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Fito Paez & Moska – Locura Total (2015)

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Disco celebra e promove a integração entre os países irmãos, mas vai além das amenidades

por brunochair

Há muito mais em comum entre Brasil e Argentina do que supõe a nossa vã antropologia. Embora tenhamos nossas peculiaridades, desavenças político/econômicas e rusgas esportivas, o brasileiro (argentino) que procura fazer uma reflexão para além das diferenças enxerga o quanto somos próximos. Somos hermanos, vizinhos de longa data. Corre, em nossas veias, o mesmo “sangue latino”. Nossos interesses e curiosidades são comuns. Ambos respeitamos a cultura do país vizinho, a beleza das cidades, das pessoas, do modus vivendi. Tudo nos impressiona, nos apaixona. E o contato é sempre positivo, respeitoso e frutífero.

Paulinho Moska e Fito Paez são exemplos desse intercâmbio Brasil/Argentina. Ambos possuem carreiras consolidadas em seus países de origem: Fito Paez é o maior ícone do rock argentino; Moska é bastante respeitado no cenário da MPB, além de já ter atuado na televisão e cinemas, e ser apresentador do programa Zoombido, transmitido no Canal Brasil. O que os aproxima? Talvez essa curiosidade por conhecer melhor a cena musical/cultural do país vizinho, estabelecer este diálogo para além das fronteiras.

Para quem gosta de Paralamas do Sucesso, Fito Paez talvez não seja uma novidade: a música “Trac-Trac” do disco Os Grãos do Paralamas é de autoria do Fito Paez. Aliás, naquela época houve um intercâmbio interessante entre o cantante argentino e a banda brasileira, já que o Paralamas excursionou pela Argentina, e Fito Paez esteve pelo Brasil, a convite do próprio Paralamas. Fito Paez também já gravou com Titãs, Caetano Veloso, Djavan e Chico Buarque.

Por sua vez, Paulinho Moska iniciou a sua relação com artistas latino-americanos com o uruguaio Jorge Drexler, ao gravar uma versão em português da canção “La Edad Del Cielo” de Drexler. Após isso, os horizontes de Moska expandiram-se, tendo ele gravado com vários cantores argentinos. Lisandro Aristimuño, Kevin Johansen e Pedro Aznar, que participaram do último disco de inéditas do Moska, chamado Muito Pouco (2010). Paulinho Moska também é responsável por ter promovido dois festivais na cidade de Brasília, em que artistas brasileiros e sul-americanos (Argentina, Uruguai, Colômbia, México) puderam dividir o mesmo palco, num intercâmbio musical nunca antes visto/pensado.

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Ou seja, a ideia de gravar um álbum em conjunto só poderia vir desses dois ícones, desses dois artistas que pensam para além dos seus limites, que buscam sempre o diálogo com o país vizinho. São hermanos, inspirados e inspiradores. E a ideia tornou-se realidade, com Locura Total. Escrito assim mesmo, em espanhol. Em português, escrevemos loucura, mas falamos “locura”, igual aos nossos hermanos. E é essa locura que Paez e Moska compartilham com a gente, esse misto de encontro e celebração, reverência e curiosidade.

No entanto, engana-se o ouvinte que acreditar encontrar em Locura Total um clima de amenidades. Vamos pensar além: não é um disco chocho, que apenas cumpre um papel diplomático. A linguagem popular e palatável está bem condensada, intercalando momentos em que a pop/rock music argentina cruza com a bossa nova/jovem guarda/samba de Moska. O acústico e os silêncios de Moska encontram os ecos, a vivacidade de guitarras e teclados de Paez.

O fazer musical em Locura Total é exposto, e mais – compreendido por ambos. E eles querem que o ouvinte compreenda, também. Por esse motivo, o disco é palatável, é agradável aos ouvidos tanto de um ouvinte que goste de uma pop music, mas também daquele que procura um material mais “substancioso”, com letras complexas, poéticas e que fujam tão somente da contemplação.

O disco (que foi lançado nas versões em português e espanhol) inicia-se com a música “Hermanos”. Aliás, essa música tornou-se o primeiro single do disco. Nela, surge primeiro a voz de Paulinho Moska acompanhado de um violão plugado. Quando a música ganha uma proporção mais “de banda”, Fito Paez começa a cantar. É uma música alegre, mensagem positiva, e com uma carga poética grandiosa. Vale a pena ouvir, deixar-se contagiar pela letra e arranjo:

Para quem desejar apreciar a música na língua castellana, há também a versão em espanhol. Seguindo com informações sobre o disco, “Milagros y Heridas” é um rock contagiante, que tem bastante condição de tornar-se um single radiofônico. “Impossível escrever sobre nada” já possui a arte poética no título, mas não fica apenas no título. A música transpira poesia, estando Moska como protagonista. “Filhos do amor” apresenta um samba gostoso e honesto para o público argentino, assim como “Nuestra História de Amor” apresenta um tango contemporâneo (e um Fito Paez à vontade) ao público brasileiro.

E assim, doze músicas compõem Locura Total. Um disco de Brasil e Argentina, sobretudo de Fito Paez e Paulinho Moska, artistas fundamentais nesse processo de intercâmbio cultural/musical entre estes países irmãos. Trata-se de um trabalho pioneiro dentro da pop music, por lançar um álbum para o público brasileiro, e outro para o público argentino. O disco ficou a cargo da Sony Music, e um dos responsáveis pela produção é o Liminha, que já obteve sucessos com artistas tão distintos quanto Lulu Santos, Daniela Mercury, Gilberto Gil, entre outros.

Moska e Paez provam que, entre Argentina e Brasil, não há melhor: melhores somos nós. Provam que o nosso litoral é tão belo quanto as charmosas ruas de Buenos Aires, e que o vinho argentino harmoniza com a cachaça brasileira. Tudo está harmônico, pois o nosso anseio por conhecer e desfrutar é o mesmo, e nos leva além. Para além de limites territoriais, fronteiras que só existem na esfera do pensamento. “E agora eu não sei onde estou/ e nem quero mais ter razão”*, e assim Paez e Moska provam que melhores somos nós.

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 *trecho da música “Locura Total”

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7 comentários em “Fito Paez & Moska – Locura Total (2015)

  1. Republicou isso em Energia Urbana!e comentado:
    Só estou encantado! Ficou muito bom!

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