2015 Metal Resenhas

TesseracT – Polaris (2015)

polaris_cover

Ascendente nome do metal progressivo inglês, TesseracT faz disco dinâmico e emocional

Por Lucas Scaliza

Se você é um entusiasta da nova safra de metal e rock progressivo, talvez já tenha se deparado com o nome do TesseracT, uma estrela ascendente nesse segmento, principalmente por causa dos riffs porradas e extremamente técnicos criados pelo guitarrista Acle Kahney que ficaram conhecidos como djent, muito usado por bandas mais extremas, como o Meshuggah. O djent virou até um estilo de metal, embora exista quem defenda que djent é uma técnica, não um tipo de música.

De qualquer forma, a banda não tem nem 10 anos de estrada e já mostra uma evolução considerável. Da parede de som pesado de One (2011) para o mais balanceado Altered State (2013), cortando de vez do som o vocal gutural e rasgado, adotando a voz limpa como padrão. Para gravar Polaris, o terceiro disco de estúdio da banda (que também possui dois EPs e um ao vivo), a banda recrutou o vocalista Daniel Tompkins que já havia feito parte da banda e gravado One. Mas o disco não se parece em nada com o primeiro.

tesseract_polaris_2015

Começa com “Dystopia”, uma ótima faixa para apresentar a banda e o conceito do álbum, cheio de intensidade e os característicos riffs do grupo. Não há como não reparar no teclado que envolve a canção, mas sem de fato entrar na competição pela harmonia e pela melodia. O instrumento se mantém como um pano de fundo, uma presença, uma aparição. E como a dinâmica sobe e desce a todo momento, o teclado garante a existência de tensão em cada composição.

“Hexes” é uma balada de início e vai sutilmente se transformando e ganhando um peso mais próximo do metalcore. É quando o teclado e a guitarra de James Monteih criam uma parede sonora sofisticada. É quase como se não estivessem lá, mas você sente a pressão. Antes de chegar ao ápice do peso, há uma passagem um tanto fantasmagórica. “Survival”, por outro lado, já começa lá em cima e depois cai para um verso cheio de baixo. As sonoridades se mantém bastante joviais e modernas. Os timbres estão ótimos, aproveitando o peso das afinações mais baixas de guitarra e baixo.

O guitarrista é quase sempre o destaque de uma banda de metal e não seria diferente com o TesseracT, principalmente por causa da técnica djent, que Kahney ajudou a desenvolver e a divulgar. Mas Polaris e os demais trabalhos do grupo tem um outro protagonista: Amos Williams, o baixista. São incríveis as levadas que ele desenvolve para ditar o ritmo das coisas e segurar todas as pontas. O baixista do Muse, Christopher Wolstenholme, também desempenha um papel parecido, mas aqui o esquema é mais complexo, os ritmos mais quebrados, e Williams cumpre a tarefa com maestria sem precisar parecer um louco virtuoso. Ele está perfeito em praticamente todas as faixas.

“Tourniquet” seria a balada do álbum. É uma música cujo pulso é segurado pelo baixo. O dedilhado de guitarra é como uma abstração, a bateria não é rock, emula o que um programador faria em uma balada eletrônica minimalista, mas sentimos cada batida do baterista Jay Postones. Toda essa parte tem um jeito quase onírico. E sim, chega à metade e ela explode.

Existe um recurso de dinâmica que a banda utiliza à exaustão: aumentar a pressão e a dinâmica das guitarras e dar mais volume ao teclado, mas manter as acentuações da bateria em uma contagem lenta, dando a impressão de que algo acelerou, mas a base continua suave, lenta. E voilà: temos uma sensação esmagadora de intensidade nos atingindo. “Utopia” é outra das boas, com uma ótima passagem de baixo em compassos alternados complicados. No final, um flerte com o nu metal e uma pegada mais hip hop. “Phoenix” é quase uma música pop, mas em roupagem do TesseracT, com vocal alto, parede sonora, riff, idas e vindas de peso e dinâmica. É uma dessas músicas que parecem querer chegar o mais alto possível na escala celestial.

“Messenger” apresenta o TesseacT mais próximo do tradicional com seus riffs quebradões em 7/4 e guitarra pesada dando socos. “Cages” é a primeira a colocar uma bateria eletrônica, e o teclado continua na dele, incomodando ali no fundinho, quase sem a gente perceber. As músicas quase todas uma hora crescem para valer e caem de paulada, mas é possível sentir a tensão crescendo. A ótima “Seven Names” fecha o repertório entregando mais uma música lenta a princípio e que cresce até virar um tsunami polirítmico e arrefecer para terminar o trabalho.

Polaris é o mais curto lançado pela banda até agora e o mais lírico, investindo em texturas diferentes tanto quanto em Altered State. As faixas, TODAS, usam praticamente os mesmos recursos, quase como se as elas devessem fazer sentido todas juntas, não individualmente. Há muito sobe e desce para conduzir as emoções do ouvinte, e o efeito montanha-russa que isso causa é potencializado pelo desenvolvimento de cada faixa, sempre não linear, fugindo da óbvia estrutura verso-refrão-solo-refrão (embora exista, sim, versos e refrãos nas músicas). Também há um maior desprendimento dos riffs djent. A técnica ainda é apurada, mas nada maçante como era em One, uma parede de riffs pesados ao estilo Meshuggah.

Conta a favor da banda (e do álbum) o fato de ser um trabalho que pode muito bem apresentar a banda para um público que ainda não a conhece. É realativamente mais acessível que os anteriores sem abrir mão dos elementos mais importantes que fizeram o TesseracT começar a ser reconhecido no metal progressivo europeu. Nessa caminhada musical, a banda soube não repetir o mesmo som duas vezes, sempre propor algo novo e dosar muito melhor melodia e peso, se apegando um pouco menos à técnica e dando mais espaço para a emoção. Dessa forma, seguem uma linha de amadurecimento artístico comparável com a evolução de grandes bandas como Beardfish, Riverside, Opeth e Pain of Salvation.

spotify:album:7aFuNkjumeRht9zAwLW7Mw

tesseract_2015_polaris

Anúncios

0 comentário em “TesseracT – Polaris (2015)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: