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Ian Ramil – Derivacivilização (2015)

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Segundo disco de Ian Ramil é caótico, tenso e experimental

Por Lucas Scaliza

Ian Ramil voltou ainda mais estranho e mais caótico do que em seu álbum de estreia, IAN (2014). E isso é bom. É mais um artista que leva a cabo seu compromisso com a criatividade e com uma forma de música que não serve para acalmar ou acalentar o ouvinte. Derivacivilização, que está disponível para download gratuito, chega com “Coquetel Molotov” que, para mim, não é apenas uma música sensacional e raivosa, mas uma indicação de que o Ramil e sua banda estão armados dessa vez. Nada de imitar patos dessa vez.

A mistura de Radiohead com Apanhador Só do disco cria um álbum roqueiro pesado na linguagem e na sonoridade, como os recentes Selvática da Karina Buhr e A Mulher do Fim do Mundo de Elza Soares. Aliás, os versos “Já vai passar” cantados em “Derivacivilização” não afastam de forma alguma a sensação criada pelo dedilhado de guitarra de estarmos em um redemoinho que nos faz girar e girar, rumo ao centro de um buraco negro.

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Também não dá para ouvir “Rita-Cassete (A Re Par Ti Ção)” sem lembrar experiências dos Beatles, do Flaming Lips e até dos Mutantes com ruídos e faixas de não-música. “Salvo-Conduto” e “Artigo 5” são duas das canções mais interessantes do álbum. A primeira muda o tempo todo, deixando o ouvinte inquieto e em constante expectativa. A faixa é bem organizada, mas a banda se esforça para estilhaçar a percepção de tempo e ritmo. Já a segunda é uma crítica mordaz às incongruentes aplicações da lei. No fundo, é um reggae, mas cheio de interferências que desestabilizam sua percepção do estilo. O baixo aqui é um primor e a participação de Gutcha Ramil também cai bem à faixa.

No meio de tanta loucura e de um clima tão pesado e arrastado, Ian ainda coloca uma música mais branda e bonita para dar um descanso. “Devagarinho” é praticamente voz, violão e alguns efeitos sonoros. “A Voz da Indústria”, com Alexandre Kumpinski, do Apanhador Só, traz um ritmo mais dançante ao disco, também dando um tempinho no caos. Ainda assim, é uma faixa bastante densa e nada suave.

Derivacivilização é experimental e muitas vezes abstrato como IAN, sua estreia solo, não deixava entrever que seria. Parecia sim que havia muito campo de esquisitices e músicas que fogem do convencional em seu horizonte, mas o novo trabalho vai fundo nessa estética de caos, dando poucos momentos de respiro ao ouvinte. Da forma como “A Voz da Indústria” termina, só poderíamos pedir por algo mais contemplativo como “Quiprocó” mesmo, com seu dedilhado gentil e diversas vozes construindo a malha harmônica que faz a cama para a voz de Ramil.

Guitarra, piano e bateria estão muito mais anárquicos dessa vez, grunge na atitude e meio Sonic Youth na execução. “Corpo Vazio” é um rock sujinho com apenas três minutos, mas a sensação arrastada da faixa faz parecer que dura muito mais. “Não Vou Ser Chão Pros Teus Pés” (que começa com grasnados), tem mais uma linha absurda de baixo, fazendo um rock com groove garageiro, uma pegada meio Jimi Hendrix, e uma das melhores e mais intensas faixas do álbum.

Derivacivilização é tão bom, estranho e interessante que faz IAN agora realmente soar como um primeiro disco de carreira. O disco foi feito por meio de financiamento coletivo no Catarse e tocado por um time que está muito entrosado: o guitarrista Felipe Zancanaro (Apanhador Só), o baixista Guilherme Ceron, o baterista Martin Estevez e o clarinetista e pianista Dom Pedro. Juntos soam pesados e até um pouco atropelados, mas bastante à vontade e com a energia característica de quem se reuniu em uma casa em Pelotas (no Rio Grande do Sul, terra de Ian) e tocou cercado pelos outros músicos.

Ian Ramil cita discos como Bitches Brew, do Miles Davies; Blood Sugar Sex Magik do Red Hot Chili Peppers; Paixão de V. Segundo Ele Próprio, de seu pai, Vitor Ramil; Antes Que Tu Conte Outra, o último lançamento do Apanhador Só; Asleep On The Floodplain, do Six Organs of Admittance; e Construção, de Chico Buarque. Ele explica aqui como essa miríade de referências o influenciou seu disco e, de fato, todo esse caldeirão cabe e faz sentido em Derivacivilização.

Não é um álbum fácil. Há certa perplexidade presente e nem os momentos mais amenos são capazes de relaxar o ouvinte por completo. Não é uma obra que tenta ser bonita. É o contrário: sua força está em todas as arestas mal aparadas que mostram como é um disco orgânico, criado com atitude e correndo riscos. Além disso, confirma a importância de Ian Ramil para o rock brasileiro em sua vertente mais alternativa e também mais criativa.

spotify:album:71aR276bJfg0xIiHjzmmXW

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4 comentários em “Ian Ramil – Derivacivilização (2015)

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