2015 Eletronica Indie Pop Resenhas

Grimes – Art Angels (2015)

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Ela fez quase tudo sozinha e até aprendeu a tocar instrumentos. O resultado é um pop animado

Por Lucas Scaliza

A Grimes quase nos engana. A julgar pelo primeiro acorde de “laughing and not being normal” daria para supor que Art Angels poderia ser, ao menos em parte, mais uma experiência de fronteira entre o pop alternativo e o eletrônico esquisitinho de seus álbuns anteriores. No entanto, conforme a harmonia vai se revelando e a melodia dá o ar da graça notamos que Grimes está diferente, mais lírica e mais doce.

O restante de seu novo disco confirma: a voz é a mesma, o jeito soturno da produção também está presente, mas a direção é outra. Embora ainda seja uma artista independente e alternativa na vastidão deste mundo, canções como “California”, “Flesh Without Blood”, “Artangels”, “REALiTi” e “Butterfly” trazem mais cores, luz e batidas pop, modernas e muito mais acessíveis do que a maioria das faixas de Visions (2012), Halfaxa (2011) e Geide Primes (2010). Muito mais synthpop agora do que dark wave, ou muito mais próxima de artistas do k-pop (um gênero que ela aprecia também) do que de Aphex Twin. Onde havia estranheza agora podemos encontrar mais familiaridade.

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De um lado, a canadense Claire Elise Boucher perde um pouco de seu charme imprevisível e do desafio que poderia ser ouvir seu disco. De outro, é mais uma forma de expressão em que ela se arrisca. Claire/Grimes nunca escondeu que funciona em fases ou ciclos, transitando entre os estilos e usando suas diferentes influências de rock, metal, eletrônica e pop de uma maneira bastante livre. Assim, caso Art Angels seja muito pop para você que já a acompanha há algum tempo, pode ser só mais uma fase, mais um trabalho. E se você ainda não ouviu a moça, este disco pode ser uma porta de entrada mais escancarada.

Dessa vez as músicas têm mais melodia, o que consequentemente coloca a voz dela em primeiro plano, com versos mais regulares e refrãos bem estruturados. Além de cantar, Grimes também compõe e produz todos os detalhes e batidas de suas faixas, fazendo com que nos álbuns anteriores a atenção se voltasse para a forma de sua música. As ótimas “Scream”, com participação de Aristophanes, e “Venus Fly”, com Janelle Monaé, são as duas músicas mais viscerais do álbum. A primeira mistura batidas eletrônicas, um riff de guitarra e gritos de terror. A segunda apresenta a faixa mais eletrônica do registro, pegando pesado nas batidas e linhas de baixo.

“Flesh Without Blood” é um eletro-rock animadinho com um refrão cativante. Até mesmo sua voz está mais suave e menos aguda do que estamos acostumados. É o primeiro single de Art Angels e uma faixa bastante radiofônica, perdendo apenas para “Pin”, a mais ensolarada e positiva música de seu catálogo até agora. “Kill V. Maim” vive na fronteira do pop com o punk, guitarra básica de um lado, percussão forte de outro e, no centro, o vocal melodioso dela. Já “Belly of the Beat” traz um violão para dentro do mundo eletrônico da Grimes, o que lembra alguma coisa da Nelly Furtado. “California”, a música sobre como as mulheres na indústria da música são tratadas pela mídia, é um eletropop com country bem interessante.

Em Visions, Claire Boucher usou o programa Garageband para compor todas as faixas. Com a intermediação da tecnologia de produção e gravação ela não precisava se preocupar com a qualidade da instrumentação. Para completar, ela disse que gravou o disco anterior sob efeito de muitas drogas, o que ajudou a liberar a imaginação e a forma musical. Mas desta vez ela trabalhou sóbria e aprendeu a tocar um pouco de bateria, guitarra, ukelelê, teclado e violino, aplicando essas novas habilidades na produção de Art Angels. Então, se as músicas parecem ter uma estrutura mais convencional, isso pode ser reflexo desse novo processo de composição e gravação que ela tentou, não tirando o aspecto eletrônico e o dream pop de seu som, mas agregando um som mais encorpado de banda.

O apelo pop da produtora não entrega nenhuma faixa icônica ou criativamente original, mas para quem era do underground de Montreal e só agora está migrando para o centro do pop mainstream, Boucher se dá bem. “Artangels” é um bom dance, “Easily” é uma boa baladinha suave, “Pin” é uma boa música para festas, “REALiTi” é o synthpop por excelência, “World Princess II” tem uma boa percussão e “Butterfly” fecha o disco com um bate-estaca poderoso.

É impossível saber quais serão os próximos passos dessa produtora canadense. Boucher não se limita pelo gênero. Não é porque Art Angels é pop que o próximo deverá ser também. Ela usa os estilos conforme a ocasião. “Pop é só mais um gênero. Algumas das minhas músicas são influenciadas pelo pop, outras não”, ela disse ao The Guardian. “A proposta da Grimes é não ter gênero. Tentar rotulá-la não faz sentido, porque você sempre vai morder a língua dois meses depois. As pessoas ficam tentando ser, tipo, ‘estamos tentando dissecar o estilo da Grimes.’ Se você ainda não percebeu, isso nunca será possível.”

Na mesma entrevista, Boucher diz que gosta de música que a faz se sentir desconfortável na primeira vez que a ouve. “Acho que isso é muito importante; às vezes ela nunca melhora, mas às vezes é ótimo.” Esse tipo de música pode ser o que Arca faz com Mutant, ou Björk e seu Vulnicura, ou mesmo o Choose Your Weapon do Hiatus Kaiyote. O que Art Angels faz é justamente o contrário: tira a inquietação sonora que testemunhamos até Visions e dá uma seleção de canções boas, mas bem mais convencionais.

Como uma forma de expandir e diferenciar o catálogo, Art Angels será muito importante para a carreira de Boucher como Grimes. É a chance de ganhar um público maior. Só não estou certo de que será o mesmo público disposto a apostar em uma artista que muda de estilo como muda a cor do cabelo.

No mais, o álbum é um triunfo pessoal da produtora. Ela praticamente sozinha compôs, gravou e produziu cada uma de suas músicas. Cansada de ir a estúdios e não poder mexer nos equipamentos – uma tarefa que cabia ao engenheiro de som (sempre um homem) do lugar –, ela decidiu fazer sozinha o seu trabalho (o que inclui a arte da capa também, muito influenciada pelos produtos japoneses e coreanos). Apenas a mixagem foi feita por um homem. Agora olhe o encarte de gente como Beyoncé, Taylor Swift e Madonna e conte quantas mulheres estiveram envolvidas na criação de seus álbuns.

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5 comentários em “Grimes – Art Angels (2015)

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