2015 Folk MPB Nacional Pop Soul

Josiel Rusmont – desCONSTRUindo as canções (2015)

josiel rusmont - desconstruindo as canções

Segundo disco de Josiel Rusmont revela certezas e propõe desconstruções

por brunochair

O amor em um segundo de lucidez, o céu em camadas e em cor de vestidos, a prata nos cabelos, o relato de um violeiro, o olhar cativante e penetrante, o lúdico dos sonhos e tantos outros movimentos de beleza e de total veracidade permeiam o segundo disco de Josiel Rusmont, desCONSTRUindo as canções. Se em A Dúvida na Estrada Josiel começava a sua carreira solo compartilhando um trabalho bonito e repleto de dúvidas, neste segundo álbum notamos maior confiança e precisão em arranjos, composições e perspectivas.

A dúvida deu lugar a certeza(s). Há muitos sims, seja nas letras, nos arranjos e no momento de vida de Josiel. Tanto é que o álbum quase veio a se chamar Só O sim. Porém, Josiel preferiu adotar o nome desCONSTRUindo as canções em razão da forma pela qual composições e arranjos foram tomando forma, no decorrer do disco. Como exemplo, podemos citar a afinação aberta do violão em diversas músicas, não seguindo o padrão costumeiro de afinação E-A-D-G-B-E, portanto.

Desconstruir a canção é pensar a música não como algo estático. A procura é movimento, e o movimento é desconstrução. Seguindo este mesmo compromisso de desconstrução estão envolvidos os demais componentes da banda que acompanha o Josiel neste novo trabalho: Adriel Felipe (bateria), Fernando Lima (baixo), Elaine Martins (backing vocal), Rogério Plaza (pianos e órgão). Rogério Plaza também assina a direção musical, bem como a produção do disco – em conjunto com Josiel Rusmont.

As músicas surgem da poética do cotidiano, do fazer humano, de momentos inesperados. A primeira música do disco (“3 Céus”) surgiu de uma tarde comum para Josiel. O filho Giuseppe chamou o pai, que estava imerso em questões “de adulto”, para ver uma coisa lá fora. “Olha, pai! Tem três céus no mesmo céu!”. O convite para ver além de um céu comum estava dado, e realmente havia três camadas de céu no céu: o azul servia de recheio para o branco das nuvens, acima, e o acinzentado (abaixo), que anunciava uma possível chuva. Giuseppe mostrou ao pai uma nova visão, o céu poético, uma nova perspectiva de encarar a vida – “um novo olhar para o pouco que sabemos/ ainda é muito pouco/ diante de tudo o que existe”.

A segunda música do disco (“Prata nos Cabelos”) tem como fonte de inspiração “Gostava Tanto de Você”, do Tim Maia. Das poucas músicas em que Josiel deixou de lado o violão folk e empunhou a guitarra, ela traz muito do funk e soul dos anos 70. Interessante observar o quanto desCONSTRUindo as canções tem um viés da boa pop music: apresenta músicas com referenciais de estilo distintos, mas há um clima dançante em boa parte delas, como é o caso também da canção “Seus Olhos”. “Ainda Bem Que Somos Reais” tem o folk no violão, um órgão que rememora tanto Wallflowers (década de 90) quanto Steely Dan (década de 70), enquanto baixo e bateria seguem a funk music.

“Sementes Para Um Dia D” possui uma bateria impactante que, somado ao folk do violão e a intervenções precisas de piano, fez da música uma das melhores do disco. Essa música faz lembrar (em alguns momentos) “Where The Streets Have No Name” do U2. A forte presença da bateria está também em “3 Céus”, e é movida a elementos rítmicos africanos. “Na Terra do Nunca”, por sua vez, traz uma carga lúdica que já é sentida nos primeiros acordes. E é a primeira música do Josiel com esse conteúdo mais infantil, abrindo ao artista uma nova perspectiva de público e de inspiração.

“Entenda” foi apelidada por este resenhista que vos escreve como um “folk mato-grossense”. Ao mesmo tempo que sentimos a presença da folk music mais uma vez em desCONSTRUindo as canções, há um quê de Renato Teixeira e Almir Sater na forma de Josiel cantá-la.

Em um disco em que há muito mais certezas do que dúvidas, nada mais justo termos uma canção chamada “Sim”. E esta canção consegue exemplificar bem como o álbum trabalha também com a calmaria e os silêncios. A introdução da música traz uma tranquilidade e uma fruição deliciosas, e fez lembrar algumas músicas do Hey Na Na d’Os Paralamas do Sucesso, sobretudo as músicas que estão no fim do disco, como a belíssima “Um Dia em Provença”.

Já “Odisseia de um Violeiro” é a canção que talvez tenha o maior teor político dentro de desCONSTRUindo as canções. É a narrativa deste violeiro vindo para uma cidade grande, com todas as implicações sociais e culturais decorrente disso: dificuldades de adaptação, de poder apresentar a sua arte e ser reconhecido por ela. Há um maracatu no pós refrão.

“Vem Morar Comigo” possui uma história bacana que a envolve: uma amiga de Josiel que, após acreditar que terminaria a vida sozinha, acabou por encontrar alguém que lhe desse o amor e a companhia. “Olhou e se Lembrou” também tem uma história bastante emocionante, que é sobre o olhar lúcido de alguém que possui o mal de Alzheimer. Como mensurar o que são esses segundos de lucidez para quem cuida de uma pessoa portadora dessa doença? Um segundo de olhar lúcido, sentimento eterno de gratidão. “Eu vou pegar a caneta” fez lembrar muito o álbum Parachutes do Coldplay, especialmente as músicas “Don’t Panic” e “Sparks”, e termina de o disco com uma canção mais introspectiva.

Como o próprio Josiel afirma, a sua “missão” enquanto artista é a de oferecer o lúdico consciente, como forma de revolucionar. Desconstruir as canções implica também em desconstruir paradigmas e visões viciadas no mundo. Desconstruir significa refletir e sonhar, ao mesmo tempo. E é desconstruindo que Josiel Rusmont nos apresenta as suas novas canções, para que possamos refletir e sonhar, ver o céu de outra forma, observar o olhar perdido no infinito do tempo, compreender o sim e o sim, entre outros belos momentos da vida e da arte.

Fica o convite para desconstruir(mos).

josiel rusmont - desconstruindo as canções1

http://www.deezer.com/album/11724194

https://play.google.com/store/music/album/Josiel_Rusmont_Desconstruindo_as_Can%C3%A7%C3%B5es?id=Bsxw7cpmtqvieuibzlzqyr6wshu

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