2015 Folk Indie Resenhas Rock

Will Johnson – Swan City Vampires (2015)

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Os silêncios, os ruídos e a simplicidade

Por Lucas Scaliza

Will Johnson é um cara esperto. “Paradise, Basically” é a ilustração perfeita da melancólica capa de Swan City Vampires. De dentro de um carro, uma curva na estrada, é inverno e o limpador de para-brisa passa deixando um borrão na fotografia. Montanhas, floresta, um pinheiro bifurcado e careca, gótico e solitário. A faixa pinta com distorção sintética, guitarra limpa e piano uma versão muito distorcida do paraíso. Sabemos então que o caminho para o Éden de Johnson, o front man do Centro-matic (que encerrou as atividades em 2014), não será um lugar de anjos e harpas. “Call, Call, Call” é o indie rock que não se apoia em refrãos e a bateria rouba a cena. “Querida, não vire uma consequência”, ele pede. “You vs. Off The Cuff” seria um folk dos mais clássicos, homem e violão, mas tem uma nota vacilante que ressoa durante toda a música, como uma dor que está sempre ali, mesmo quando você já se acostumou com ela. Bem, não foi apenas a banda que Will perdeu. Sua mãe também se foi não faz muito tempo. “Nameless, But a Lover” é outra canção que trabalha diferentes aspectos do som: a princípio há a guitarra carregada de fuzz; em seguida, os versos soam ocos, com a voz de Will e apenas a bateria. Muito dos espaços mais áridos de Swan City Vampires, assim como o tipo de folk rock praticado por ele, ficam muito próximos de Afraid Of Ghosts, o ótimo disco do Butch Walker.

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Swan City Vampires tem a delicadeza de quem carrega cicatrizes. É um disco de muitos humores, às vezes mais elétrico e cortante, às vezes mais acústico e terno, dispensando a percussão. “(Made Us Feel Like) Kings” é a ponte segura, de violões e piano, que nos leva até a valsa country instável que é “Pulleys”, onde o baterista Matt Pence dá outra demonstração de como bate forte e rusticamente enquanto acompanha o pedal steel de Rick Ray Jackson e cria outro momento de dinâmica alta, como em “Nameless, But a Lover”, mas dessa vez com mais curvas pelo caminho. As letras são pequenas, caberiam numa caixinha, e cheias de momentos para imaginar as histórias pessoais que vão na bagagem de Will Johnson. “E um brinde a todos os quilômetros que nos fizeram nos sentir como reis/ E uma graciosidade a todos que ficaram”. Para quem precisa de um tempo sozinho, “It’s a Pretty Fucked Skyline Now” é companhia. Dura pouco, pois logo temos que cair na estrada de novo. E é em “Multnomah” que Will segue em frente, enquanto lembra, quem sabe, das desavenças que levaram ao fim da banda e diz que não é da amizade que sente falta, que só queria que um certo “você” tivesse mudado de ideia.

Em alguma curva de uma estrada dos Estados Unidos está um bar. Mulheres, cervejas e uma divagação. “Thug Life Pt. 2” é a segunda música que se permite ser menos melancólica e mais relaxada. Veja bem: menos. Will Johnson cria um ambiente alegrinho como quem tomou umas e outras, mais ainda tem aqueles problemas conduzindo seus pensamentos – e a quantidade de álcool que cai no copo. Retomando a vida a passos lentos com “The Watchman”, o violão levemente distorcido, a voz não ressoa. “Mas vou encontrar a bondade atrás das portas que estão dentro de mim/ Sei que vou ver a bondade em todos que encontro” ele canta. A música, bem simples, é quase monótona. Sua voz não cresce nem ao cantar “Quer ter a força do coração da minha mãe/ Quero ter a temperatura do coração da minha mãe/ Quero ter a bondade do coração da minha mão/ Espero ter o amor do coração da minha mãe… um dia”. Só quando o lamento termina é que a guitarra ressoa, pungente, poderosa, abrindo caminho para todos os sentimentos de Will Johnson. Não é redenção que ele busca, de forma alguma. Ao chegarmos a “Chalked Lines/Waxed Sun” o tempo parece abrir em um belo dedilhado. Apenas Will com o violão e Jackson com o pedal steel. Swan City Vampires termina. Foi uma bela companhia pelo lado mais triste dos últimos anos do compositor e também seu disco mais cru. Às vezes apenas com silêncios e alguns ruídos indigestos se pode transmitir os sentimentos mais verdadeiros, deixando um monte de buracos na estrada para tentarmos interpretar. Ou só seguir em frente.

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