Iron Maiden – The Book Of Souls (2015)

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A mesma alma da Donzela de Ferro em um novo e excelente capítulo

Por Lucas Scaliza

O Iron Maiden aora grava com um intervalo maior do que nos anos 80. Foram quatro anos de intervalo entre A Matter of Life And Death (2006) e The Final Frontier (2010). E já passamos cinco anos esperando o sucessor, que saiu da sombra do câncer do vocalista Bruce Dickinson e agora chega ao público da Donzela de Ferro, em parte ávido por novidades e em parte ávidos por uma nova turnê e pelos clássicos do passado.

The Book Of Souls é tanto o Maiden que todos esperam que ele seja quanto o Maiden que começou a se reinventar a partir de Brave New World (2000). O sexteto inglês está afiado e, apesar do rótulo de dinossauros do rock que carregam já há mais de uma década, continuam em forma. Se você vai gostar ou não do novo trabalho é uma questão que depende de alguns fatores, mas principalmente se compreendeu bem a decisão artística do grupo em ser um pouco mais pretensiosa em seus últimos quatro álbuns. Porque The Book of Souls é duplo, tem 92 minutos de música e a composição de suas 11 faixas estão divididas entre cinco músicos (apenas o baterista Nicko McBrain não assina nenhuma). Adam Smith e Steve Harris são os mais creditados.

Até agora, “Rime of the Ancient Mariner” havia reinado suprema como a música mais longa do catálogo do Maiden. A nova “The Red and the Black” só perde para ela por questão de 2 segundos de duração. Mas tudo bem, porque Bruce compôs a derradeira “Empire of the Clouds” que, com seus 18 minutos, torna-se agora a maior música já composta pela banda e talvez assim permaneça até o fim do grupo.

Uma espera de cinco anos de uma das bandas de heavy metal mais populares do planeta merece um faixa a faixa.

“If Eternity Should Fail”: Introdução climática com teclados antes de Harris entrar cavalgando seu baixo no estilo mais clássico da donzela. Bruce em grande forma e três guitarristas bem divididos, sem a necessidade de todos tocarem ao mesmo tempo em todas as partes. As guitarras não se embaralham, nem se amontoam e ainda há espaço para um violão no final, quando uma voz distorcida entra, lembrando as citações de Chemical Wedding (1998), álbum solo de Bruce Dickinson. Embora tenha 8 minutos, não soa como progressivo. Uma composição de Bruce Dickinson que ele pensou em usar em um provável disco solo originalmente.

“Speed of Light”: A música padrão do Maiden, animada, direta, com solo para os três guitarristas.

“The Great Unknown”: A música muda bastante conforme progride. Não vai ser um novo clássico, mas empolga. Tem um andamento bem interessante, alternando passagens mais “soltas” com outras mais quebradas e acentuadas.

“The Red and The Black”: A primeira faixa enorme, com mais de 13 minutos, mostra um Harris criando uma ótima introdução com seu baixo. Mais cavalgadas e guitarras dobrando a melodia de voz. Logo na primeira vez que ouve os “Ôôôs” você já imagina como isso ficará ao vivo. Ao chegar perto da metade temos a seção mais melódica do disco até agora. O senso de composição e divisão de trabalho soa muito maduro. E é logo após a metade, durante um solo, que ela sofre uma mudança rítmica mais brusca. Os timbres, que já vinham dando sinal de melhora desde que “Speed of Light” foi liberada, aqui funcionam bem, marcando indelevelmente a pegada de cada um dos três guitarristas. Eles mantém o 4/4, mas variam os BPMs e trocam de ritmo umas cinco vezes. O rock’n’roll nunca arrefece. Quem não gosta de longas passagens instrumentais vai achar ruim, é claro. Mas é só se desapegar da voz e se apegar à música como um todo para perceber o que a banda quer fazer. Uma das melhores músicas do disco.

“When The Rivers Run Deep”: Se a anterior foi demais para sua cabeça, esta chega para restabelecer a veia hard rock do grupo. Animada, sujinha e ágil. Não tem o melhor refrão e nem os melhores solos. Aliás, parece que sofre da exigência de ter que deixar todos solarem. Contudo, resgata a mesma veia que nos entregou “Can I Play With Madness” e “Holy Smoke”.

“The Books of Souls”: Com este nome, só dá para esperar algo na linha mística de “Seventh Sono f a Seventh Son”. A intro com teclado e violões é ótima. Riffs mais progressivos e sensação arrastada. Leva 2’45” para chegar ao primeiro refrão, mas não decepciona. Bruce canta a plenos pulmões (ou seria diafragma?) e não dá nem pra lembrar que ele teve um câncer há pouco tempo. O primeiro solo, com o efeito wah-wah, soa bem mais alto do que deveria, mas ok. Os outros dois estão equilibrados. Riffs bem rápidos e metaleiros enquanto ouvimos o cowbell de Nicko (ele usa bastante o cowbell ao longo do disco, aliás). Uma sinfonia de guitarras perto do fim.

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“Death or Glory”: Barulhentinha e atropelada, inaugura o segundo disco do álbum. Mais uma daquelas faixas padrão do Iron onde a intenção é entregar uma porrada direta e pesada dentro do que as guitarras da banda conseguem produzir. É muito comum desde os anos 90 guitarristas usarem afinações mais baixas para conseguir sons mais encorpados e graves, mas o Maiden se mantém na afinação standard. Os solos desta faixa funcionam muito bem. Segundo Dickinson, é uma música sobre o aviões triplanos usados na 1ª Guerra Mundial (e sabemos o quanto a temática da aviação é cara ao vocalista).

“Shadows of the Valley”: Introdução muito parecida com “Wasted Years”, mas enquanto o antigo clássico era solar, essa segue um esquema mais pesado e climático. O teclado ajuda a ambientar muito bem a canção, embora sua utilização seja bastante sutil e só sirva para dar aquele gás harmônico no pré-refrão e refrão. Vários solos bem construídos para se adequar à base, inclusive com uma seção onde dois guitarristas soam ao mesmo tempo, cada um com sua frase.

“Tears of a Clown”: Uma ótima introdução, foge dos clichês mais óbvios do metal. É a faixa que compuseram em homenagem ao ator e comediante Robin Williams, que sofria de depressão  e se suicidou em 2014. Uma daquelas demonstrações de como uma faixa mais básica pode soar grande e agradável. É também mais um aceno ao passado da banda e, mesmo a versão de estúdio, tem uma ótima pegada ao vivo.

“The Man of Sorrows”: A faixa que mostra aquela velha dificuldade do Iron Maiden fazer uma balada do começo ao fim. Os dedilhados logo se vão e a faixa parece meio truncada. As curvas rítmicas são mais bruscas do que em “The Red and The Black”, o  que a faz não soar espontânea. Mesmo assim, propõe mudanças harmônicas bem interessantes e inesperadas, ganhando o reforço do teclado mais uma vez. É a faixa que necessita de mais audições até nos acostumarmos com suas mudanças. A última parte da música é uma proposta nova da banda e poderia ter ocupado mais espaço. Já o nome é claramente chupinhado da bela “Man Of Sorrows”, que Bruce gravou em Accident of Birth (1997).

“Empire of the Clouds”: Chegamos ao final da jornada com baixo, guitarra e piano repetindo as mesma notas, sobrepostos. Bruce Dickinson passou grande parte de seu tempo no estúdio compondo esta faixa, primeiro sozinho com o piano e depois com uma mãozinha de Nicko McBrain (o que explica o destaque da bateria em vários interlúdios e pontes). Depois, o próprio Bruce quis gravar o piano de “Empire of the Clouds” e a banda ia acompanhando instruções do vocalista e do produtor Kevin Shirley. É a primeira vez que Bruce grava o piano em um álbum. A música tem bateria imitando tambores e um clima meio medieval. Mesmo com guitarras distorcidas, o piano sobressai junto a interpretação vocal de Bruce, que é a grande protagonista aqui. A canção vai parecer como uma dessas experiências mais europeias como Stratovarius ou qualquer outra banda de metal melódico (mas nunca chega ao power metal, graças ao bom Eddie). Tem uma daquelas seções instrumentais típicas do Maiden: Harris e Nicko seguram o ritmo enquanto os guitarristas fazem frases melódicas repetitivas. Lá pela metade, eles se alternam para fazer os solos, mas poderiam utilizar essas seções para algo mais pretensioso. Mas há várias seções interessantes, como o interlúdio em que guitarra, piano e bateria tocam sincronizados por volta dos 13 minutos. Após 18 minutos, fica a impressão de que a música acaba sem aqueles segundinhos a mais do chiado dos shines e splashes de Nicko. Merecia um cuidado maior neste detalhe.

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O Maiden não é a banda que vai criar uma faixa inteira em função de uma atmosfera. Yes, Pink Floyd, Porcupine Tree, Beatles, Black Sabbath são bandas inglesas que aprenderam a fazer isso muito bem. O Maiden é a banda que vai criar um clima, vai quebrar esse clima e depois voltar a ele no final, construindo elipses. É assim com “Empire of the Clouds”, “The Book of Souls”, “The Great Unknown” e “The Red and The Black”. A banda também se dá muito bem com faixas grandes, propondo partes diferentes para manter a atenção do ouvinte.

Não é o caso de falar que o velho Maiden está de volta, porque o velho Maiden ainda vive em cada disco do catálogo da banda, em cada apresentação ao vivo na memória de milhões de fãs e até hoje toda vez que eles tocam um de seus inúmeros clássicos saudosos. Mas este é um trabalho novo e é novidade que a banda deve apresentar. Ao que me parece, The Book of Souls é uma espécie de Seventh Son of a Seventh Son com o vigor de Brave New World. Não por acaso, o disco foi gravado no GuillaumeTell Studios, o mesmo de Brave New World. E grande parte das faixas foi gravada ao vivo pela banda, com todos tocando juntos na mesma sala, deixando apenas alguns arranjos, solos e detalhes para serem acrescentados depois.

Não é um disco perfeito, mas conseguiram chegar perto disso. Me senti muito empolgado ao longo dos 90 minutos de som. As características que fazem o Maiden estão todas neste trabalho, assim como não abandonaram algumas das coisas que aglutinaram ao som após os anos 2000. São 11 faixas com muito potencial, mas cabe aos fãs agora se desapegarem do passado e abraçarem a banda que conta com seis músicos dispostos a mostrar que ainda podem fazer mais.

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14 comentários

  1. Resenha muito bem construída.
    Porém discordo quando diz que The Great Unknow empolga pois para mim é a faixa mais fraca do álbum.
    Mas concordo quando aconselha os fãs a abraçarem o novo Maiden que começou a se formar depois do também excelente Brave New World, e ainda acrescento àqueles que choram pelo fato da banda abraçar esse novo ar “progressivo” e deixando de “voltar às raízes” nos trabalhos da última década e meia: calem-se pois após Somewhere In Time e Seventh Son… (clássicos hoje mas bastante criticados à época dos seus lançamentos principalmente o Somewhere… ) o Maiden “voltou” às origens lançando o que é hoje o álbum mais esquecido dos “fanrrecos”: o apenas bom No Prayer For The Dying. Portanto sou daqueles que apreciam as várias fases da banda, sem deixar me levar pela empolgação do momento pois em 2006 vários disseram que A Matter… era o melhor álbum desde Seventh Son’ e hoje virou moda moda escurraça-lo.
    E terminando, dou nota 8,8 ao The Book Of Souls.

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