2015 Folk Indie Pop Resenhas

Joanna Newsom – Divers (2015)

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Amor e morte, tempo e transcendência no labirinto musical

Por Lucas Scaliza

Ainda me surpreendo como a música de Joanna Newsom conseguiu sair de seu ninho e encontrar espaço em um nicho maior, sendo colocada ao lado do de outras bandas e artistas rotulados como indie. Talvez o hipsterismo da descoberta – uma jovem californiana que toca harpa, algo totalmente incomum para a música pop de todos os tempos – tenha aguçado os instintos da moçada e ela caiu nas graças de parte do público.

Embora seja uma música fofa, não é uma música fácil. A harpa em si não é um instrumento a que estejamos acostumados a ouvir com tanto protagonismo. Mesmo assim, os primeiros discos de Newsom estão cheios de polirritmos (compassos que mudam constantemente), uma influência tanto do folk quanto do pop alternativo e do clássico, conseguindo temperar tudo com a música dos Apalaches, a música popular antiga da costa leste dos Estados Unidos, onde fica a cordilheira dos Apalaches. Suas músicas são bem longas, algumas ultrapassando os 17 minutos. O disco Have One On Me (2010) era triplo, e músicas de 8 minutos ou maiores são bem comuns. Além disso, sua voz aguda é muito peculiar. Há quem diga que é infantil, mas é uma forma de reduzir muito a qualidade frágil e até mesmo sonhadora que sua voz tem.

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Tudo isso faz de Joanna Newsom uma artista um tanto singular: não se encaixa no mundo pop como quase nenhuma outra compositora; a exposição que já conseguiu entre o público indie/hipster e as publicações de música pop e alternativa (NME, Pitchfork, Rolling Stone, etc) a afastam do nicho de música clássica ou coisa do tipo; a forma como canta e junta diversas influências cria um som bastante original e sem muita correspondência em qualquer outro lugar.

O bonito Divers é o quarto capítulo de sua discografia e mostra um desenvolvimento ainda maior do que no antecessor. Para começar, o disco tem mais músicas do seus trabalhos anteriores: são 11 composições com tempos mais comedidos, embora ainda existam faixas de 6 e 7 minutos. (para efeito de comparação, Ys (2006) tinha apenas cinco faixas, todas muito longas). A união entre seu lado folk, clássico e pop parece ainda mais completa do que em Have One On Me. Tendo deixado os polirritmos um pouco de lado, as faixas parecem menos intrincadas e mais agradáveis. “Anecdotes” nos apresenta a todo o colorido de Joanna, seja por parte de sua harpa ou do piano, um piano que está muito mais presente. Flautas e outras cordas também completam seu som vanguardista. Já “Sapokanikan”, tem muito menos de clássico e muito mais de pop. Uma faixa doce e que mostra a virtuose instrumental e vocal de Newsom conforme se aproxima do final. A letra é enorme e a melodia está cheia de nuances que desafiam a interpretação de qualquer possível cover. Uma faixa que também faz uma delicada passagem de 4/4 para 3/4. Você quase não percebe a mudança.

“Leaving The City” tem a ajuda até de uma guitarra com leve distorção para ajudar na sua dinâmica. Parece algo que seria feito por uma parceria entre Alex James, do Blur, com a Björk. “Goose Eggs” chega mesmo a flertar ligeiramente com o country. É uma profusão de notas em pelo menos três camadas: clavicórdio (semelhante ao cravo), harpa, piano e teclado. Já “Same Old Man” é uma canção mais notadamente acústica, com notas de blues para dar uma ambientação diferente. “Waltz Of The 101st Lightborne” é mais uma das canções que parecem mais acessíveis, dentro do parâmetro Newsom de acesso, é claro.

Com voz e piano grave na maior parte do tempo, “The Things I Say” surpreende no final, quando serrotes fazem as vezes do sintetizador e preenchem a faixa com um sussurro fantasmagórico. Já a faixa título, “Divers”, é um primor de canção e exercício de estilo. É a maior música do álbum e Newsom usa com esmero o espaço, aproveitando para ir construindo a música aos poucos, partindo de um minimalismo para algo mais acelerado. É o encontro da delicadeza de “Pagan’s Poetry”, da Björk, com a fase madura de Kate Bush.

Enquanto “You Will Not Take My Heart Alive” surge como uma música que combina drama cinematográfico, sobretudo no final, e arranjos românticos e cheios de cor, a singela “A Pin-Light Bent” valoriza mais os espaços vazios de som, fazendo com que cada percussão da harpa seja valorizado. Parte dos vocais é feito por Emily, irmã de Joanna, o que ajuda a criar uma empatia ainda melhor com a faixa. A voz de Emily é mais suave e agride menos o ouvido do que os agudos mais duros de Joanna.

Talvez Kate Bush seja um nome conveniente para se evocar ao falar de Divers. A inglesa, também criativa e alternativa para a música pop/rock que faz, também permeava seus discos com temas e conceitos, sendo Hounds of Love (1985) o exemplo mais conhecido disso. Neste disco, Newsom lida com a morte, com a perda e, principalmente, com o tempo e sua natureza fugaz, imaterial e inescapável. O amor, cantado de forma tão profunda em “Divers”, como uma impossibilidade frente à ação do tempo, só encontraria um meio de escapar do inevitável fim (separação, morte) caso transcenda. É na bela “Time, As A Symptom”, no fim do disco, que Joanna tenta transcender, chegando a colocar toda a banda de uma vez para tocar, com direito a percussão, metais e sons de pássaros para complementar a dinâmica crescente da canção. A última palavra cantada por ela (“Trans…”) soa oca, como um chamado interrompido, como se acordasse de sobressalto de um sonho. Se realmente conseguiu transcender, deve ter sido praticamente um arrebatamento. Ou círculo perfeito, um Ouroboros, um Eterno Retorno, já que a primeira palavra cantada em “Anecdotes” é “Sending” – trans-sending seria uma palavra homófona de “transcending”.

A própria Joanna produziu Divers, tendo como braço-direito Noah Georgeson mais uma vez. Reuniram uma série de pessoas em torno do projeto para ajudar nos arranjos de cada canção. Ryan Francesconi capricha nos trombones de “Sapokanikan” e traz o blues, o country e o rock para o disco com sua guitarra. Dan Cantrell é o responsável por usar a vibração de serrotes para criar a fantasmagoria no fim de “The Things I Say” e Dave Longstrenght, da banda Dirty Projectors, faz as camadas de vozes funcionarem em “Time, As A Symptom”. Assim como o compositor e arranjador clássico Nico Muhly dá um ar de fantástico à “Anecdotes”.

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O disco ainda continua bastante intrincado e deverá exigir de novos e velhos ouvintes algum tempo até cada faixa parecer mais natural. A forma como Joanna estrutura suas canções as deixam um tanto imprevisíveis, e é isso que geralmente mais incomoda o ouvinte casual. Mas as faixas de Divers são feitas para serem bonitas e brilhar, o que ajuda a degustá-las no final das contas. É uma mistura do folk psicodélico de Jessica Pratt com o estilo de Natalie Prass, com algo de Feist na forma de se entregar ao pop exigente. Se aprofundar na obra continua sendo algo parecido com caminhar por um labirinto de sons e palavras, para quem tem fôlego.

A voz de Joanna Newsom ainda vai ser um problema para quem não gostou de seu timbre nos discos anteriores. Ainda que carregue a fragilidade dos primeiros discos, seu canto se mostra muito seguro e firme, denotando que a fragilidade pode ser calculada e melhor calibrada. No mais, Divers é bastante emocionante e o tipo de obra que mesmo anos mais tarde ainda guardarão segredos, nuances e detalhes para serem descobertos e redescobertos.

Se há amor, há felicidade. Mas também há medo. Há a possibilidade da perda unida ao amor. Se não for uma separação, será a morte. Daí não é uma questão de “se” há perda, mas de “quando”. É uma questão de tempo. A reflexão sobre isso é melancólica, triste e incômoda. Todas essas emoções inundam Divers tanto quanto o dedilhado da harpa ou as teclas do piano. Tire um tempinho para mergulhar com ela. Vale a pena.

Ouça Divers na íntegra no link a seguir: http://www.npr.org/player/embed/449323861/450259612

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1 comentário em “Joanna Newsom – Divers (2015)

  1. Interessante como a voz de Jessica Pratt é parecido com o de Joanna Newson ambas produzem música melódica sendo a de Joanna Newson bem mais complexa.

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