. Já “Nevermind” acerta novamente: passo lento e urbana, a música dá o tom da temporada, seus mistérios e sua espacialidade.

Embora a música de Cohen tenha sido cortada para caber nos créditos, ao longo da temporada ela foi apresentada em três versões diferentes. O único elemento que acabou ficando de fora da série foi o cântico árabe de Donna DeLory. “Nevermind” teve um passado como poema (Cohen era poeta antes de virar cantor) antes de virar música, sua origem datando de 2005. E embora a canção seja ótima para a temporada de True Detective, seu real significado pode ser outro. Na década de 1990, Leonard Cohen se tornou um zen-budista e se retirou para um monastério nos arredores de Los Angeles. Assim, a letra pode ser, na verdade, a vista de um monge zen-budista falando da vida e das ações que deixou para trás antes de entrar para o monastério. Ele até trocou seu nome, ficando conhecido como Jikan.

Mas há muito mais na trilha de True Detective para conhecermos. Tem, por exemplo, a faixa “All The Gold in Colifornia” que fecha o primeiro episódio. É um composição de Nick Cave e Warren Ellis que evoca os momentos mais intensos e roqueiros do australiano, cheia de fuzz. Além disso, é uma música feita especialmente para o seriado. Também há a inserção de “The Rose”, uma música romântica e até mesmo meio brega, na interpretação de Conway Twitty, que pontua um dos momentos mais chapados da temporada: o sonho de Ray Velcoro após ser baleado. A situação, o tom da conversa com o pai e aquela música tocando ao mesmo tempo confere à cena um clima digno de David Lynch.

Mas quem rouba a cena musical da temporada é Lera Lynn. A cantora era a responsável pelas trilhas guitarra e voz que sublinhavam as conversas de Ray e Frank Semyon em um decadente bar de iluminação baixa chamado Black Rose. Aliás, as cenas no bar, usado para encontros insuspeitos entre os personagens, rendiam alguns dos diálogos mais interessantes e tensos entre os personagens nos primeiros episódios da temporada. A guitarra de Lera Lynn ia e vinha, às vezes era um dedilhado, às vezes um arranjo fantasmagórico. Sua excelente voz preenchia todo o restante da canção, sem a necessidade de outros acompanhamentos. Lynn acabou virando quase um personagem, uma presença tão marcante que no último episódio fizeram questão de mostra-la ensaiando e depois saindo segurando o case da guitarra, marcando o fim do bar e da relação entre os personagens que pisaram ali e ouviram sua música.

Apesar da ótima trilha da primeira temporada, um disco oficial não foi lançado. Mas a HBO não cometeu o mesmo erro e entregou o disco True Detective (Music From the HBO Series), com alguns highlights das duas temporadas. Lera Lynn é presença constante, tanto da forma econômica como se apresentou na série quanto acompanhada por uma banda completa, ocupando cinco das 14 faixas. Contudo, há muito mais música em True Detective do que foi possível reunir no disco e aí vai uma lista de quase tudo que foi tocado, em que cena e em qual episódio. No geral, podemos dizer que T Bone Burnett, um bam-bam-bam da Capitol Records, continuou apoiando a série em ritmos folk e rock mais alternativos e obscuros. Diferente da primeira temporada, em que todas as músicas foram pegas de outros álbuns, dessa vez a conseguiram fazer com que alguns artistas gravassem especialmente para a temporada.

(As músicas marcadas com * estão no disco oficial da trilha).

spotify:album:1Ow8P4EDhrKflvBfahhWaE

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Episódio 1: The Western Book Of The Dead

“Nevermind”* de Leonard Cohen – abertura

“My Least Favorite Life”* de Lera Lynn – Frank e Ray conversam no bar Black Rose, Ani está no cassino e Paul andando com sua moto. A valsa pontua um momento de desconforto para os três policiais.

“All The Gold In California”* de Nick Cave e Warren Ellis – encerramento. O rock faz alusão aos negócios escusos no sistema rodoviário da Califórnia de que Frank acha que vai participar, lhe rendendo uma boa grana.

Episódio 2: Night Finds You

“Kill!” do The Raveonettes – acompanha Frank enquanto ele entra no clube.

“Always Hatin’ On Me” de G.O.D – Frank, no clube, falando sobre Caspere.

“A Church in Ruins”* de Lera Lynn – mais uma cena no bar. Frank fala a Ray sobre a outra casa de Caspere.

“What a Way to Go”* de John Paul White – encerramento dedilhado no violão, bastante sombrio. Uma interpretação digna de Mark Lanegan e não chega a dois minutos de som na série, mas a música tem três. Sem dar spoilers, a música diz “Que lindo dia para perder tudo/ Que linda maneira de escolher cair”. Vocês lembram qual é a última cena deste episódio, certo?

Episódio 3: Maybe Tomorrow

“The Rose” na versão de Conway Twitty – cena de abertura do episódio. Ray está no bar e conversa com seu pai. Onde ficava Lera Lynn e sua guitarra está um homem de roupa colorida cantando uma canção melancólica de amor. Um contraste um tanto surreal.

“Detox Mansion” de Warren Zevon – música que está tocando no rádio quando Ray acorda. Um rock alternativo e guitarreiro.

“Off Kilter” de Tipper – Ani e Paul na casa do prefeito de Vinci, enquanto conversam com a esposa dele e o filho. Um acid house bem chapado que combina com a personalidade do filho e o estado da casa quando chegam, como se tivessem dado uma festa, mas não houve evento algum ali.

“Set Us Free” do Black Mountain – Paul fala com as garotas de programa. Lembra do nome da organização militar dele no Afeganistão?

“Intentional Injury”* de Bonnie Prince Billy – encerramento com um folk lento.

Episódio 4: Down Will Come

“Can’t Find My Way Home” de Steve Winwood e Blind Faith – acompanha a cena em que Paul almoça com sua namorada e fica sabendo que vai ser pai. Diz que quer casar com ela. A letra emula a relação dos dois e, quem sabe, tem até um presságio: “Alguém tem que mudar/ Você é a razão que estive esperando/ Alguém tem a solução/ Bom, estou perto do fim/ E não tenho tempo/ Bom, tô acabado/ E não consigo encontrar o caminho de casa”.

“It Only Takes One Shot”* de Lera Lynn – mais uma cena no bar entre Ray e Frank, falando sobre os itens roubados da casa de Caspere. A música, arrastada, também encerra o episódio após o trágico tiroteio com os mexicanos que leva o trio de protagonistas a um beco sem saída.

Episódio 5: Other Lives

“Give Me” de Vincent & Mr. Green – Frank no club e no escritório com sua esposa, Jordan. A música é outro eletrônico ácido.

The Only Thing Worth Fighting For”* de Lera Lynn – acompanha Frank deixando o escritório e a conversa de Ray e Ani no Black Rose, claro. É a música que toca no primeiro trailer da série e se tornou uma das mais conhecidas de Lynn desde então. O clima e a voz dela são exuberantes.

“Risk”* de Alexandra Semitone – encerramento. Um rock alternativo e soturno. Até o momento trata-se de uma faixa que só está disponível na trilha do seriado e em nenhum outro álbum.

Episódio 6: Church In Ruins

“Human Being” dos New York Dolls – música rock’n’roll sujinha e despojada que é tocada enquanto Ray Velcoro se enche de cocaína, uísque, cigarro e cerveja em sua casa antes de perder as esperanças de lutar pela guarda do filho. Outra música que cai bem ao momento com precisão cirúrgica de T Bone Burnett. “Ora, se você não gosta/ Vá em frente, fique se achando um santo/ Vá em frente, tente achar um garoto/ Que vai ser o que não sou”.

“Harmonielehre, Part II – The Anfortas Wound”, composição de John Adams; executada por Edo de Waart & a Orquestra Sinfônica de São Francisco – a música fantasmagórica que acompanha Ani Bezzerides pela mansão da orgia. A trilha cria o momento mais diferente dentro da série até agora. Composta em 1985, é uma peça erudita e um estudo de harmonia que incorpora o estilo de Schoenberg, incluindo passagens de grande dissonância, o que só torna a perambulação de Ani pela mansão mais assustadora e surreal, como outra cena famosa do cinema, em que Tom Cruise também vaga por uma mansão de orgia em De Olhos Bem Fechados.

“The Black Angels” do Black Grease – os personagens se reúnem no carro e fogem da mansão. Encerramento. Mais um rock nada comercial, cheio de groove e uma pontinha de psicodelia, mas não o tipo de viagem colorida, e sim uma viagem pesada e meio obscura.

Episódio 7: Black Maps and Motel Rooms

Há um easter egg no final do episódio. Enquanto Ray e Ani se beijam no motel e ao longo da cena em que Burris atira em Paul, um tema de piano é tocado. É o mesmo tema melancólico usado pela série também no episódio 7 da primeira temporada quando Marty e Rust Cohle discutem suas vidas pessoas antes de se separarem em 2002.

Ao que parece, as músicas executadas neste episódio, com exceção do tema de piano citado acima, são todas exclusivas do seriado. Assim que forem identificadas, atualizaremos o post.

Episódio 8: Omega Station

“Lately”* de Lera Lynn – Acompanha Frank pegando as armas no Black Rose, Ray na estação de trem, cenários de estradas e desertos da Califórnia e a cena com Rey, Ani e Frank no bar. Alguns momentos depois, Lera Lynn é mostrada deixando o local carregando o case de guitarra. A música volta a ser executada no final do episódio e nos créditos de encerramento.

Palida Luna” de Lydia Mendoza – Frank fala com Ray sobre fugir para a Venezuela. “Lua pálida, me diga/ Me diga por que dói aqui?/ É no peito, onde fica toda a minha vontade de viver”, diz a letra.

“El Arca de Noé” de Huracán de Fuego – já no fim do episódio, quando Ani está conversando com um jornalista.

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3 comentários em “True Detective 2ª Temporada – A trilha sonora (2015)

  1. amo musicas de series!!!! tinha vários cds só com musicas tipo alias, csi, smallville, dawsons creek e outras… mas as musicas ficaram um tanto estranhas e obscuras…. acho q não dá para ouvir muito e curtir… mas vou ver essa série…

    • Olá, Adriano. As músicas de True Detective são, realmente, estranhas e obscuras. A série é ótima, um exemplo de roteiro, direção e atuação, mas as histórias são pesadas. A trilha das duas temporadas acompanha esses elementos. Seja urbano ou mais bucólico, o rock utilizado na série é sempre o lado B, nada muito animadinho. O destaque da 2ª temporada fica para a Lera Lynn, mas mesmo ela é bem alternativa e nada feliz. Espero que curta a série. Abraços!

  2. Pingback: Anenon – Petrol (2016) | Escuta Essa!

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