2015 Resenhas Trilha Sonora

Perdido em Marte (The Martian) – A trilha sonora

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Compositor foge dos temas épicos e do peso do espaço e o filme ainda tem destacada seleção de disco music para reforçar sua leveza

Por Lucas Scaliza

Pode não ser o melhor filme da longa carreira de Ridley Scott, e nem seu blockbuster mais arrasa-quarteirão, mas é o filme que nos deixa acompanhar um realizador no comando de um filme sério, de pura ficção-científica, e de volta ao espaço. E, dessa vez, sem nenhum passageiro alienígena e sem qualquer preocupação em ter que criar uma criação para a humanidade ou para seu predador intergaláctico mais famoso. É “apenas” um homem deixado em Marte, tendo que lidar com a falta de recursos, a solidão, as adversidades de uma terra estranha e inóspita para o organismo humano.

Perdido em Marte (The Martian, no original), é a adaptação do livro de Andy Weir que funciona tanto como um bom exemplo de cinema sci-fi quanto um relações públicas para ajudar a reforçar a imagem e a importância do trabalho da NASA junto ao povo norte-americano e do mundo.

The-Martian-soundtrack

Embora as vastidões desérticas e montanhosas do planeta vermelho realcem a pequenez do botânico Mark Watney (interpretado por Matt Damon) frente a enormidade do desconhecido (um tema recorrente em toda jornada de exploração espacial), o sci-fi está presente a todo momento, mostrando como o homem continua, até nas situações mais adversas, moldando o ambiente para seu próprio proveito. Assim, Watney usa a ciência para cultivar batatas, produzir fogo e água, estabelecer comunicação com a base da NASA na Terra e até percorrer uma longa distância para tentar ser resgatado. No planeta azul, vemos o mesmo processo: a física e a matemática servindo de base para que a NASA consiga resgatar o astronauta antes que ele fique sem comida. E Ridley Scott e seus roteiristas conseguem fazer com que tudo isso não soe frio. Pelo contrário: Perdido em Marte é um filme repleto de humanidade e mais leve que Interestelar, de Christopher Nolan, e Gravidade, de Alfonso Cuarón, com seus longos e exigentes planos sequência.

A trilha sonora acompanha a leveza com que a história é contada de duas formas. A primeira é a presença de uma trilha original composta por Harry Gregson-Williams, uma mistura de música clássica e trilha eletrônica (o compositor trabalhou com o diretor em Reino do Céu, Prometheus e Êxodo: Deuses e Reis). A segunda é uma trilha de músicas pop dos anos 60 aos 90, bastante dançante, incluída na história do filme na forma e uma playlist que uma das astronautas que visitava Marte junto de Watney deixa por lá ao precisarem decolar emergencialmente. São as únicas músicas que o protagonista têm para ouvir durante seus dias (ou sóis) no quarto planeta de nosso sistema solar.

Assim, embora Perdido em Marte tenha uma cena de balé espacial (algo que é repetido desde que Stanley Kubrick usou Johan Strauss II na trilha do clássico absoluto 2001: Uma Odisseia no Espaço), ele não se apoia em uma ópera espacial. Enquanto a trilha de Hans Zimmer para Interstelar é sisuda e parece querer nos esmagar com sua grandiosidade orquestral, repetindo o tema do filme sempre que possível, a mistura de música dance e da trilha de Gregson-Williams aponta para algo menos dramático, fugindo de temas épicos.

Ainda assim, a trilha não economiza em tensão. A faixa final, “Fly Like Iron Man”, tem claramente dois atos. No primeiro acompanhamos a dificuldade de Watney, já no espaço, em ser resgatado por seus colegas de viagem. E quando o balé finalmente se concretiza, toda a tensão dos violinos e dos sopros dá lugar a uma passagem bastante solar e leve. Em outros momentos, quando as batatas desabrocham, ou quando ele consegue fazer água dentro de uma estufa em Marte, a trilha de Gregson-Williams é convenientemente romântica. Outras tantas faixas (“Spotting Movement”, “Science the S*** Out of This”, “Hexadecimals”, “Pathfinder”, “Work The Problem”) misturam violinos, cellos e violas da orquestra com batidas e efeitos eletrônicas para criar uma sensação de progresso e de movimento bastante cadenciado.

Mas como é um filme que impõe novos problemas a todo instante ao humano em marte e aos técnicos da NASA, a trilha vai pontuando os momentos com alguma sensação de perigo e expectativa (“Reap & Snow”, “Messages From Hermes”, See You In a Few”), mas nunca é depressiva, sempre encontrando resoluções bastante positivas e harmonicamente sem riscos. Ora, Mark Watney é, desde a primeira cena, um cara otimista e nunca pensa em desistir. “Crossing Mars”, por exemplo, vai ganhando cada vez mais corpo até se tornar uma música que marca deslumbramento e vitória, uma comemoração da proeza humana em Marte. Aliás, o personagem de Matt Damon vai pontuando suas conquistas uma a uma ao longo do filme (“Sou o primeiro colonizador de Marte”, “Sou o primeiro pirata espacial”, etc).

Já a porção pop do filme atua como a ótima trilha de Guardiões da Galáxia e sua “Awesome Mixtape Vol. 1”. Existem diversos momentos em que a música pop ilustra momentos do filme, criando um efeito mais épico do que a música de Williams, como na cena em que toca “Waterloo”, do grupo sueco ABBA, roubando completamente a cena com sua animação pop. Ou então quando toca “Hot Stuff”, de Dona Summer, e não dá pra pensar em algo que contraste mais com Marte do que essa música marcadamente disco, tão terrena. E tem ainda “Starman”, de David Bowie, tirada de seu disco mais espacial, Ziggy Stardust & The Spiders From Mars (1972), conferindo um dos momentos mais feel good da projeção. “Space Oddity”, também de Bowie, talvez seja uma música ainda mais destacadamente espacial, mas ela tem modulações harmônicas que a tornam melancólica e estranha e, portanto, menos feel good, não combinando com a função geral que determinaram à trilha do filme

Outras canções que aparecem no filme, para desespero de Watney, são “Rock The Boat”, do grupo The Hues Corporation, “Don’t Leave This Way”, de Thelma Houston, “Turn The Beat Around”, sucesso de 1976 de Vickie Sue Robinson (lembrava dela?), além de “Love Train”, dos The O’Jays. Se Guardiões da Galáxia é um filme de ação e as músicas pop possuem uma ligação essencial com o passado do protagonista, Perdido em Marte segue um caminho parecido, colocando música disco para descolar a trama do peso das Grandes Questões que a exploração espacial evoca e tornar Marte mais habitável e ligeiramente colonizada não apenas pelas batatas que Watney consegue cultivar por um tempo, mas também pela cultura musical humana – mesmo que seja odiável para os gostos do astronauta.

Durante os créditos – SPOILER MUSICAL – toca “I Will Survive”, talvez a música mais clichê de toda a era disco. Ela vem sem aviso, como vieram “Starman” e “Waterloo”, reforçando a ironia musical do filme e reforçando que se trata de uma ficção-científica séria, sim, mas não pesada e nem cabeçuda.

Um detalhe que pode ter passado despercebido: o tempo de Watney em Marte é medido em Sóis. Cada “dia” é um Sol e sua sobrevivência depende da contagem de cada Sol. Sempre que essa contagem é exibida na tela, vem acompanhada de um sinal sonoro que é idêntico ao sinal que abre a música “Echoes”, do Pink Floyd, o rock espacial definitivo.

Perdido em Marte não tem a trilha mais inventiva do ano e nem do gênero sci-fi, mas é competente ao dar uma função a ela que serve muito bem à narrativa e ajuda a conectar a audiência com o espaço e, quem sabe, com a função da NASA para o mundo.

spotify:album:17o7ljUmsa9MusgN2BjXwV

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4 comentários em “Perdido em Marte (The Martian) – A trilha sonora

  1. Achei que eu tinha sido um dos únicos a notar o detalhe de “Echoes”.

    • Acho que qualquer fã de Pink Floyd notou, mas fiquei de cara ao ver que nenhuma notícia ou resenha sobre essa trilha em sites gringos faziam essa ligação.

  2. Que droga. . . não consegui ouvir o tema clássico do final do filme, como faço ?

  3. Pingback: Os Oito Odiados (The Hateful Eight) – a trilha de Ennio Morricone (2015) | Escuta Essa!

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