2015 Resenhas Rock

Gentle Knife – Gentle Knife (2015)

Gentle-Knife-2015-Gentle-Knife

Primeiro disco dos noruegueses aposta em harmonias bonitas, fusion e produção retrô

Por Lucas Scaliza

O grupo norueguês Gentle Knife se define como uma banda de rock progressivo com raízes no rock clássico de 1970. E mesmo que não se definissem assim, ouvindo Gentle Knife, o primeiro trabalho dos músicos, é possível perceber com exatidão e clareza que bebem na fonte do Yes e reverenciam a corte do Rei Rubro. Apesar de anunciarem que tem tentam trazer modernidade ao gênero, ela não chega perto das experiências promovidas por outros grupos noruegueses, como Ulver e Gazpacho. Pelo menos este álbum de estreia se mantém em terreno bem seguro, folk de um lado e fusion de outro.

São dez músicos ao todo. Os vocais são divididos entre Melina e Hakon, as guitarras ficam por conta de Ove Christian, o baixo é de Odd e a bateria de Ole Martin. O grupo ainda conta com a flauta de Astraea, o trompete de Pal, o sax tenor de Thomas, os sintetizadores de Eivind e todo o know how tecnológico de Brian, que opera os samples e as projeções visuais que tornam a banda visualmente atraente ao vivo. Mesmo com todo esse time, eles não tentam se atropelar. Gentle Knife é límpido, nunca ruidoso, dividindo bem a participação de cada músico, não permitindo que faixas tão bonitas se tornem uma massa sonora pesada. Nesse aspecto, são o oposto do Currents do Tame Impala, que foi gravado pelo Kevin Parker sozinho e não raro tem ao mesmo tempo mais instrumentos em execução do membros na banda.

gentle knife 2015

“Eventide” é abertura com 10 minutos, lenta e bonita, meio The Flower Kings, meio Yes. A divisão de vocais de Hakon e Melinda é muito eficiente e traz mais um ponto interessante para a musicalidade do grupo. Ambos cantam com vozes límpidas. Hakon tem todo o timbre de um vocalista de prog vintage do naipe do King Crimson; já Melinda é ótima com os tons mais altos. Na sequência, “Our Quiet Footsteps” é bem mais progressiva, mostrando maior variação dinâmica e longas passagens instrumentais. É classuda com seus 12 minutos de duração. Embora a guitarra participe mais aqui, não chega a ser agressiva. Trocas de compasso e partes bem ao gosto do prog e do jazz fazem parte da receita. O sax é abstrato e ruidoso em seu improviso, não criando um solo propriamente dito.

“Remnants of Pride” é uma faixa interessante, com mais força do que as anteriores, mas não abandona os elementos prog e fusion. São faixas assim, levemente mais caóticas e com arranjos mais abstratos, que faltaram ao Kaipa, talvez. Já “Tear Away The Cords That Bind” mantém o ritmo forte do começo ao fim, a primeira faixa mais pesada e também a composição mais linear do álbum. Bateria e baixo mantêm o ritmo marchando religiosamente, martelando bem na cabeça do tempo. Uma faixa com um jeitão bastante anos 70. O Gentle Knife reverencia os anos 60 e 70 de verdade com “Beneath The Waning Moon”. Flauta à Jethro Tull e uma bonita harmonia viajante nos teclados enquanto é possível ouvir um dedilhado de violão e longas notas de guitarra no meio da mixagem. O baixo, que é o instrumento que mais soa retrô no disco, perfaz uma boa base ao longo da balada. “The Gentle Knife” é a faixa mais acessível do trabalho e que não exige ouvido para ritmos quebrados ou riffs complexos. É também a última faixa com vocais do trabalho.

Em sua reta final, os noruegueses entrega a sua melhor música de Gentle Knife. O sintetizador que domina a introdução de “Epilogue: Locus Amoenus” (e permanece presente ao longo de toda a música) usa acordes mais tensos, digno de trilha sonora de ficção científica. Até aqui, o álbum foi bastante regular, sem muitos desvios estilísticos. Essa intro é a coisa mais diferente que a banda propôs. Aí entra um solo de violão e a coisa vai se mantendo interessante até o final de seus 8 minutos de duração. “Coda: Impetus” tem um arranjo em 7/4 que qualquer jazzista de mão cheia adoraria usar para mostrar toda a sua versatilidade. Uma boa faixa, mas talvez falte um desprendimento da técnica para deixar a música fluir mais livre, como Steven Wilson faz em sua instrumental “Sectarian”.

Gentle Knife, como é bem ao gosto dos roqueiros progressivos, é um álbum conceitual. Narra a jornada que deverá revitalizar a vida de um homem, tirando-o do tumulto da cidade, levando-o até a profundeza de uma floresta sedutora e fazendo-o dar um passo para dentro do. Como o disco não é pesado e nem vertiginoso, o tumulto da cidade não está muito bem representado nos sons que ouvimos ao longo das primeiras faixas. Já a floresta pode ser traduzida nas sensíveis vibrações de “Beneath The Waning Moon”. É provavelmente na faixa “Epilogue: Locus Amoenus” que nossa história salta para o desconhecido. É a melhor ambientação criada em Gentle Knife e realmente parece que entramos em outro reino.

De forma geral, é um disco que aposta na segurança do rock progressivo europeu. Tem a inclusão bem vinda de abstrações e passagens mais jazzísticas, mas nada que vá fazer marejar as pupilas de um apreciador de King Crimson, Frank Zappa ou Genesis. A banda ainda poderia ter ido mais fundo na experimentação e na exploração. Técnica e confiança eles mostram que têm. Os vocais funcionam, mas não são a parte mais importante do disco. É o som que conta mais pontos para o Gentle Knife. No entanto, o ímpeto de ser bonito e elegante espanta a visceralidade e é um pouco disso que sentimos falta nesse primeiro disco. No final, aí está uma banda que vale a pena conhecer e um disco que é bom. Só falta um pouco mais de força e poder de fogo, mais ou menos como os italianos do Barock Project demonstraram com Skyline.

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1 comentário em “Gentle Knife – Gentle Knife (2015)

  1. Disco muito bom e uma ótima resenha.

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