2015 Pop Resenhas

Laura Pausini – Simili (2015)

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Com muitas baladas de piano e orquestração, italiana não se rende ao eletrônico

Por Lucas Scaliza

Com uma discografia já bastante ampla, Laura Pausini surpreende em Simili ao não fazer o movimento mais previsível que qualquer cantora pop atual escolheria para seu novo álbum em 2015: apostar no EDM, na eletrônica e no pop amanteigado para festa. Pausini até se arrisca nesse terreno, mas em apenas duas faixas: na eletrolatina “Innamorata”, talvez uma das mais fracas do disco, e a rápida “Io C’ero (+ amore x favore)”. No restante do disco ela é fiel a si mesma e ao pop italiano que ela ajudou a formar desde os anos 1990, misturando faixas românticas com pop rock e apostando numa sonoridade quase totalmente executada por uma banda de verdade, e não por um produtor atrás de um software. Para o mundo pop de hoje, isso é um diferencial.

Embora a italiana também aposte em fórmulas consagradas em sua própria discografia, ela ainda sabe seguir alguns caminhos menos óbvios do que 80% de suas concorrentes pelo mundo afora. A abertura de Simili com “Lato Destro Del Cuore” é um achado: a música começa com piano e violinos e vai virando um pop rock bastante envolvente. Os desvios na harmonia são bem-vindos, transformando essa numa das faixas mais interessantes e bem feitas do disco. É o tipo de faixa que é rica de arranjos e não deixa a impressão de que se repete. Para Pausini, apenas 3’52” é o suficiente para ela exibir toda a sua beleza. Na mão de Lana Del Rey, essa faixa teria 6 minutos, para que ela pudesse repetir refrãos e partes mais dramáticas. E aí está outra característica de Laura: não pecar pelo excesso, mesmo que no caso de “Lato Destro Del Cuore” fosse uma benção ouvi-la por mais alguns minutinhos. Ah, e este é o primeiro single do álbum, uma escolha muito honesta com a produção e o estilo de Pausini, pois a escolha mais óbvia talvez fosse uma daquelas duas faixas mais eletrônicas.

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A faixa-título “Simili”, “Chiedilo al Cielo”, “Ho Creduto a Me” e a ótima “Colpevole” também soam, a princípio, como baladas de piano e violinos, mas logo se transformam em um leve rock. “200 Note” não foge do que já conhecemos da compositora, mas consegue aliar um clima épico – com direito a violinos e sopros – a um pop bem feito e acessível.

É verdade que há uma predominância de baladas de piano, ou pelo menos de um esquema musical que se apoia demais nesse gênero e nesse instrumento base. Mesmo que não faça músicas ruins, isso contribui para que Simili não seja tão diverso quanto poderia ser, seja dentro da discografia de Laura Pausini ou como forma de diferenciar uma faixa da outra dentro do mesmo disco. “Il Nostro Amore Quotidiano”, por exemplo, parece um grande mais do mesmo que só empolga na segunda metade, quando a dinâmica aumenta e a banda sobe a dinâmica e abusa dos violinos. “Nella Porta Accanto” apenas substitui o piano pelo violão, mas também segue o esquemão básico das baladas italianas, sem propor nada de original.

Mesmo não se rendendo ao EDM, Pausini sabe que sua música precisa ressoar no mercado latino de forma ampla. Por isso Simili não apenas também possui uma versão em espanhol chamada Similares como incluiu algumas músicas com ritmos latinos mais característicos, como é o caso de “Tornerò (com calma si vedrà)”. “Sono Solo Nuvole” é a composição italiana por excelência do disco, com direito a uma interpretação quase clássica do piano e uma melodia de voz que se contém quando o ouvinte acha que vai decolar. Já “Per La Musica” tem uma bateria bastante expressiva, grandes teclados e coros de “Oh oh oh”, um conjunto que lembra o Imagine Dragons. E enquanto “Lo Sapevi Prima Tu” carece de alguma luz própria, “È a Lei Che Devo a L’amore” finaliza Simili com paixão e beleza. Um dedilhado lindo ao violão acompanha a voz de Lauru e gravações da voz de uma criança bem pequena. É a faixa mais introspectiva e outonal do álbum, mas também a mais expressiva artisticamente, a mais autoral e menos voltada para o mercado.

A carga roqueira de Simili é bem menor do que a de Inedito (2011). As guitarras com distorção estão menos presentes e não tão altas, assim como a bateria também não ocupa um espaço tão poderoso quanto no álbum anterior. A direção tomada aqui é muito mais pop, mais amena. A maior parte das músicas crescem em dinâmica para se tornarem mais emocionantes, mas apostando mais em naipes de cordas, sopros e teclados para isso do que em guitarra, bateria e baixo. Aliás, embora Simili seja mais parecido com Primavera em Antecipo (2008), até mesmo Primavera tem um protagonismo maior da porção pop rock de Pausini.

Os principais parceiros de Laura Pausini em Simili continuam sendo Biagio Antonacci, Lorenzo Jovanotti e Giuliano Sangiorgi, que ajudam a manter a bom aproveitamento da voz da cantora e seu estilo reconhecível a quilômetros de distância. Ou seja, fazem um bom trabalho para um álbum de Laura Pausini, maduro e bem arranjado, mas sem correr grandes riscos. A maior novidade do disco é que todas as 15 faixas ganharão um videoclipe próprio. Não é, de forma alguma, um disco que irá atrair novos admiradores ou propor novos ares para a música da popstar.

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Laura-Pausini-2015

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4 comentários em “Laura Pausini – Simili (2015)

  1. Interessante seu texto, e concordo com quase todos os argumentos, exceto pelo fato de “innamorata”ser a mais fraca, mas longe de ser a melhor.
    Gostaria que apontasse como foi recebido o disco na Itália, onde ela é mais odiada que amada, ela mesma fala do receio de qualquer evento que por lá ela participará.
    Abraços

  2. Refrões, não “refrãos”.
    Laura, nao “Lauru”.
    A “criança pequena” é Paola Carta, a filha dela com Paolo.

  3. Pingback: Alexia – Quell’altra (2017) – Escuta Essa!

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