2015 MPB Nacional Resenhas Rock

Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo (2015)

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Punk-samba, samba-enredo experimental e apocalíptico fazem um dos discos mais importantes de 2015

Por Lucas Scaliza

Chama a atenção, de forma inquietante e alarmante, que mesmo com 60 anos de carreira e 78 de idade, A Mulher do Fim do Mundo seja o primeiro da discografia de Elza Soares a conter apenas músicas inéditas. Digamos que oportunidade e tempo para que tivesse gravado um disco apenas com inéditas ela teve, mas optara por seguir outros caminhos. Fato é que A Mulher do Fim do Mundo é um oceano de visceralidade como não se via na música popular brasileira desde os discos dos anos 80 dos Racionais MCs, desde Cartola, desde Elis e, saindo do campo da música, desde a Terra em Transe de Glauber Rocha. E Elza faz isso combinando sua voz áspera com uma sonoridade moderna e angustiante, acompanhando as suas letras críticas, ácidas e adultas, como só uma mulher experiente é capaz de recitar e/ou cantar e darmos crédito a absolutamente tudo que ela tem a dizer. Ela exibe mais uma vez um poder de voz comparável ao alcançado por Hilda Hilst e Elvira Vigna na literatura deste país.

O projeto surgiu da parceria de Elza com músicos paulistanos bem mais jovens que ela, uma associação de mentes e potencialidades que lembra os últimos discos do Caetano. Também devesse ressaltar a presença do músico, cantor e compositor Romulo Fróes nesse grupo, assumindo também o posto de diretor artístico, provando que o álbum é tanto de Elza Soares como dele próprio (um dos compositores mais criativos de sua geração) e de cada um dos envolvidos. A sonoridade bem trabalhada e que congrega samba, rock viajante, música eletrônica e samba-enredo é claramente um esforço coletivo, não fruto de apenas uma mente iluminada. O show de lançamento do disco no início de outubro colocou Elza sobre um palco acompanhada por mais 14 músicos, todos que também estiveram no Red Bull Studios de São Paulo com ela.

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O nome do disco é justificado com o clima de Dia do Juízo Final que perpassa todo o trabalho, como se Elza estivesse chegando aos termos (e às vias de fato) com todo o mundo. A abertura do trabalho nada mais é que o poema “Coração do Mar”, do Oswald de Andrade, musicado por José Miguel Wisnik. Em “Mulher do Fim do Mundo” ela canta a desilusão amarga da vida em meio ao Carnaval com versos como: “Na avenida deixei lá a pele preta e a minha paz/ Na avenida deixei lá a minha farra, minha opinião/ A minha casa, minha solidão joguei do alto do terceiro andar”, cheio de interferências de sintetizador. A música seguinte, a forte “Maria de Vila Matilde”, é a história de uma mulher que não vai ser mais uma vítima do homem e coloca um cara para correr. Ambas são intensas e mostram que o samba praticado pela banda obedece algumas cadências do estilo, mas estilhaça ritmos percussivos e coloca guitarras para fazer riffs e detalhes bastante excêntricos. Não é por acaso que apelidaram muito do que ocorrer no disco de punk-samba (só a nomenclatura evoca mais um traço de visceralidade).

A criatividade aqui, aliada ao peso, lembra bastante o jeitão de MPB-roqueiro de Lenine, principalmente no disco Labiata, em que Tostói abusou da distorção na guitarra. Em “Luz Vermelha” os guitarrista Kiko Dinucci e Rodrigo Campos, junto ao baixista Marcelo Cabral, fazem um trabalho tão moderno que lembra o Radiohead. “Pra Fuder” é uma das mais destacadas faixas do disco. Uma música mundana, sensual e desesperada, algo decadente também, que explode em um refrão onde a mulher canta “Pra fuder, pra fuder, pra fuder, pra fuder” sem rodeios, como se estivesse no comando de uma escola de samba na avenida. Um naipe de metais arranjados por Thiago França e músicos do grupo paulistano Bixiga 70 reforçam o time e conseguem fazer da música um dos momentos mais caóticos e poderosos da música brasileira em 2015.

Foto: Waldemir Filetti
Foto: Waldemir Filetti

Celso Sim participa nos vocais da inquietante “Benedita”, música que parece uma experiência sonora dos americanos The Battles, mas é só um retrato de um lado perigoso e cada vez mais cotidiano na vida do cidadão brasileiro que é o tráfico de drogas e os personagens em volta dele. “Firmeza” não é tão pesada quanto as demais, mas ainda assim tem combinações melódicas que ressaltam a tensão. E se o disco só tem sambas punks e pancadas, “Dança” é uma espécie de bolero torto que vai desafiar a coordenação de seus pés. Em “O Canal”, o guitarrista e compositor Rodrigo Campos volta a encanar seu lado mais alternativo, como se fosse um Jonny Greenwood, e dá-lhe mais fraseados quadrados que desafiam a levada do samba.

Em “Solto” é o violão de sete cordas de Rodrigo Cabral que dá o tom e clima tristonho, acompanhado por flauta, violinos, viola e cello. Após tanta tensão e confusão sonora nas faixas anteriores, a voz rouca de Elza Soares mostra porque é uma grande intérprete e que, sem ela, a ideia dos músicos, compositores e arranjadores de Sampa talvez não tivesse tanta personalidade e verdade no final das contas. Ainda que Elza não seja compositora e que esteja bem claro que a artista seguiu as ideias inovadores de gente bem mais jovem, parece que ela encarnou com naturalidade a personagem mulher, negra, madura, dona de si – de sua vida e de sua morte – para fazer de A Mulher do Fim do Mundo um dos discos mais destacados de sua discografia e um dos melhores registros nacionais do ano.

Poderia ter sido um disco de samba mais ameno, mais tradicional. Com certeza, seria mais facilmente aceito pelo público em geral e pelos fãs do estilo. Mas não ser tradicional, usar palavrões e a poesia para tratar de temas pesados desafiam a música brasileira como um todo. As bandas de rock tem se prestado, em sua grande maioria, a ritmos mais doces e gostosos, sem grandes experiências e conteúdo com o mínimo possível de crítica. Talvez seja o caso de lembrar que o Titãs, após anos acomodados como uma banda de trilha para novelas, lançou o ótimo Nheengatu ano passado, resgatando a veia mais nervosa e crítica da banda. Ainda que louvável, o fizeram dentro do punk e rock de garagem que já lhes era habitual décadas atrás. O rap assumiu o comentário social, mas mesmo ele precisa de refrãos fáceis para sobreviver, como bem mostra o bom Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa do Emicida. E a MPB entrou, em sua maioria, numa ode ao amor e a um modo mais fofo de se representar que não deixa de ser bonito e ter sua validade, mas também acaba esvaziada de conteúdo político e social.

Bom lembrar nesse momento que conteúdo político e social não garantem qualidade musical ou do conteúdo das letras; música boa não se faz apenas com críticas ou retratos da sociedade, como se rock, rap, MPB ou qualquer outro estilo precisassem se comportar como páginas de um jornal. No entanto, quando música bem feita e letras espertas se unem, geralmente estamos diante de uma obra que almeja mais do que o entretenimento. É o caso de A Mulher do Fim do Mundo, um exemplo perfeito entre música avançada que desafia o status quo e perverte o samba para devolver a ele a energia e a visceralidade que o estilo perdeu. E Elza, nesse contexto, acaba talhando mais uma vez seu nome entre as figuras mais importantes da música brasileira.

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6 comentários em “Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo (2015)

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