2015 Metal Resenhas

Children of Bodom – I Worship Chaos (2015)

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Um disco que volta a mostrar como Alexi Laiho sabe dar ênfase às composições

Por Lucas Scaliza

Conheci o Children of Bodom quando lançaram seu terceiro álbum, Follow The Reaper (2000), com clipes que mostravam florestas finlandesas, um metal bastante vigoroso e cenas da morte – uma figura encapuzada, misteriosa e munida de uma foice bem grande e afiada – perseguindo pessoas. Era uma imagem bastante impressionante para aquela época e idade. Mas, como quase tudo que pretende causar uma impressão ruim, a repetição de temas e de imagens da banda acabou esvaziando um pouco seu significado e hoje essa agressividade e violência é digerida como entretenimento, sem causar impacto. A discografia da banda também teve altos e baixos. Follow The Reaper e Hate Crew Deathroll (2003) estando entre os melhores álbuns do catálogo e Are You Dead Yet? (2005) e Halo of Blood (2013) entre os que menos impressionam.

Eu não esperava grande coisa de I Worship Chaos, apenas mais um disco mediano e no piloto automático de Laiho, nos moldes de Halo of Blood, que é competente, mas mais do mesmo. Ao colocar o novo disco para rodar, fui surpreendido logo pela primeira faixa, “I Hurt”, que propõe diversas partes diferentes, um clima bem trabalhado e riffs poderosos. E o disco é excelente, no final das contas. Alexi Laiho, vocalista e guitarrista do grupo, está colocando a qualidade da composição novamente em destaque, propondo faixas que fogem da obviedade e funcionam.

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“My Bodom (I am The Only One)” é mais direta ao ponto, mas ainda assim empolga e consegue propor diferentes partes, com direito a solo de teclado seguido de solo de guitarra. As guitarras afinadas um tom e meio abaixo do padrão (sendo que a sexta corda desce um tom a mais) soam rascantes, ricas em tons médios, acompanhando o insano vocal agressivo de Laiho. Uma dessas faixas que deve levantar qualquer público ao vivo. As faixas não passam dos 5 minutos, mas Laiho aproveita muito bem o espaço de que dispõem para fazer caber várias ideias diferentes, tal como um Mikael Ackerfeldt, do Opeth, que em Pale Communion (2014) propôs faixas mais curtas e ainda assim cheias de arranjos e partes interessantes.

Com cara de single, “Morrigan” traz os teclados de Janne Wirman para a frente enquanto mantém um pulso mais firme e menos quebrado. “Horns”, outra bem direta e que sabe propor peso, com uma boa utilização do bumbo duplo e do baixo extrapesado de Henka Seppälä em alguns momentos. “Prayer For The Afflicted” diminui a velocidade, o vocal fica mais arrastado e o instrumental, consequentemente, soa mais sinistro. A faixa-título, “I Worship Chaos”, é densa e mostra mais riffs poderosos de Laiho e toda a potência de Jaska Raatikainen por trás do kit de bateria. Cabe ressaltar que após a saída de Roope Latvala, Laiho gravou o disco respondendo por todas as guitarras que ouvimos. Para as apresentações ao vivo, ele recrutou o reforço do guitarrista Antti Wirman, irmão do tecladista Janne (mas Antti ainda não foi declarado como novo membro oficial).

“Hold Your Tongue” e “Suicide Bomber” são uma dupla bastante destruidora, ambas com instrumentos afinados um tom acima das demais (em drop C#). A primeira aposta na pancadaria, enquanto a segunda ressalta as qualidades melódicas que o estilo Children of Bodom sempre prezou, principalmente quanto ao uso do teclado. A lenta “All For Nothing” é outra dessas que surpreendem: na introdução, Laiho suspira guturalmente, como uma alma atormentada, algo difícil de se ver dentro do death metal. O piano de Wirman cria toda a ambientação romântica da faixa. E “Widdershins” é uma pauleira lascada que fecha I Worship Chaos. Antes de terminar, voltando aos ruídos de “I Hurt”, propõe uma passagem densa, com ritmo socado e distorção esmagadora, evidenciando a afinação mais baixa do instrumento. Uma faixa até que básica, mas com final espetacular (e simples).

E claro que Laiho encaixou mais covers na versão estendida do álbum. A banda, que já fez cover de Britney Spears e Roxette (bom, eles têm um disco só de covers no catálogo), dessa vez reinterpretou Mistress of Taboo (Plasmatic), Danger Zone (Kenny Loggins) e Black Winter Day (Amorphis), todas sem a violência e escuridão das faixas oficiais de I Worship Chaos, exercitando o lado mais divertido do grupo.

Alexi Laiho se mantém a fiel a si mesmo, ao estilo de death metal que criou com o Children of Bodom e, apesar de ser um bom compositor, não é daqueles que tenta subverter o gênero ou desenvolvê-lo para fora da própria redoma do heavy metal. Já resenhamos aqui o New Bermuda, do Deafheaven, que extrapola os limites do black metal, agregando post-rock e shoegaze à sua sonoridade, sem deixar de fazer sentido à proposta de escuridão e depressão da banda. Mesmo sem invencionices técnicas e/ou estéticas, o Children of Bodom segue compondo bastante, mantendo uma regularidade de lançamentos desde a fundação do grupo, e propondo pequenas mudanças que não comprometem o estilo, porém mostram que criatividade importa. E isso faz com que I Worship Chaos importe mais para nós também.

spotify:album:4ueVDXj2vtK7Q56mX8J1H3

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1 comentário em “Children of Bodom – I Worship Chaos (2015)

  1. Belo texto| Esta é uma das resenhas mais sensatas que li sobre o álbum até agora.

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