2015 Eletronica Indie Pop Resenhas

Miley Cyrus – Miley Cyrus And Her Dead Petz (2015)

cover

Melancólica e psicodélica, Miley Cyrus fala de fumar maconha, sexo e morte  em seu primeiro disco artístico

Por Lucas Scaliza

Primeiro, a gente se acostumou a enxergar Destiny Hope Cyrus como uma inofensiva personagem. Mas já eram os tempos de Hannah Montana e suas músicas pop açucaradas. Ela assumiu o lado Miley Cyrus e lançou discos pop na sequência, inclusive flertando com o rock. Durante a turnê de Can’t Be Tamed (2010) ela cantava, colocava à prova seu lado frontwoman, tocava guitarra e levava adolescentes ao delírio fazendo um cover de “Smells Like Teen Spirit” para plateias que nem tinham nascido quando Kurt Cobain foi encontrado morto. Ela já tinha provado que não era garotinha e que tinha ambições. Mas quis dar um passo mais ousado.

Quando surgiu em 2013 de cabelo curto, com pouca roupa (já faz dois anos que ela encontrou um novo jeito de se relacionar com o corpo, expô-lo e brincar com os figurinos) e fazendo muitas caretas, muita gente ficou em choque. O modo de romper com a boa moça do passado foi ser chocante. Para acompanhar essa mudança de posicionamento (uma palavra chave no marketing), lançou Bangerz, um disco que musicalmente era repetitivo e não tinha nem a metade da atitude que Miley mostrava ao vivo. No máximo, suas letras tinham palavrões, mas isso não é novidade e nada que o gangsta rap já não tenha forçado a barra. Apesar de ter ficado mais eletrônica e hip hop, Bangerz era ainda um disco pop.

Miley Cyrus e Wayne Coyne, do The Flaming Lips
Miley Cyrus e Wayne Coyne, do The Flaming Lips

Miley Cyrus roubou a cena no VMA de domingo. Tocou “Dooo It” acompanhada de drag queens de um seriado americano. Uma música que usa o booty bass, o ritmo de ênfase no groove e na percussão que mais tarde seria importado de Miami pelo Brasil para lançar as bases do funk carioca. E ao vivo ela dizia que gostava de maconha, por meio dos versos da música. Essa é a música de abertura de Miley Cyrus And Her Dead Petz, seu disco independente lançado de graça logo após o VMA.

Sem brincadeira agora: trata-se do primeiro disco realmente artístico de Miley Cyrus. Com apenas US$ 50 mil (nem 1% do que gastou em Bangerz) e com a ajuda de Wayne Coyne e seus comparsas do The Flaming Lips, o disco está lotado de momentos melancólicos, tristes mesmo, com aquela psicodelia pop que Coyne sabe tão bem construir. Ela já tinha contribuído com o Flaming Lips no álbum With A Little Held From My Fwends (2014), que recriou de maneira chapada todo o clássico Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band (1967) dos Beatles, com Miley ajudando nos vocais em “Lucy in the Sky With Diamonds” e “A Day In The Life”.

Não é surpresa para ninguém que a banda de Oklahoma é uma usuária de drogas confessa. Quando a menina se aproximou deles, era claro que havia mais do que apenas música em jogo. Mas agora essa relação narcomusical de Miley e dos Lips produziu um disco estranho, docemente viajante, azulado e que nada tem a ver com o que a jovem produziu anteriormente.

Após “Dooo It”, fiquei esperando outras levadas animadas para shows animadinhos. O que ouvi na sequência foram músicas com noção de profundidade sonora que misturam sintetizadores e instrumentos acústicos, aproveitando a voz de Miley (quase sempre com reverb e eco) para músicas tristes: “Karen, Don’t Be Sad” ao chegar ao refrão fica ainda mais down; “The Floyd Song (Sunrise)” é delicada, sobre o cão da cantora, que morreu atacado por coiotes em abril do ano passado; “Something About Space Dude” é toda levada pelo violão e NUNCA fica mais dinâmica ou upbeat. A ótima “Space Boots” tem mais som e força de percussão, mas mesmo assim não é feliz. Não chega nem perto!

O disco tem 23 músicas e 92 minutos, o mesmo tempo total que o novo disco do Iron Maiden, The Book of Souls, para vermos em que pé está a pretensão da garota. As mãos de Wayne Coyne pesam em todo o álbum, garantindo que a psicodelia esteja presente de um jeito ou de outro. Mas não é a psicodelia pesada e industrial dos últimos discos do Flaming Lips, como The Terror (2013) e Embryonic (2009), mas a onda feel good e bonita de At War With the Mystics (2006) e The Soften Bulletin (1999). E apesar das contribuições de Coyne, Steven Drozd (também do Lips) e outros poucos parceiros, Miley Cyrus está creditada como compositora de todas as 23 letras do disco, tendo escrito 10 delas sozinha. Co-produziu 11 faixas e outras duas (as baladas de piano e voz “Pablow The Blowfish” e “Twinkle Song”) receberam um trato final só dela.

Se Bangerz musicalmente não serviu para levá-la muito longe do pop das massas, servindo mais como veículo de uma nova roupagem (literalmente) de sua persona, é difícil saber o que exatamente ela almeja com Miley Cyrus And Her Dead Petz. O público arrebanhado por ela até agora não faz ideia de quem sejam os Flaming Lips e provavelmente não têm paciência para ouvir uma hora e meia de músicas melancólicas como a arrastada “Fweaky”, a viagem pesada da incrível “Cyrus Skies”, ou o R&B chapadíssimo de “Slab or Butter”, a climática e tensa “Tangerine”, ou a vintage eletrônica “Evil Is But a Shadow”. Mas, ao mesmo tempo, ela se afirma como artista que sabe falar de si mesma e criar algo esteticamente diferente e mais desafiador. É com trabalhos assim que passamos a enxergar melhor suas capacidades. A RCA Records liberou Cyrus para fazer este disco independente, mas é quase certo que seu próximo lançamento pela gravadora será algo musicalmente mais adequado para o público jovem.

Existem algumas músicas mais fortes no álbum, mas não espere nada com o jeitão acessível de “Wrecking Ball”, ok? “Bang Me Box”, um puta funk estilo Prince, com uma baita linha de baixo, é a faixa que vai ficar famosa por ela falar sobre seu lado lésbico. A letra é bem explícita sobre o ato de lamber a genitália feminina e suas derivações. Há também a bela balada “I Get So Scared”, talvez uma das mais acessíveis do trabalho, e “Lighter”, com produção mais próxima do Chvrches do que do Lips e com cara de anos 90. “Tiger Dreams”, com participação de Ariel Pink, também chama a atenção, mas é muito pouco cristalina para qualquer FM, embora seja um grande faixa. “1 Sun”, com jeitão de acid house, é mais colorida e suas batidas ajudam a animar um pouco as coisas.

Miley Cyrus And Her Dead Petz deixa claro o abismo que existe entre música boa e música boa o bastante para as rádios. Pouquíssima coisa aqui cabe no caldeirão do mainstream; e a mesma jovem que fez “Wrecking Ball”, “We Can’t Stop”, “Who Owns My Heart”, “7 Things” e “See You Again” tocar pra valer não consegue ter muito canal de massa (além da própria internet, claro) para mostrar o que fez em seu disco mais artístico e diferente. Bangerz não é tão distante assim de Can’t Be Tamed e Breakout, musicalmente falando. Já este…

As coisas estão mudando rápido ao redor de Miley Cyrus. Desde as pessoas com quem se envolve até a música que produz e as opiniões que ganham os tabloides e redes sociais. Ela diz, agora, que seria difícil voltar ao mainstream. “Não acho que vou crescer assim. Seria como andar para trás”, ela afirma, porque muita gente do meio disse que nunca viu “alguém com tanta liberdade”. E para que ninguém confunda o seu eu atual com o do último álbum, ela diz: “Essa música nunca teve a intenção de ser uma revolta. É para ser um presente”.

5 comentários em “Miley Cyrus – Miley Cyrus And Her Dead Petz (2015)

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