2015 Especial Resenhas Rock

The Verve – A Northern Soul (1995) faz 20 anos

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Segundo disco da banda inglesa é psicodelia alternativa e intensa

Por Lucas Scaliza

O que é?

A Northern Soul é o segundo disco de estúdio da banda inglesa The Verve, lançado em 20 de junho de 1995.

Histórias e curiosidades

Encaro o primeiro disco do The Verve, A Storm In Heaven, como a versão inglesa e atualizada para os anos 90 do mesmo tipo de rock psicodélico feito pelo The Doors na Los Angeles de meados de 1960. Mas troque o blues dos americanos pelo britpop e pelo rock alternativo e uma dose cavalar de viagens lisérgicas feitas com basicamente baixo, bateria, duas guitarras, violão e vocal e muito reverb e efeitos de pedais e de estúdio. Um disco forte, quase garageiro (“No Knock on my Door”, por exemplo), bastante cru. A Northern Soul, que completou 20 anos em 2015, é um refinamento de todas essas características, mantendo a energia do grupo em primeiro plano, fazendo com que muitas faixas soem caóticas.

É fato que o lado mais desesperado da psicodelia do álbum e seu peso rock’n’roll se devem às angustiadas composições de Richard Ashcroft somadas a um grande uso de drogas que dominou o quarteto durante as gravações. Há uma leve influência da música negra no disco, geralmente perceptível nas levadas mais quebradas e suingadas do baterista Peter Salisbury e do baixista Simon Jones. O vocal de Ashcroft está mais melódico do que no disco anterior, mas ainda conserva a aparência de ser feito espontaneamente, sem muito cálculo. Já a guitarra de Nick McCabe funciona como um dos motores da agressividade lisérgica de faixas como as sensacionais jams “Brainstorm Interlude” e “(Reprise)” e de detalhes viajantes em faixas mais tranquilas como “Drive You Home”.

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Os ensaios começaram em uma sala escura na cidade de Wigan, na região de Manchester, e até cogitaram gravar ali mesmo o disco. Mas as condições eram precárias demais, então contrataram o produtor Owen Morris (o cara que trabalhou no Definitely Maybe do Oasis em 1994) e foram ao Loco Studios, no País de Gales. Lá, muita coisa aconteceu e o processo todo foi bastante conturbado. Fizeram uma festa regada a álcool e ecstasy que durou duas semanas antes de começarem a trabalhar e Ashcroft passou semanas desaparecido. Morris ficou tão puto com a situação de todos os músicos que quebrou uma janela do estúdio após a gravação de “History”.

É impossível saber se as condições da banda ajudaram a fazer as canções soarem tão doloridas ou se foi o clima tortuoso das composições que acabou invadindo a vida do The Verve, mas um se adequa ao outro muito bem. Richard conta que ficou em Londres por três meses tentando resolver alguns problemas com sua namorada na época, mas as coisas não saíram bem e ele passou mais dois meses se remoendo física e mentalmente com a situação. Ao voltar para o convívio da banda, encontrou o grupo fazendo um som que, disse ele, traduzia muito bem o que sentia naquela fase.

O The Verve era uma banda dos anos 90 como mandava o figurino dos dois lados do Atlântico, se envolvendo em vários problemas. Ashcroft já precisou ser hospitalizado por desidratação depois de tanto beber e Salisbury quebrou um quarto de hotel após abusar dos entorpecentes. E já eram amigos dos irmãos problema Gallagher, do Oasis. A faixa “A Northern Soul” foi dedicada a Noel – que dedicou “Cast No Shadow” ao “gênio Ashcroft”, no (What’s The Story) Morning Glory? (1995). E as palmas que você ouve em “History” são de Liam Gallagher. Aliás, Noel achou que A Northern Soul foi o terceiro melhor disco de 1995.

Um cara difícil até hoje, talvez Ashcroft seja o principal inimigo da própria banda, emperrando seu crescimento por conta de sua personalidade. Três meses após o lançamento do disco, o cantor e compositor desfez a banda e a reformulou semanas depois, mas sem Nick McCabe. Ele esperava trabalhar com Bernard Butler, do Suede, mas não deu certo. Foi aí que Simon Tong apareceu – e ficou no grupo de vez, até mesmo quando McCabe voltou para gravar o Urban Hymns em 1997.

Músicas e destaques

A New Decade: uma faixa libertadora. Guitarras altas, baixo e vocal arrastado, bem suja de distorção e arranjos espontâneos. Embora possa-se argumentar que McCabe coloque alguns detalhes psicodélicos, a faixa já indica uma direção mais alternativa e bastante visceral. O mesmo clima pesado e guitarreiro é mantido na faixa seguinte, “This Is Music”, marcando a força e escuridão do álbum.

On Your Own: a primeira balada do disco e uma das mais bonitas já gravadas pela banda. Um lado mais leve e límpido do The Verve que ficaria ainda mais evidente no disco seguinte. Enquanto sua levada é típica de faixas semiacústicas do rock inglês, possui versos inesquecíveis como: “All I want is someone who can fill the hole/ In the life I know/ In between life and death/ When there’s nothing left/ Do you wanna know?” Na gravação original, McCabe toca piano, violão e violão de 12 cordas, todos mixados de forma a ressaltar a levada e os dedilhados da canção.

A Northern Soul: embora a música anterior do álbum, “So It Goes”, seja um exemplo bem acabado de como o The Verve era uma baita banda de rock inglês com mão para o psicodélico, é em “A Northern Soul” que suas habilidades lisérgicas surgem de forma ainda mais acentuada. A guitarra de McCabe carregada de overdrive e de efeitos de expressão e o baixo de Simon Jones bem viajante.

History: a música que mais destoa no álbum e que melhor constrói uma ponte com o estilo que se desenvolveria em Urban Hymns. Também uma balada de fundo acústico, mas com uma utilização bastante destacada do naipe de cordas de uma orquestra, única música do disco a usar esse recurso. A música chegou a 24ª posição nas paradas britânicas de 1995 e foi o último single de A Northern Soul, lançado após a banda se separar. Em 2014, a revista inglesa NME colocou “History” entre as 500 melhores canções de todos os tempos, em 312º lugar. Seus dois primeiros versos – “I wander lonely streets/ Behind where the olt Thames does flow” – foram tirados do poema Londres do também inglês William Blake. Dizem que a letra melancólica é sobre a separação de Ashcroft durante a produção do disco. O cantor nega. Ele diz que cada música do disco é uma faceta do que significa ser um northern soul (pessoa parte de um movimento musical do fim dos anos 60 muito influenciado pelo soul americano).

Stormy Clouds/(Reprise): essas duas faixas mais psicodélicas marcam o grande último suspiro da veia mais lisérgica do The Verve. Algo parecido apareceria muito brevemente no disco seguinte e é praticamente inexiste em Forth (2008).

ca. 1993, Probably UK --- The Verve, a British neo-psychedelic rock band, are (left to right) Simon Jones, Peter Salisbury (back), Richard Ashcroft, and Nick McCabe. --- Image by © S.I.N./CORBIS
Image by © S.I.N./CORBIS

Passa no teste do tempo?

A Northern Soul não foi um disco que fez um baita sucesso na época, mas aumentou o prestígio da banda. Com o tempo, a sonoridade densa e alternativa foi ganhando mais espaço e mais adeptos, fazendo com que hoje seja um dos discos mais interessantes de se revisitar do The Verve. É claro que Urban Hymns continua sendo o disco mais famoso, mais prestigioso e o trabalho mais bem produzido do grupo, mas aí já temos uma banda de som mais clean, polido, calculado e amadurecido para o mercado. A graça de A Northern Soul é encontrar-se com uma banda mais visceral e explorando o lado mais escuro da psicodelia urbana.

Com o revival da estética psicodélica tomando como matriz o que era feito na década de 1960, conhecer a versão do The Verve em meio à explosão do britpop na Inglaterra e ao grunge norte-americano é uma boa maneira de verificar como a banda estava trilhando seu próprio caminho, apostando em uma sonoridade bastante diferente para os padrões da época. E é uma psicodelia bem diferente da praticada atualmente, pois não era retrô. O guitarrista Nick McCabe e o baixista Simon Jones continuam desenvolvendo a proposta, de uma forma diferente agora, na banda Black Submarine, que lançou em 2014 seu primeiro álbum, New Shores, que vale a pena conferir.

Quem conhece o The Verve pelos hits do álbum de 1997 conheceu apenas um lado da banda. A Northern Soul ainda é um dos melhores trabalhos do rock inglês da década de 90 e te apresenta Richard Ashcroft, McCabe, Jones e Salisbury compondo em meio à adversidade não para encontrar paz ou exorcizar seus demônios por meio da música. As canções refletem justamente a luta da banda com seus problemas – e nenhum parece ter se resolvido até hoje.

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6 comentários em “The Verve – A Northern Soul (1995) faz 20 anos

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